"César"
Quando cheguei à Lush, Camila já estava no bar, ocupando o espaço com desenvoltura. As luzes baixas realçavam seus movimentos firmes, seguros, quase hipnóticos. Ela sorria para os clientes, brincava com os copos, inclinava o corpo na medida certa para ouvir pedidos por cima da música alta.
Eu poderia ficar ali a noite inteira, apenas observando, memorizando cada detalhe, admirando o quando era linda.
Fiquei alguns minutos parado, encostado na parede, criando coragem. Ou adiando o inevitável. O som da música vibrava no peito, mas dentro de mim tudo estava estranhamente silencioso.
Quando Camila ergueu o olhar, foi como se o bar inteiro tivesse diminuído o volume. Ela me reconheceu na mesma hora. O sorriso surgiu fácil, espontâneo — mas morreu no instante seguinte, substituído por algo mais atento. Camila tinha aprendido a ler minhas entrelinhas. Eu me sentava naquele bar vezes demais, dividindo com ela pensamentos que nunca tive coragem de dizer em voz alta.
— César? — ela saiu de trás do balcão. — O que você está fazendo aqui a essa hora? Aconteceu alguma coisa?
A proximidade dela já era suficiente para bagunçar o que restava da minha calma.
— Está tudo bem — menti mal. — Eu só precisava vir um pouco aqui.
Ela me observou por alguns segundos longos demais tentando advinhar alguma coisa. Depois assentiu, como quem entende antes mesmo da explicação e voltou para o bar. Serviu-me um drink sem álcool, empurrando o copo na minha direção com um gesto delicado. Camila já conhecia meu gosto melhor do que eu, depois de muitas tentativas tinha achado o drink ideal que me servia sempre.
— E a sua irmã? — perguntou, apoiando os cotovelos no balcão. — A Isabella me contou que ela sofreu um acidente.
— Está estável. Daqui a alguns dias deve receber alta. — Dei de ombros. — Por sorte, nada pior aconteceu.
Camila soltou o ar devagar, aliviada, e sorriu. Logo foi chamada por outro cliente. E assim passei horas ali, fingindo interesse no copo à minha frente enquanto acompanhava cada passo dela. O jeito como prendia o cabelo, como mordia o lábio quando se concentrava, como desviava o olhar na minha direção sem perceber.
Quando o bar fechou, o silêncio do lado de fora foi acolhedor.
— Agora fala — Camila disse, direta, assim que trancou a porta. — O que aconteceu? E não adianta mentir.
Respirei fundo. O ar parecia pesado demais nos pulmões, não pelo iria fazer, mas porque ficaria longe dela por um tempo.
— Eu vou embora.
— Embora? — ela franziu a testa. — Embora para onde? Por quanto tempo?
— Não sei por quanto tempo — respondi. — Só sei que preciso ir. Depois de tudo… do Augusto, da minha irmã grávida… eu percebi que deixei muita coisa acontecer sem reagir. Ignorei sinais. Eu preciso de distância. Me libertar. Vou passar um tempo longe, por ai, até entender as coisas e decidir o que fazer.
Camila cruzou os braços, num gesto de defesa que me atingiu mais do que qualquer acusação.
— Isso tem a ver com seu pai.
— Tudo tem — admiti. — Mas, dessa vez, tem a ver comigo também. Se eu ficar, vou continuar sendo alguém que assiste a própria vida de fora.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Você sempre disse que não podia simplesmente sair — murmurou. — A empresa, a família…
— Eu sei. — Passei a mão pelo rosto, cansado. — Mas também sei que, se eu ficar, alguém vai se machucar. E eu vou fingir que não é comigo. Eu não quero ser esse homem, quando vi a minha irmã no hospital e tudo que aconteceu depois, entendi que preferi ser cego.
— E você acha que ir embora resolve? — a raiva apareceu, contida.
— Não resolve — confessei. — Mas me dá escolha. Pela primeira vez, eu escolho. Mas eu preciso de tempo longe de tudo isso.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido