O martelo havia acabado de descer quando o salão voltou a respirar.
Mas Valentina…
Valentina não conseguia.
Ela continuava imóvel, as mãos entrelaçadas no colo, o coração descompassado, como se um terremoto interno tivesse acabado de acontecer e ninguém mais no mundo tivesse percebido.
Rafael ainda segurava a placa abaixada.
Não olhava para ninguém.
Só para ela.
E isso a deixava ainda mais perdida.
O mestre de cerimônias voltou ao palco com seu sorriso profissional:
— Dando continuidade ao nosso leilão desta noite, apresentamos agora…
Valentina não ouviu o objeto anunciado.
O som das palavras virou ruído distante.
Bianca apoiou a mão na dela discretamente.
— Respira, Vavá… — sussurrou, preocupada.
Valentina respirou. Mas não era ar. Era dúvida. Era medo.
Por que ele fez isso?
O que pretende?
Ele vai dar esse colar para Isabella também? Como “presente” igual ao anel?
O pensamento veio como uma facada.
O peito dela doeu.
Ela virou o rosto um pouco, tentando se recompor, mas o olhar dela inevitavelmente pousou em Rafael…
…que ainda observava como se pudesse sentir a tempestade dentro dela.
A voz do leiloeiro voltou:
— Lance inicial: cinquenta mil dólares!
Lucas levantou a placa com preguiça calculada.
— Cinquenta mil.
Bianca riu baixo.
— Esse homem não tem um pingo de noção de limite, né?
Valentina tentou sorrir.
Mas o coração estava preso naquele colar.
A joia da mãe.
A memória mais íntima que ela tinha.
E agora estava… nas mãos de Rafael.
Não dela.
Rafael.
O segundo item foi vendido rapidamente a um empresário libanês.
O terceiro, uma pulseira de diamantes, foi arrematado por Isabella — que levantou a placa com arrogância, como quem precisava desesperadamente recuperar algum território social depois do vexame anterior.
Ela fez questão de olhar para Valentina ao dar o lance final.
Valentina sustentou o olhar por um segundo…
Mas não sentiu nada.
Nem raiva.
Nem irritação.
A dor do colar era maior que qualquer provocação.
Uma joia antiga de família foi comprada por um colecionador americano.
Outra obra rara foi levada por um joalheiro francês.
As pessoas vibravam, comentavam, competiam por status.
Mas para Valentina…
o resto do mundo tinha sumido.
Bianca se inclinou para ela.
— Ei… você quer sair um pouco? Respirar? Eu vou com você.
Valentina negou com a cabeça.
— Não. Não quero chamar atenção. Estou bem.
Estava mentindo.
E as amigas sempre sabem quando a mentira é por sobrevivência.
O leiloeiro ergueu o microfone novamente:
— E agora, senhores, seguiremos para o último lote da noite…
Valentina não ouviu qual era.
Não importava.
O colar ainda brilhava na mente dela.
O colar…
…que agora pertencia a Rafael Montenegro.
Será que ele vai dar pra Isabella?
Como “presente de consolação”?
Ele fez isso antes.
A imagem daquele anel — aquele maldito anel — atravessou o peito dela como ferro quente.
Como confiar num homem que dá presentes para a mulher que quase te matou?
As perguntas queimavam.
E Rafael…
…continuava calado.
O leilão terminou com aplausos educados.
As luzes se suavizaram.
Os convidados se levantaram lentamente, prontos para a próxima etapa do baile — networking, dança, vinho, intrigas.
Mas Valentina não se moveu.
Rafael colocou a mão na dela.
Quente.
Segura.
Mas incompreensível.
— Valentina… — ele começou, com aquela voz baixa que sempre parecia arrancar algo dela.
Ela virou o rosto, finalmente encontrando o olhar dele.
O mundo ficou pequeno.
Silencioso.
Tenso.
Ele abriu a boca para dizer algo.
Mas antes que pudesse—
O cerimonialista anunciou:
— Em quinze minutos iniciaremos a próxima dança oficial!
As pessoas se levantaram, comentando animadas.
Bianca cutucou Lucas, que cutucou ela, e o mundo voltou a se mover.
Menos Rafael.
O olhar dele mudou.
Primeiro surpresa.
Depois confusão.
Depois algo que parecia quase… dor.
— Valentina… — ele começou.
Mas ela ergueu a mão, impedindo-o de falar.
— Só não dê ele para a Isabella. — ela sussurrou, e a voz tremeu. — Como você deu aquele anel para ela depois que ela tentou me matar.
Rafael parou.
Imóvel.
O corpo gelou no ato.
— Anel? — ele repetiu, a voz baixa demais.
Valentina respirou fundo — e aquilo a rasgou.
— Por favor… — ela disse, e finalmente uma lágrima escorreu — …aquele colar é a única coisa que minha mãe deixou para mim. Eu sei que está nas suas mãos agora. Eu sei que você tem o direito de fazer o que quiser. Eu só… — a voz falhou, e ela fechou os olhos — …só quero a chance de comprar de volta.
A música continuava.
Mas eles não dançavam mais.
Estavam parados no meio da pista.
Ele olhando para ela como se todo o oxigênio tivesse sumido.
Ela com a máscara tremendo.
— Eu prometo… — Valentina disse, quase implorando — …eu vou ser uma esposa exemplar até o fim do contrato. Só não dê o colar… para ela.
Ela engoliu o choro.
Mas não segurou a lágrima solitária que rolou devagar pela bochecha.
Rafael ficou mudo.
Pela primeira vez naquela noite — e em muitas outras — ele não sabia o que dizer.
O silêncio dele cortou.
Valentina sentiu.
E então, com toda a dignidade que ainda restava, ela deu um passo para trás.
Soltou a mão dele.
Soltou a cintura dele.
E disse num fio de voz quebrado:
— Obrigada… por ouvir.
E saiu.
Simples assim.
No meio da música.
No meio do baile.
Deixando Rafael sozinho na pista — parado, respirando fundo, sem entender qual parte do mundo tinha acabado de ruir sob seus pés.
As pessoas começaram a murmurarem discretamente.
Lucas, à distância, ergueu uma sobrancelha, percebendo a cena.
Bianca apertou o ar à procura de coragem para não voltar e esganar Isabella.
Rafael permaneceu ali…
com a mão suspensa no ar, onde o toque dela tinha estado segundos antes.
E pela primeira vez…
RAFAEL MONTENEGRO
não soube
o que fazer.

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