"Augusto"
O dia tinha sido uma confusão, um borrão de vozes e discussões. Mesmo quando tudo pareceu finalmente se acalmar, Icaro estava cuidando de Diana eu não consegui ir para casa. Não tinha a menor vontade de encarar a solidão da minha casa.
Peguei o celular mais uma vez, mesmo sabendo que não adiantaria. Nenhuma mensagem nova. Nenhuma ligação perdida. Isabella se me atendesse seria para falar da minha irmã, nada mais. O hospital tinha nos aproximado, nos forçado a dividir o mesmo espaço, mas a distância entre nós estava ali, presente, sólida.
Eu merecia, não tinha dúvida nenhuma disso.
Encostei a cabeça no banco do carro por alguns segundos antes de ligar o motor. Estava cansado, física e emocionalmente, mas havia um tipo de exaustão que não se resolvia com sono. Era culpa. Era arrependimento.
Durante o caminho até a casa da tia de Isabella, tentei organizar o que diria, mas nada parecia bom o suficiente. Pedir desculpa soava pequeno diante de tudo que eu tinha feito — ou deixado de fazer. O silêncio dentro do carro era pesado, interrompido apenas pelo som distante da cidade e pelos meus pensamentos em turbilhão.
Estacionei em frente ao portão e hesitei antes de descer. Por um instante, pensei em ir embora. Talvez ela não quisesse me ver de novo naquele momento. Talvez fosse invasivo aparecer daquele jeito. Mas o medo de perdê-la de vez falou mais alto.
Toquei a campainha.
Quando a porta se abriu, o susto no rosto de Isabella foi imediato. Seus olhos me percorreram rapidamente, como se buscassem alguma explicação óbvia para a minha presença ali.
— Aconteceu alguma coisa com a Diana? — Perguntou, preocupada.
— Não esta tudo bem com ela, o Icaro vai ficar com ela essa noite.
— Foi seu pai que te mandou aqui?
A pergunta doeu mais do que eu esperava. Não podia acreditar que Isabella achava que eu levaria um recado do meu pai.
— Claro que não — respondi, sentindo a indignação subir. — Eu vim porque quis te ver. Porque precisava. Quero saber como você está. Você não atende minhas ligações… e a gente precisa conversar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, como se ponderasse se valia a pena.
— Entra — disse, dando passagem. — Quer café? Ou alguma coisa? Minha tia saiu, foi encontrar umas amigas.
O tom educado, quase formal, era uma barreira clara. Nada ali lembrava a intimidade que já tivemos.
— Não, obrigado.
O ambiente era simples, acolhedor, com cheiro de casa habitada de verdade. Um contraste gritante com o meu apartamento grande demais, silencioso demais. Isabella cruzou os braços, mantendo uma distância calculada entre nós.
— O que aconteceu depois que fui embora?
— Meu pai pediu um encontro com o Icaro e fui com ele, só para garantir que coisas não saissem do controle — fiz um gesto vago, quase automático. — Foi apenas a discussão de sempre. Mas ele não se intimidou. Não sei como vai ser no futuro, mas pelo menos ele não é um lixo como o Oliver.
Vi um alívio discreto atravessar o rosto dela.
— Que bom — disse. — Eu sei que tem muitos obstáculos. É um casal improvável… e seu pai é um filho da puta. Mas eu torço pelos dois.
Dei de ombros e acabei deixando transparecer as minhas dúvidas.
— Você não acha que vai dar certo — Não era uma pergunta.
— Não é que não acho que vai dar certo, é que conheço a minha irmã, ainda que agora ela seja uma pessoa um pouco diferente, não conheço o relacionamento dos dois, então não posso afirmar nada. Mudando de assunto e falando no meu pai… — continuei, respirando fundo. — Você foi muito corajosa hoje. Enfrentou ele de um jeito que pouca gente tem coragem.
Ela me encarou com firmeza. Não havia raiva ali. Havia algo mais sólido. Convicção.
— Alguém precisava fazer isso — respondeu. — Seu pai não é um deus. Ele só tem dinheiro. E dinheiro não compra o direito de controlar a vida de todo mundo.
As palavras ficaram suspensas entre nós. Isabella respirou fundo antes de continuar:
— Imagino que você vá voltar a trabalhar com ele — De novo não era uma pergunta, ela tinha certeza de que eu iria trabalhar de novo com meu pai.
— Não vou.
A resposta saiu rápida, quase instintiva. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha certeza.
— Não? — ela arqueou a sobrancelha. — Então o que você vai fazer da vida, Augusto?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido