O homem se vira lentamente, e confirmo o que já sabia: é meu pai. Franzo as sobrancelhas, confusa com a visita inesperada.
— Liz! — ele exclama, se aproximando. — Que surpresa te ver aqui.
— Surpresa? — repito, confusa, me aproximando da cama da minha mãe. — Venho aqui quase todos os dias, papai.
— Ettore, que bom vê-lo. — Meu pai se vira para o meu marido, ignorando minhas palavras. — Espero que esteja tratando bem minha filha.
— Sempre, Sr. Montesi — Ettore responde educadamente, estendendo a mão. — Como está?
— Estou bem, e você? — ele responde, apertando a mão dele com mais entusiasmo do que o necessário. — Ouvi dizer que o Grupo Bianchi anda fechando contratos importantes. Parabéns.
— Obrigado. — Meu marido sorri. — Na verdade, muito do nosso sucesso recente se deve ao talento da Liz.
— Claro — Antônio concorda, forçando um sorriso. — Embora seja uma pena que esse reconhecimento não tenha acontecido na empresa da família.
— Pai…
— O quê? — Ele dá de ombros, fingindo inocência. — Só estou dizendo que a Montesi & Co. perdeu uma designer brilhante. Mas enfim, as escolhas foram feitas.
— As escolhas foram feitas por você — rebato, sentindo a irritação familiar subir. — Quando me vendeu como se eu fosse uma mercadoria.
— Liz — diz ele, com aquele tom repreensivo que usa desde que eu era criança —, isso é passado. Imagino que o casamento esteja funcionando bem, e é isso que importa.
Respiro fundo, controlando a vontade de revirar os olhos.
— O que você está fazendo aqui, pai? — pergunto, tentando manter o tom neutro.
— Visitando minha esposa — responde, como se fosse óbvio. — Sou o marido dela, não?
— Claro — concordo, sem conseguir esconder a ironia. — Só me surpreende você ter tempo na agenda depois de… quanto tempo mesmo? Um ano e meio?
O sorriso dele vacila por um segundo, mas logo volta ao lugar.
— Andei muito ocupado com a empresa — explica, passando a mão nos cabelos grisalhos. — Manter os negócios funcionando sem a Elena ao meu lado me exige muito.
— Imagino o quanto — murmuro, acariciando os cabelos da minha mãe.
— Especialmente depois que certas pessoas decidiram… buscar novos horizontes — ele acrescenta, me lançando um olhar que não passa despercebido.
— Não foi… — começo, mas meu marido toca meu braço, me interrompendo.
— Sr. Montesi — Ettore intervém com calma — Liz tem sido um dos maiores talentos da nossa equipe. O projeto Takeshita, por exemplo, só foi possível graças à visão dela.
— Ah, sim, o famoso projeto japonês — meu pai diz, balançando a cabeça. — Ouvi dizer que você rejeitou uma oportunidade no Japão. Foi uma decisão irresponsável.
— Foi uma decisão pessoal — respondo, franzindo a testa. — Como soube disso?
— As notícias correm, querida — ele dá de ombros. — Especialmente as que me interessam.
Antes que eu possa responder, um movimento sutil chama nossa atenção. A mão da minha mãe se mexe levemente.
Não muito, só alguns dedos se contraindo de forma quase imperceptível, mas o suficiente para nos fazer parar de falar.

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