“Ettore Bianchi”
A manhã amanheceu cinzenta, combinando perfeitamente com meu humor desde ontem.
Depois daquela visita estranha de Antônio, decidi conferir como anda meu investimento na Montesi & Co. e descobri que, se tivesse pegado meu dinheiro e feito uma fogueira, teria melhor aproveitado.
Ele não tem a mínima capacidade de administrar absolutamente nada. E se eu não interferir…
Mal tenho tempo de completar o pensamento quando a porta da minha sala se abre sem aviso.
Não preciso levantar os olhos para saber quem é.
O perfume caro que invade o ambiente já entrega tudo.
— Filho — minha mãe diz, hesitante, fechando a porta atrás de si. — Podemos conversar?
— O que você quer? — pergunto, finalmente levantando os olhos para encará-la.
— Falar sobre nós — responde, sentando-se à minha frente. — Sobre nossa família.
— Isso é interessante — digo, me apoiando na cadeira. — Pensei que você tivesse destruído isso quando decidiu manipular minha vida.
— Filho, por favor — ela suspira, passando a mão pela testa. — Sei que você está magoado, mas…
— Magoado? — interrompo, soltando uma risada seca. — Você destruiu três anos da minha vida. “Magoado” é pouco.
— Fiz o que achei melhor para você — insiste. — Como mãe, era minha obrigação protegê-lo. Você estava pensando em desistir de tudo por…
— Não — corto, me inclinando para frente. — Vamos pular essa parte. Você já me deu suas justificativas, e não vejo motivo para ouvir tudo de novo.
Chiara fica em silêncio por um momento, me observando como se tentasse encontrar uma brecha na minha armadura.
— Agora somos só nós dois — diz, mudando de estratégia. — Seu pai se foi, e eu… não posso perder você também, querido.
— Você não está me perdendo — respondo, mantendo a voz firme. — Você me empurrou para longe quando decidiu interferir na minha vida daquela maneira.
— Mas ainda sou sua mãe! — ela insiste, a voz começando a tremer. — Isso tem que contar para alguma coisa.
— Conta — admito. — É justamente por isso que você não está presa por chantagem e manipulação. Mas ser minha mãe não te dá o direito de destruir a minha felicidade.
— Ettore, por favor — ela se inclina para frente, estendendo a mão na minha direção. — Podemos superar isso. Podemos voltar a ser uma família.
— Podemos? — pergunto, respirando fundo. — Então, que tal começar sendo honesta comigo antes de pensarmos nessa possibilidade?
— Como assim?
— Quero saber tudo que aconteceu há três anos — digo, recostando na cadeira. — Quem planejou aquela encenação? Foi você ou meu pai? Quem escolheu aquele homem especificamente? Como o encontraram?
— Isso é passado, não precisamos…
— Precisamos — corto, firme. — Se você quer meu perdão, se quer reconstruir qualquer coisa entre nós, tem que começar com a verdade. Toda. Sem omissões, sem meias verdades.
— Por que isso importa agora? — ela tenta argumentar. — O importante é que vocês estão juntos e felizes.
— Importa porque eu quero saber até onde vocês foram. Quero saber se ainda tem mais mentiras escondidas, mais manipulações que não sei.

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