“Ettore Bianchi”
As portas da sala de reuniões se fecham atrás de mim, e todos os olhares se voltam na minha direção.
O conselho está completo hoje — uma coincidência conveniente para quem quer questionar minhas decisões recentes.
Giorgio Ricci, sentado à direita de onde meu pai costumava ficar, tamborila os dedos sobre a mesa de madeira polida. Seu olhar de desaprovação é tão sutil quanto um martelo.
— Bom dia, Sr. Bianchi — meu tio Alessandro me cumprimenta. — Estávamos analisando os números das últimas semanas. Impressionantes, devo dizer.
Ocupo meu lugar na cabeceira da mesa, abro minha pasta e encaro cada um deles com calma.
— Os números são aceitáveis, mas continuam longe do que podemos alcançar — respondo, mantendo o tom neutro.
— Concordo plenamente — Giorgio intervém, inclinando-se para frente. — Principalmente considerando suas recentes… contratações.
Ah… Então é sobre isso.
— Se está se referindo à minha esposa e à assistente dela, sim, elas se juntaram hoje ao departamento de design — confirmo, com a tranquilidade de quem comenta a previsão do tempo. — Foi uma decisão puramente estratégica.
— Estratégica? — Franco repete, soltando uma risada seca. — Contratar a filha de Antonio Montesi, nosso rival histórico, para um cargo tão sensível? Isso é tudo, menos estratégico.
Observo a troca de olhares entre ele e Giorgio. A velha aliança continua viva e venenosa.
— Liz Bianchi — enfatizo o sobrenome com intenção — é uma designer talentosa, reconhecida internacionalmente pelo trabalho feito na Montesi. Nosso departamento de design precisa de sangue novo. Ou vocês estão satisfeitos com a queda de 15% nas vendas da última coleção?
O silêncio que se segue é exatamente o que eu esperava. Ninguém quer encarar a verdade: estamos estagnados.
— Ainda assim, trazer uma Montesi para dentro da nossa empresa… — Giorgio insiste, tentando manter a falsa cordialidade. — Victor certamente não teria aprovado isso.
— Meu pai não está mais aqui — respondo, cortando-o com um olhar gelado. — E tenho certeza de que ele preferiria ver o nome Bianchi no topo do mercado novamente, ainda que isso envolva decisões controversas.
— Precisamos de novas visões mesmo — Alessandro intervém. — E agora que Liz é uma Bianchi, os talentos dela devem servir à nossa família. Não à concorrência.
A porta se abre, e minha assistente entra, segurando uma pasta que reconheço de imediato.
— Com licença, senhores — diz ela, caminhando até mim. — Sr. Bianchi, os documentos que solicitou.
— Obrigado — murmuro, abrindo a pasta. Lá está: a análise completa do departamento de design. — Senhores, se ainda quiserem questionar minha decisão, sugiro que leiam isso.
Distribuo os relatórios um a um, observando as expressões endurecerem à medida que os dados falam por si.
— Como podem ver, nos últimos três anos nossas coleções se tornaram previsíveis — explico, apontando para o gráfico. — Enquanto isso, mesmo em meio a dificuldades financeiras, a Montesi manteve sua relevância criativa.
Ninguém diz uma palavra. Óbvio.
— Liz Montesi revolucionou o design deles. E agora trará essa visão para cá. Como Bianchi. Não como Montesi.
— E podemos confiar nela? — Franco solta, dando voz à tensão no ar. — Como sabemos que ela não vai levar nossas ideias de volta para a empresa do pai?
Max se aproxima e deposita outro documento sobre a mesa.
— O contrato de confidencialidade que a Sra. Bianchi assinou ontem — explica, seco. — Com cláusulas particularmente rígidas, como o senhor solicitou.
No andar do design, avisto Liz à distância, conversando com alguns membros da equipe. Apesar da postura firme, a tensão nos ombros a denuncia.
Paolo está por perto, analisando cada gesto dela como um falcão. O desafio nos olhos dele é claro. Não vai facilitar.
Perfeito.
Quero ver como ela reage. Se vai se curvar como nas primeiras semanas do nosso casamento ou manter essa versão que voltou à tona recentemente. A que anda me tirando do sério.
— Olha só, o grande CEO veio inspecionar sua aquisição — Max comenta, seguindo meu olhar até Liz.
— Vai fazer seu trabalho, Max. Eu tenho o meu.
— E qual seria? Atormentar sua esposa ou ajudá-la a se estabelecer? — Ele solta, com aquele olhar que sempre me irrita. O tipo de olhar que acha que me entende.
— Os dois — respondo sem piscar. — Depende do que for mais útil no momento.
Ele balança a cabeça, reprovando.
— Um dia, Ettore, você vai ter que decidir o que realmente quer dela.
Volto os olhos para Liz. Ela acaba de dizer algo que faz um dos designers mais jovens sorrir. Pequeno progresso.
Ela sempre teve essa habilidade de lidar com pessoas. Algo que nunca tive — e nunca precisei.
— O que eu quero é irrelevante — digo, ajustando a gravata. — O que importa é o que está no contrato.

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