"César"
— Acho melhor irmos para um café. Eu preciso muito de um café, e ficar conversando aqui na porta da delegacia é meio esquisito — Camila comentou.
Apesar da visível hesitação, Nicole aceitou o convite. Entramos todos no carro e nos afastamos da delegacia em busca de um ambiente neutro. Escolhi uma padaria movimentada, onde conseguimos uma mesa mais isolada que nos garantia o mínimo de privacidade.
Nicole era um enigma, e eu queria entender por que ela vinha se aproximando de nós.
— A Lucy contou uma história bem… digamos, estranha. Vou confessar que não acreditei muito na coincidência. Você realmente não estava seguindo ela? — A pergunta deixou Nicole desconfortável.
— Não segui e não tive nada a ver com o ataque, mas eu sabia quem ela era. Tinha visto a apresentação mas já sabia antes. Não falei isso para não assustá-la, foi uma noite bem estranha.
— Acho melhor explicar desde o começo o que está acontecendo e por que quer falar comigo.
Nicole ficou um momento em silêncio. Tinha pedido um suco de laranja e um lanche. Deu um gole no suco pegou o celular, abriu a capinha, tirou uma foto de dentro e colocou na mesa. Na foto ela e uma moça mais jovem estavam abraçadas em uma sala, sorrindo felizes.
— Há mais de um ano, minha irmã, Olivia, conheceu um cara em uma balada. Supostamente, ele estava de férias aqui. Era estrangeiro; dizia que era italiano, mas podia ser de qualquer lugar. Os dois se deram bem logo de cara e começaram a namorar em menos de uma semana. Eu devia ter achado estranho, mas ele parecia um cara normal: James Smith. Nome comum, cara comum. Era de se desconfiar, mas eu trabalhava e estudava, não tinha tempo. Vivia fora de casa e recebia dezenas de mensagens da minha irmã contando o que ele tinha feito, o que tinha falado, os planos que faziam, além de fotos e mais fotos dos dois juntos, em passeios.
Foi uma paixão explosiva, sei lá… era o que parecia. Achei que era passageiro, logo ele iria embora. Mas em pouco tempo, minha irmã estava falando em se mudar, vendo vídeos na internet sobre o lugar onde ele morava, como conseguir emprego, sobre esposas de estrangeiros, documentação, adaptação. Nesse ponto, eu a alertei, mas não adiantou. O cara conheceu meu pai, nossos amigos, frequentava a nossa casa, levou ela para viajar, voltou para o país dele, e eles continuaram conversando. Tudo isso em semanas.
Um mês depois dele ir embora, louca de saudade, ela pediu demissão, vendeu tudo o que tinha, disse que ia encontrar o amor da vida dela e foi embora. Não tinha como tirar aquela ideia da cabeça dela, brigamos, mas ela não me ouviu. A última vez que a vi foi quando embarcou no avião. Feliz, indo ao encontro de um destino lindo… palavras dela.
Três dias depois, não tive mais notícia. O celular foi bloqueado e o celular do cara também, redes sociais… nada. Tudo sumiu. Minha irmã evaporou sem deixar rastros, ela tinha dezenove anos na época.
— Meu Deus… — Camila disse em choque — Você falou com a policia? Com a embaixada?
— Fui à polícia, mas não adiantou. Éramos só eu e meu pai. Ele entrou em depressão desde então. Na época, peguei férias no trabalho, fui até a cidade para onde ela disse que iria, mas o endereço estava errado. Era uma loja. Perguntei, procurei, falei com a polícia, com a embaixada, com advogados, com todo mundo. Pessoas na rua, ninguém sabia de nada.
O veredicto foi sempre o mesmo: ela provavelmente foi vítima de tráfico humano. Todos os indícios estavam lá, mas encontrá-la seria difícil. Um policial, depois de muito choro, me deu alguns nomes e grupos que atuavam com isso. Pesquisei por conta própria, já viajei mais de uma vez, mas tive que voltar. Não posso deixar meu pai sozinho.
Então procurei emprego como garçonete em baladas, prostíbulos de luxo, sempre procurando por estrangeiros que fazem promessas. Minha irmã não deve ser a única, talvez aquele cara volte em busca de mais um vitima. Enfim, até agora não tinha dado em nada, então na Red Rose, surgiu um cara comum, falando com as meninas sobre ganhar dinheiro, muito dinheiro. Ele dizia que conhecia caminhos…era simpático, se dizia empresário.
— Viktor — Camila falou.
— Ele mesmo. Me aproximei, conversei com as meninas para saber o que ele falava e passei a vigiá-lo discretamente, apareceu com mais alguns caras em outros lugares onde também trabalho, a mesma conversa. Claro que podia ser um homem diferente e não ter relação com quem levou a minha irmã. Mas o papo era a mesmo. O padrão das palavras que ele usava era igual ao que minha irmã descrevia. De repente ele estava em todos os lugares mais caros e exclusivos, em uma festa apareceu com uma mulher e outro homem. Não foi difícil descobrir, pela fofoca do pessoal, os nomes: Romeo Bianchi e a noiva, Júlia. Eu estava ao lado quando se apresentaram.
— E como você chegou até mim? — perguntei, impressionado.
Nicole se arriscava, tinha dado jeito de frequentar os lugares certos, coletar informações.
— Não foi tão difícil assim. Muita pesquisa, redes sociais… sou boa em fazer as pessoas falarem comigo. Fofoca ajuda, ouvi uma conversa de que eles queriam a Lush, logo em seguida ouve o incêndio, imagino que não foi coincidência.
— Tudo isso não foi só ouvindo conversas, você seguiu alguns deles?
— Também.
— Isso é perigoso.
— Já passei da fase do perigoso. Tudo o que importa é achar alguma pista da minha irmã. Seja lá onde ela estiver, eu preciso de uma resposta.
Nicole tinha um brilho estranho no olhar, beirava a obsessão. Ela não sossegaria até achar a irmã.
— E como você acha que posso ajudar?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...