"Isabella"
Eu queria desabafar com Camila, mas a vergonha me impedia. Ela tinha me avisado tantas vezes, e eu ignorei todas. Agora era tarde demais para admitir que ela estava certa.
Sem trabalho, sem rumo, sem vontade de nada, dispensei o motorista e dirigi pela cidade, sabia entretanto que não estava sozinha, sempre tinha seguranças por perto, atualizando Augusto sobre cada passado que eu dava.
Tentava achar uma solução, mandar Karen embora, dar o divórcio para Augusto, desaparecer… recomeçar em algum lugar onde ninguém soubesse meu nome. Perseguir Carlos e fazer ele devolver cada centavo.
Mas eram só fantasias. No fim das contas, eu ainda estava presa ao que Carlos tinha feito comigo. Os advogados garatiram que não seria presa, nem nada, era apenas mais uma vitima de fraude.
Ir atrás dele sozinha era insanidade, mas mesmo assim me vi de frente para a floricultura da minha ex-cunhada. O lugar continuava o mesmo, a fachada parecia até mais bonita do que antes, mais próspera, talvez ela tenha pegado a cota dela com o irmão.
Quando empurrei a porta de vidro, o sininho tocou, e Alice levantou o rosto, o susto foi imediato.
— Isabella? — A voz dela saiu vacilante.
— Antes que fale qualquer coisa, eu sei que você vai dizer que não sabe onde seu irmão está — respondi, sem rodeios.
Ela cruzou os braços, numa tentativa falha de parecer firme.
— E não sei mesmo — rebateu, irritada.
— Mas se soubesse, também não me diria. — Dei um passo para dentro da loja. — O seu irmão é um criminoso, Alice. E nos últimos dias eu revivi cada detalhe da minha vida com ele: como se aproximou, como me conquistou, como me fez acreditar que era o príncipe encantado… para depois me tratar como lixo. E eu, apaixonada, não enxergava nada. Mas vocês sabiam. Vocês sempre souberam.
Alice engoliu seco, em silêncio. Eu continuei andando pela loja, observando arranjos e vasos decorados com bom gosto, tinha uns produtos bem caros ali.
— O que você quer? — ela perguntou, agora mais tensa.
— A verdade.
Ela abriu a boca para responder, mas hesitou. A hesitação dela já era resposta suficiente.
Meu olhar caiu sobre um vaso grande, de cerâmica azul brilhante, lindo, caro. Eu o derrubei.
O barulho dos estilhaços explodiu no ambiente. Alice gritou.
— Você enlouqueceu?! Vai pagar por isso ou chamo a polícia! — Ela gritou mas não chegou perto.
— Não vai chamar polícia nenhuma — respondi com uma calma que não sentia. — E, se não me contar o que quero saber, quebro outro.
Alice recuou um passo. Medo real. Ela tinha entendido que eu não estava brincando, quebraria o lugar todo, pedaço por pedaço
— Como você montou esse lugar, Alice?
Ela respirou fundo. O silêncio entre nós era denso, cheio de segredos. Me aproximei de outro vaso, era maior e mais caro, seria um desperdicio jogar no chão. Alice arregalou os olhos.
— O Carlos sempre teve dinheiro… — começou. — Mas antes de trabalhar com você, a gente não sabia de onde vinha. Ele fazia uns bicos, tinha umas namoradas… meus irmãos sempre foram assim. Quando começou a trabalhar com você, ele dizia que ganhava bem, que recebia comissão e que batia todas as metas. Depois casou, foi morar na sua casa. A gente via que tinha algo errado… Por um tempo você falava que não tinham dinheiro pra nada, mas o Carlos sempre tinha, então todo mundo achou que você era mão de vaca e metida, querendo fingir que não tinha dinheiro para ninguém pedir emprestado. Depois meu outro irmão começou a trabalhar com o Carlos, disse que foi contratado como gerente, acompanhando os projetos. Mas parecia que você não sabia de nada, então… ninguém falava nada. Ele me emprestou o dinheiro pra montar a loja. Eu já devolvi. Até pra nossa mãe ele emprestou pra reforma.
Nenhuma informação nova, exceto que o irmão nunca trabalhou na empresa. Qual era o plano de Carlos exatamente?
— Vai me dizer que acha que seu irmão não é um bandido?
— Ele nunca prejudicou ninguém! — Alice rebateu, desesperada. — Ele ajudou muita gente!
— Claro. Lavando dinheiro, roubando o que não era dele, usando nomes de outras pessoas. Um santo. — Apontei para outro vaso. Avisa esse santo que dessa vez ele não vai aproveitar a vida com o MEU dinheiro. Não às minhas custas.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido