Entrou direto, acendeu a luz e respirou fundo.
A mesma poeira. O mesmo cheiro de papel velho. O mesmo silêncio.
Mas agora ela não era a filha em choque diante da caligrafia da mãe.
Agora era uma mulher atrás de respostas, e isso a tornava mais fria, mais rápida, mais perigosa.
Começou a revirar o depósito com método.
Abriu gavetas do armário de madeira. Examinou malas antigas. Afastou pilhas de pastas. Verificou caixas menores. Havia documentos demais, memórias demais, vestígios demais de uma vida interrompida. Tudo parecia importante. Tudo parecia incompleto.
O tempo passou sem que ela percebesse.
Só parou quando, ao empurrar uma coluna instável de papéis e caixas menores junto à parede dos fundos, sentiu a resistência de algo sólido atrás.
Valentina afastou mais uma pilha, tossindo com a poeira que subiu no ar.
Ali, embutido na parede baixa de concreto, quase invisível sob o amontoado de arquivos antigos, havia um pequeno cofre de metal.
O coração dela errou uma batida.
Aproximou-se devagar.
Passou a mão pela superfície empoeirada, revelando a fechadura.
Por um segundo, ficou apenas olhando.
Então meteu a mão no bolso da calça e puxou a chave pequena que encontrara antes, ainda presa ao cartão sem identificação.
As mãos estavam firmes.
Ou pareciam.
Valentina encaixou a chave.
Girou.
O clique ecoou no depósito silencioso como um presságio.
Ela abriu a porta do cofre.
Lá dentro havia várias pastas plásticas, grossas, seladas, organizadas em pé uma ao lado da outra, protegidas contra umidade. Todas marcadas com as mesmas iniciais em preto grosso.
RM.
Valentina franziu a testa.
Por um instante, o cérebro recusou a interpretação óbvia.
RM.
Ela puxou a primeira pasta com cuidado, a testa franzida, a respiração mais curta do que antes. Sentou-se na cadeira dobrável quase sem perceber, como se o corpo já soubesse que o que vinha a seguir exigiria chão.
Abriu.
E o mundo virou.
Havia fotografias. Cópias de contratos. Transferências bancárias. Relatórios. Recortes. Registros de reuniões privadas. Imagens de Rafael entrando em prédios empresariais ao lado de homens que ela não conhecia. Rafael conversando com o pai dela. Rafael com a mãe dela. Rafael saindo de um estacionamento. Rafael em lugares, datas e contextos que batiam violentamente com o período anterior à morte dos pais.
Rafael Montenegro.
O ar pareceu rarear.
Valentina passou a primeira folha. Depois outra. Depois outra.
Quanto mais via, pior ficava.
Tudo ali apontava para ele.
Tudo.
Havia uma linha documental que sugeria pressão sobre os pais dela. Havia registros de pagamentos indiretos. Havia cópias de pareceres jurídicos ligados a um processo sensível. Havia menções a possíveis acusações, a movimentações capazes de destruir a reputação de uma empresa inteira. Havia anotações associando o nome Montenegro a intimidação de testemunhas, obstrução, suborno, silenciamento.
Rafael.
Rafael.
Rafael.
O nome parecia estar em toda parte.
Valentina sentiu a garganta fechar.
Não.
Não podia ser.
Ela puxou outra pasta.
Mais fotos. Mais papéis. Mais datas. Tudo limpo demais. Organizado demais. Devastador demais.
Uma imagem caiu sobre seu colo.
Ela a pegou com dedos duros.
Era Rafael.
Mais jovem. Menos duro no rosto, talvez, mas inequivocamente ele.
Estava do lado de fora de um prédio com o pai dela. A expressão de ambos era séria. Não parecia um encontro casual. Nem cordial. Nem inocente.
Valentina ficou olhando para a fotografia por alguns segundos que se arrastaram como minutos.
A mentira no café da manhã voltou à sua memória com violência.
Não cheguei a conhecer seus pais.
Mentira.
Mentira dita com calma.
Mentira olhando nos olhos dela.
O enjoo veio sem aviso.
Ela respirou fundo, como se isso pudesse conter a súbita náusea que subia pelas entranhas, e puxou outra folha. Era um relatório com trechos sublinhados e notas nas margens apontando riscos legais severos para o grupo Montenegro. Mais abaixo, uma observação destacada dizia que o casal Diniz era peça central na elaboração do parecer que poderia formalizar a acusação.

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