Cinco dias em que Valentina acordou, dormiu, tossiu, tomou remédios, ignorou visitas, ignorou fofocas, ignorou o mundo — e, principalmente, ignorou Rafael.
O corpo finalmente tinha parado de ferver. A dor de cabeça quase sumiu. E ela já conseguia ficar em pé sem sentir que ia tombar como uma árvore.
Estava no closet, escolhendo uma roupa leve, quando o celular vibrou tão alto que ela quase derrubou o vestido em cima do rosto.
BIANCA 🤳 LIGANDO
Valentina sorriu antes mesmo de atender.
— Ai, meu Deus… finalmente, viva! — Bianca gritou do outro lado antes mesmo do “alô”. — Onde você se enfiou, sua ingrata? Te liguei QUARENTA E DUAS vezes. Mandei mensagem. Mandei áudio. Mandei meme. Fui até a sua casa e aqueles guarda-costas de reality show NÃO me deixaram passar dos portões! Eu já tava indo na empresa do seu marido armada até os dentes, Valentina!
Valentina riu, sentando na cama.
— Calma, Bianca, eu só peguei uma gripe terrível.
Um silêncio.
Depois:
— Gripe? — Bianca repetiu, indignada. — GR-I-PE? Amada, eu achei que você tinha sido sequestrada, enterrada viva ou internada num retiro espiritual da Vittoria. Eu tava pronta pra começar um ritual de invocação aqui!
Valentina riu tão alto que teve que segurar a barriga.
— Juro, Bi. Só… gripe. Daquelas de derrubar.
Bianca suspirou dramaticamente.
— Tá. Aceito. MAS… — e o tom dela mudou — eu fiquei sabendo do episódio da piscina, hein. Tá todo mundo falando.
Valentina congelou por um segundo.
— Ah, isso… — murmurou, torcendo o lençol entre as mãos — está tudo bem.
— Tudo bem é o cacete, Valentina. — Bianca rosnou. — Você, que tem pavor de água desde os sete anos, cai numa piscina no meio de um circo de gente rica e vem me dizer “está tudo bem”? Eu devia colar chiclete no cabelo daquela Barbie com selo Made in Itália. Aquela falsa. Aquela…
— Isabella — Valentina completou.
— Isso mesmo! — Bianca seguiu, empolgada — Eu devia colar chiclete, tinta, superbonder, cacto e talvez UM MÓVEL na cabeça dela. A audácia daquela mulher! Fazer cena de princesa afogada quando foi ela quem—
— Bianca. — Valentina cortou, ainda rindo. — Respira.
— Eu tô respirando, sim, senhora Montenegro. Tô respirando ódio e indignação!
Valentina caiu na cama de costas, rindo mais.
Esse era o remédio que a febre não deu.
— Bi… eu tô bem, de verdade. Já passou.
— Bom mesmo. — Bianca resmungou. — Porque se não tivesse passado, eu ia te sequestrar dessa mansão e te levar pra minha casa. A gente ia viver de miojo e fofoca, mas pelo menos você não ia quase morrer num lago private de gente maluca.
Valentina enxugou uma lágrima que surgiu só de rir.
— Você é exagerada.
— E você vive numa novela mexicana premium, minha filha. Eu tô sendo realista.
As duas riram juntas.
E foi ali, naquele riso, que Valentina percebeu algo:
Fazia dias que ela não se sentia… leve.
Dias desde que não sorria sem dor.
Dias desde que não queria simplesmente sumir.
Bianca continuou falando, como sempre:
— Agora me diz, que dia eu posso ir aí? Ou ainda tem segurança com diploma de porta bloqueando minha entrada?
Valentina suspirou com humor.
— Hoje à tarde você pode vir. Mas… vem pelo portão leste.
— Por quê?
— Porque no portão principal ficam os “padrões Montenegro”. — ela imitou a voz grave. — “Somente convidados autorizados pela senhora Vittoria.”
Bianca bufou.
— Aquele povo devia arrumar uma vida.
Aguarda: vou chegar aí linda, cheirosa e pronta pra dar uma voadora em quem merecer.
Valentina sorriu.
— Tô com saudade, Bi.
Bianca sorriu do outro lado também — dava pra ouvir.
— Eu também tô, minha besta. Até daqui a pouco.
E desligou.
Valentina ficou ali, alguns segundos, olhando o teto como quem respira depois de dias debaixo d’água.
E por um instante…
Um único…
Ela pensou em Rafael.
Só para imediatamente empurrar o pensamento pra longe.
Porque hoje… hoje ela precisava de Bianca.
Não de confusão.
Valentina mal tinha terminado de colocar um rímel leve quando bateram na porta.
TOC.
TOC.
TOC.
— Senhora Montenegro — a voz de Clara veio atravessada, entre seca e… irritada. — Há uma senhorita Kato aguardando na sala de visitas.
O coração de Valentina derreteu um pouquinho.
Bianca.
— Ótimo. — respondeu enquanto ajeitava o cabelo. — Leve-a para a sala de chá e peça para prepararem uma bandeja decente. Nada de torradas secas. Chá de verdade. Petit fours. E frutas.
Clara ficou em silêncio por um instante.
Silêncio longo, pesado, insolente.
Valentina virou o rosto devagar.
Clara estava parada, braços colados ao corpo, expressão neutra… mas o olhar? O olhar parecia um prato quebrando.
— Algum problema, Clara? — perguntou com a voz doce só para irritá-la mais.
— Não, senhora. — respondeu Clara, rangendo os dentes com educação profissional. — Quer que eu… sirva também?
Valentina fingiu pensar.
Depois sorriu.
— Não. Só leve a bandeja. Eu mesma cuido da minha amiga.
Clara piscou. Uma vez. Lentamente.
O ódio nasceu ali.
Valentina arqueou a sobrancelha.

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