Valentina olhou de novo para o prato e pegou mais uma colherada, o que pareceu satisfazê-lo.
— Isso. Muito melhor.
Foi nesse momento que uma batida firme, mas apressada, interrompeu a cena. Enzo olhou para a porta, e logo em seguida Lurdes entrou, ainda segurando o celular numa mão e algumas folhas na outra. A expressão dela era profissional como sempre, mas havia urgência no jeito como respirava.
— Senhora Diniz — disse, quase sem preâmbulo. — O juiz solicitou sua presença antes da audiência de amanhã. Quer falar com os advogados principais ainda hoje.
Valentina pousou a colher devagar.
A mudança no ar foi imediata.
Tudo que era abrigo se recolheu.
Tudo que era guerra voltou.
— Agora? — perguntou.
— Sim, senhora. A equipe da Montenegro já está no fórum. Fui informada de que é uma reunião de alinhamento processual, mas considerando a dimensão do caso… imagino que queiram evitar surpresas no plenário.
Enzo lançou um olhar curto para Valentina.
— Então é hoje que o espetáculo começa de verdade.
Ela respirou fundo e empurrou a bandeja para o lado, já se levantando.
— Não. O espetáculo começou no dia em que ele achou que podia me destruir e sair impune.
Enzo não tentou detê-la. Apenas observou enquanto ela ia até a cômoda, pegava a bolsa e conferia rapidamente os documentos que carregaria consigo. O gesto era preciso, quase automático, como se já tivesse repetido aquilo muitas vezes. Mas ele percebeu o instante breve em que a mão dela parou sobre uma das pastas, a respiração apertou e os olhos se fecharam por meio segundo. Medo. Raiva. Expectativa. Tudo misturado.
— Você quer que eu vá com você? — perguntou, sem pressão, apenas deixando a opção ali.
Valentina hesitou. Não por falta de vontade. Queria. A presença dele era fácil agora, estranhamente fácil. Mas queria chegar naquele lugar sozinha. Queria que todos vissem que não estava sendo conduzida. Queria entrar como autora da própria guerra.
— Não. Eu consigo.
Enzo assentiu.
— Eu sei que consegue.
Foi uma resposta simples. E exatamente por isso, eficaz.
Lurdes já se movia ao lado da porta, pronta para acompanhá-la, e Valentina deu mais uma olhada rápida no quarto antes de sair. A sensação que teve foi estranha. Como se aquela casa, fria demais para parecer lar, tivesse se tornado ainda assim o lugar onde ela recolhera os pedaços mais visíveis de si. Ou, pelo menos, onde aprendera a escondê-los melhor.
O trajeto até o fórum foi curto demais para a quantidade de pensamentos que ela carregava. Pela janela, a cidade parecia continuar funcionando normalmente, indiferente ao fato de que no dia seguinte um dos homens mais poderosos do país se sentaria no centro de um julgamento que prometia dividir o país. As redes já estavam em chamas. Os programas de debate batiam recorde de audiência. Especialistas surgiam de todos os cantos com opiniões prontas. E ela… ela era o rosto da denúncia.
Quando o carro parou na área reservada, Lurdes respirou fundo ao lado dela.
— A imprensa já sabe que a senhora vem.
Valentina apenas assentiu e saiu.
Os flashes vieram antes da primeira pergunta. Luzes violentas, vozes se atropelando, microfones se erguendo como lanças.
— Senhora Diniz, a senhora pretende pedir prisão preventiva?
— A senhora confirma que a relação entre vocês era apenas contratual?
— É verdade que Rafael Montenegro participou da morte dos seus pais?
— A senhora acredita que ele será condenado?



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