O fórum já estava cercado quando o carro parou.
Do lado de fora, a imprensa parecia um organismo vivo, pulsando em ansiedade, luzes, microfones erguidos e vozes que se atropelavam numa fome coletiva por escândalo. O país inteiro queria ver aquela queda de perto. Queria assistir ao homem mais poderoso do país atravessar o corredor de um tribunal como réu moral antes mesmo da primeira palavra oficial ser dita. E, acima de tudo, queria assistir a esposa que o denunciara entrar de cabeça erguida para terminar o que havia começado.
Valentina ficou alguns segundos imóvel dentro do carro, com a mão pousada sobre a pasta de documentos e o olhar preso à porta fechada à sua frente. O vidro escurecido abafava o mundo lá fora, mas não o suficiente para impedir que ela sentisse a violência daquilo tudo. Havia um zumbido constante no ar, como se a cidade inteira tivesse parado para olhar.
Lurdes, ao lado dela, respirou fundo antes de falar.
— Senhora… a imprensa está pior do que ontem.
Valentina não respondeu imediatamente. O corpo estava controlado, a postura impecável, o cabelo preso com a mesma precisão de sempre, a maquiagem leve o suficiente para não parecer armadura, mas firme o bastante para esconder uma noite ruim. Quem a visse daquele lado de fora diria que ela estava pronta.
Mas o corpo mentia menos do que o rosto.
Ela tinha acordado com o estômago sensível, a cabeça pesada e aquela sensação estranha de que o ar, de algum modo, entrava curto demais nos pulmões. Helena insistira para que comesse antes de sair. Enzo a observara em silêncio durante o café, com a mesma atenção discreta dos últimos dias, como se soubesse exatamente quando falar e quando apenas permanecer. Valentina conseguira engolir o mínimo necessário, mas a comida desceu sem gosto, sem conforto, sem promessa de permanência.
Agora, ali, com o fórum diante dela e o julgamento prestes a começar, o corpo parecia lembrar de tudo ao mesmo tempo: do galpão, do hospital, da revelação da gravidez, do rosto de Rafael, do silêncio dele, da denúncia protocolada, da imprensa esfomeada, da palavra “culpado” repetida tantas vezes nos últimos dias que já parecia ter nascido grudada ao sobrenome Montenegro.
— Vamos — disse por fim, a voz baixa, firme.
Assim que a porta se abriu, o barulho explodiu.
Flashes. Chamados. Perguntas. Câmeras. Uma maré de vozes empurrando seu nome para cima dela com uma brutalidade quase física. Os seguranças abriram caminho e Lurdes se manteve um passo atrás, filtrando o impossível, enquanto Valentina atravessava tudo com o queixo erguido e os olhos fixos à frente.
— Senhora Diniz! A senhora acredita que Rafael Montenegro será preso hoje?
— Senhora Diniz, o país inteiro quer saber se o casamento de vocês foi mesmo comprado!
— É verdade que o senhor Montenegro a obrigou a assinar aquele contrato?
— A senhora confirma que ele está ligado à morte dos seus pais?
Ela não respondeu novamente.
Não diminuía o passo. Não virava o rosto. Não oferecia nem a eles, nem a ninguém, o espetáculo da emoção antes da hora. O silêncio dela diante das câmeras era estratégico, e aquilo, de um jeito perverso, fazia a imprensa gritar ainda mais.
Quando atravessou as portas principais do prédio, o som ficou para trás em ondas abafadas, substituído pelo eco frio dos corredores do fórum, pelo brilho excessivo do piso polido e pelo ar-condicionado forte demais que sempre fazia lugares como aquele parecerem um pouco desumanos.
Valentina respirou fundo.
Ali dentro, a guerra mudava de forma.
Não havia mais flashes estourando em seu rosto, mas havia algo talvez pior: expectativa. Nos olhos de quem passava por ela, nos cochichos interrompidos quando reconheciam seu rosto, no jeito como alguns servidores fingiam não olhar e olhavam do mesmo modo.
Lurdes a acompanhou até a área reservada, onde o movimento era mais controlado. Advogados de um lado para outro, assessores carregando papéis, funcionários do tribunal murmurando instruções. O lugar inteiro parecia viver naquele estado específico de tensão que antecede os grandes desastres públicos.
— O juiz ainda não chamou? — perguntou Valentina, sem desacelerar.
— Ainda não, senhora. Mas a equipe da Montenegro já chegou.
Os passos dela vacilaram por dentro, embora por fora nada tenha mudado.
Chegou.
Era inevitável. Claro que era. Ainda assim, ouvir aquilo bateu diferente.
Valentina apertou a pasta contra o corpo e continuou andando até a pequena sala reservada que usaria antes de entrar no plenário. Assim que a porta se fechou atrás dela, o silêncio do ambiente pareceu denso demais, íntimo demais. Havia uma mesa pequena, duas cadeiras, uma jarra d’água e um espelho lateral que ela evitou imediatamente.
Lurdes se aproximou.
— Quer que eu chame alguém? O médico do fórum, talvez? A senhora está mais pálida do que o normal.
Valentina soltou um sopro curto, sem humor.
— Eu vou sobreviver a isso.
Lurdes não parecia convencida, mas assentiu mesmo assim.
— Vou verificar se já liberaram a passagem para o corredor principal.
Quando a assistente saiu, Valentina permaneceu sozinha por alguns segundos. O silêncio da sala era limpo demais para a confusão que ela carregava no peito. Ela colocou a pasta sobre a mesa, apoiou as duas mãos na madeira e fechou os olhos.

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