"Diana"
Acordei com um peso estranho no corpo, como se cada osso tivesse sido colocado no lugar errado. O cheiro de hospital era forte, invasivo, misturado ao som constante de máquinas e passos apressados no corredor. Por alguns segundos, não lembrei de nada. Depois, tudo voltou de uma vez.
A freada brusca. O impacto. O mundo girando. O medo.
Levei a mão ao ventre instintivamente, o coração disparando.
— Meu bebê… — murmurei, a voz fraca, quase inexistente.
— Está tudo bem — a voz da enfermeira veio calma. — Você e o bebê estão bem, é um milagre. Tenta ficar calma, não é bom ficar agitada, o médico já vem falar com você.
As lágrimas escorreram sem que eu conseguisse impedir. Não era só alívio. Era medo. Era culpa. Era a certeza de que tinha ganhado uma segunda chance e precisava mudar o rumo da minha vida e rever as minhas escolhas.
Minha mãe estava sentada ao lado da cama, postura rígida, expressão dura demais para alguém que acabara de ver a filha em uma cama de hospital. Quando nossos olhares se cruzaram, não vi acolhimento e imaginei que ela sabia que eu estava grávida.
— O que você fez? — disse, sem baixar a voz. — Já pensou no que vão dizer? Como acha que seu pai vai reagir?
Engoli em seco. Minha perna latejava sob o gesso, mas aquilo doía mais. Ainda assim, não me surpreendia que minha mãe estivesse mais preocupada com a reação do meu pai do que com a minha saúde.
— Eu quase perdi meu filho — respondi, sentindo a garganta arder.
— Era melhor que tivesse perdido. Um escândalo desses agora… — ela suspirou, como se o problema fosse apenas a repercussão, como se não tivesse acabado de dizer algo cruel.
Fechei os olhos por um instante, tentando reunir forças. Não queria brigar. Não queria explicar. Só queria respirar e me recuperar. Nunca tinha me sentido tão desamparada quanto naquele momento.
— Ninguém vai saber — ela continuou. — Seu pai não pode descobrir agora. Oliver, muito menos. Vamos controlar isso.
Controlar.
Era isso que sempre faziam comigo.
Quando Augusto apareceu, senti um alívio imediato. Meu irmão tinha o dom de me lembrar que eu ainda existia além das decisões dos outros e, apesar de tudo o que eu tinha feito, ele ainda estava ali.
— Como você está? — perguntou, aproximando-se com cuidado.
— Viva — respondi, forçando um sorriso. — O que já é muita coisa.
Ele olhou para minha perna, depois para o meu rosto, demorando-se um pouco mais no meu ventre. Não precisou dizer nada. Ele sabia. Pelo jeito, todo mundo sabia. Não perguntei como. César e Isabella fizeram uma breve visita e logo foram embora.
Minha mãe ficou como acompanhante, aproveitando cada instante para me lembrar de como eu tinha destruído a minha vida e de como iria envergonhar meu pai. Foi uma noite horrível e só queria que acabasse logo e ela fosse embora.
Augusto apareceu de manhã, era o primeiro visitando e pelo olhar dele já imaginava que alguma coisa estava acontecendo.
— Vou resolver algumas coisas lá fora — disse, lançando um olhar rápido para nossa mãe.
Os dois saíram, deixando-me sozinha. O que foi um alívio. Era melhor assim. Eu precisava dar um jeito de avisar Ícaro. Tinha que falar com ele o mais rápido possível, antes que meu pai ficasse sabendo.
O tempo passou e ninguém mais entrou no quarto, o que me deixou preocupada e um pouco desesperada. Uma enfermeira veio me checar e pediu que eu ficasse calma, mas eu já começava a me sentir angustiada.
Quando a porta se abriu novamente, meu coração quase parou. Antes mesmo de vê-lo, eu soube.
Ícaro.
Ele entrou devagar, como se tivesse medo de me assustar. O rosto tenso, carregado de uma preocupação que me desarmou por completo.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido