"Augusto"
Eu ainda estava com as mãos cerradas quando ouvi a porta do escritório se abrir.
Meu pai e eu estávamos em guerra. Cada frase era um ataque direto. Eu já não sabia há quanto tempo gritava; só tinha certeza de uma coisa, se ficasse mais um minuto ali, faria algo irreversível.
— Chega.
A voz de César cortou o ar. Meu irmão entrou na sala encarando nosso pai. Não perguntou o que estava acontecendo. Não precisava. O clima dizia tudo. Meu pai permaneceu imóvel, me observando como sempre fazia quando acreditava que ainda tinha controle da situação.
— Sai, César — rosnei. — Isso não é assunto seu.
— É sim — ele respondeu, calmo. — No momento em que vocês dois gritam o suficiente para serem ouvidos do andar de baixo, passa a ser assunto meu.
Meu pai abriu a boca para falar, mas César ergueu a mão, num gesto raro. Ele quase nunca o enfrentava.
— Não agora.
Depois, olhou para mim.
— Augusto, olha pra você.
Respirei fundo, sentindo o sangue pulsar nos ouvidos.
— Ele armou tudo — falei. — Pagou a Karen. Vazou o contrato. Expos a minha vida inteira…
— Eu sei — César respondeu, sem surpresa.
— Como assim você sabe?
— Porque não é nenhuma novidade — disse, lançando um olhar rápido para nosso pai antes de voltar para mim.
Meu pai sorriu, irritado.
— Você fala como se eu fosse o vilão da história.
— Você não é o vilão — César respondeu, com calma. — Mas também não é o herói que acredita ser.
O silêncio pesou no ar.
— Augusto — ele continuou, dando um passo na minha direção. — Você está com raiva. E tem todo o direito de estar. Mas, se continuar assim, vai perder muito mais do que já perdeu hoje.
— Perder o quê? — perguntei, amargo. — Me diz o que eu ainda posso perder?
Passei a mão pelo rosto, exausto. A adrenalina começava a ceder, deixando apenas um cansaço profundo. César tinha razão. Aquela briga era inútil. Meu pai já tinha provado, mais uma vez, quem mandava. Eu nunca tive o controle da narrativa.
Saí da sala decidido a não ficar ali nem mais um minuto, mas César foi atrás de mim e me conduziu até o escritório dele.
— O que você quer fazer agora? — perguntou.
— Não sei — admiti. — Só sei que nada disso precisava ter acontecido.
— Talvez não — disse ele. — Não dessa forma. Mas precisava. Você vinha empurrando decisões importantes com a barriga há tempo demais.
— Você está do lado dele agora? — perguntei, sentindo a irritação voltar.
— Não estou do lado de ninguém — respondeu. — Como a Isabella reagiu a essa exposição?
A pergunta me atingiu em cheio. Eu vinha evitando pensar nela, no olhar magoado que me lançou antes de virar as costas e ir embora. Sabia que tinha ido longe demais, que em algum momento teria de encarar as consequências dos meus atos, mas ainda não estava pronto.
— Não quero falar disso agora.
César não insistiu.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido