A manhã se arrasta depois que minha mãe sai.
Várias vezes me pego relendo o mesmo documento, adiando aprovações que precisam ser feitas para o lançamento da nova coleção.
Aquela que vai calar a boca de quem duvidou da minha decisão de trazer a Liz para cá.
Minha cabeça está num looping de raiva, frustração e uma vontade quase infantil de quebrar alguma coisa — só para ver se isso alivia.
Seria fácil resolver tudo. O que a Chiara fez é suficiente para várias consequências legais. Mas… ela ainda é minha mãe.
Ainda assim, a manipulação emocional, tentativas patéticas de justificar o injustificável… e zero arrependimento real. Isso me irrita ainda mais.
Durante a tarde, mergulhado nos relatórios da Montesi & Co., folheando as mesmas páginas pela terceira vez, Max finalmente b**e na porta.
— Trouxe o que pedi? — pergunto assim que ele fecha a porta.
Ele assente e se aproxima, colocando uma pasta sobre a mesa.
— Sim. As informações sobre Riccardo — diz, empurrando a pasta na minha direção antes de se sentar. — E sei exatamente o que você está pensando.
— É mesmo? — levanto a sobrancelha, abrindo a pasta.
— É. Já vi esse olhar antes — responde, se inclinando na cadeira. — É o mesmo que você tinha quando achou a maneira perfeita de se vingar da Liz.
Paro de folhear os papéis e o encaro.
— E qual é o seu ponto?
— Que vingança contra o Riccardo não faz sentido — Max diz como se fosse óbvio. — Ele foi pago para fazer aquilo, Ettore. Por mais podre que tenha sido, tecnicamente ele só… cumpriu um trabalho.
— Ele ainda fez — rebato, voltando aos documentos. — Ninguém colocou uma arma na cabeça dele.
— Claro. Mas ir atrás dele agora seria como… culpar a arma em vez do atirador.
Fico em silêncio, processando as palavras dele. Talvez ele tenha razão. A raiva que eu sinto deveria estar direcionada aos meus pais, não ao homem que eles contrataram.
Mas a verdade é que com ele eu posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa. E sem um pingo de peso na consciência.
Começo a ler o relatório, e alguns detalhes me chamam a atenção de imediato.
— Porra… — murmuro, arqueando a sobrancelha. — Dois processos por assédio?
— Sim — Max confirma. — O primeiro foi encerrado do nada. A vítima retirou a queixa depois de um “acordo extrajudicial” que, por acaso, incluía uma cláusula de confidencialidade bem generosa.
— Traduzindo: ele pagou para ela calar a boca.
— Exatamente — diz, apontando os documentos. — E o segundo processo está indo pelo mesmo caminho. A vítima, uma ex-funcionária dele, não tem como contratar um advogado decente, e o Riccardo está se aproveitando disso.
— Conseguiu descobrir quanto meu pai pagou para ele? — pergunto, sem tirar os olhos da papelada.
— Essa é a parte interessante — digo, apontando para uma seção específica. — Não teve dinheiro direto. Riccardo recebeu um contrato comercial “legítimo” que, curiosamente, é a única fonte de renda que mantém a empresa dele de pé.

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