“Liz Bianchi”
Dois dias. Apenas dois dias foram suficientes para entender por que o departamento de design está estagnado.
Não é por falta de talento — alguns dos designers realmente têm isso. É por falta de liberdade criativa.
Paolo, o homem que me recebeu com hostilidade declarada, governa o setor como um pequeno ditador. Tudo, absolutamente tudo, precisa da bênção dele.
Suspiro, reunindo as anotações que fiz nesses dois dias. Está na hora de apresentá-las a Ettore e, honestamente, não estou ansiosa por isso.
Ouço a porta do meu escritório se abrir. Levanto os olhos, esperando ver Giulia, mas me deparo com outra pessoa.
Isabella Ricci.
Meu corpo se tensiona rápido, mas me forço a endireitar a postura.
Claro que ela trabalha aqui. Porque a vida, às vezes, tem um senso de humor questionável.
— Liz Bianchi — ela pronuncia meu sobrenome com um desdém quase palpável. — Finalmente posso dar as boas-vindas oficiais à nossa mais nova diretora de criação.
— Isabella, que surpresa — respondo, mantendo a voz neutra. — Não sabia que você fazia parte da equipe.
— Diretora de Relações Públicas há quase um ano — ela esclarece, inchada de orgulho. — Estive em Paris nos últimos dias, representando a empresa na semana de moda. Por isso, não pude parabenizar a esposa do nosso chefe antes.
O jeito como ela diz “esposa” soa como se a palavra viesse envolta em aspas invisíveis. Um título que, aos olhos dela, eu claramente não mereço.
— E aí, como está sendo? — pergunta, dando uma olhada ao redor da sala com um desprezo sutil. — Imagino que esteja sendo difícil se adaptar. Ainda mais vindo de uma empresa que, digamos… não está exatamente brilhando, não é?
— Na verdade, estou adorando o desafio — respondo com um sorriso que é mais contenção do que simpatia. — É curioso observar como cada um reage à mudança.
— Claro. Especialmente quando algumas pessoas têm… certas facilidades — ela comenta, ainda naquele tom doce como arsênico. — E certos relacionamentos abrem portas que talento nenhum conseguiria.
Aí está. O verdadeiro motivo da visita. Questionar minha competência e insinuar que só estou aqui por ser a esposa de Ettore.
— Nisso, concordo com você — ironizo, levantando para encará-la de frente. — Algumas pessoas constroem a carreira graças a um sobrenome. Outras se destacam pelo seu valor. Tive a sorte de ter ambos, mas é pela segunda opção que estou aqui.
— Tenho certeza que sim — responde, com um tom que sugere exatamente o contrário. — Nós duas conhecemos muito bem o Ettore para saber que ele sempre foi… exigente, não é?
Sinto o sangue pulsar nos ouvidos, mas respiro fundo. Rebater Isabella seria fácil — tentador até — mas completamente inútil.
Ela quer isso. Provocar para que eu devolva em dobro, só para sair daqui com munição. Especialmente para minha sogra, que já me ama só por eu existir.
Claro que não vou dar esse gostinho para ela.
— Adoraria continuar essa conversa — digo, com um sorriso profissional que não chega aos olhos — mas tenho uma reunião com o seu “exigente” chefe, e estou quase atrasada.
Isabella pisca devagar, como quem decide se me ignora ou me acerta com a ponta do salto.
Me aproximo da mesa, coloco a pasta à sua frente e me sento com calma, tentando parecer mais tranquila do que estou.
— Aqui estão as alterações que propus para a coleção atual, com algumas ideias para a próxima linha.
Ettore pega a pasta e abre a primeira folha com aquele interesse calculado que ele domina tão bem. Seus olhos percorrem meus desenhos sem entregar absolutamente nada.
— É ambicioso — comenta, por fim. — Principalmente considerando seu pouco tempo aqui.
— Estou tentando compensar o calor com que fui recebida — retruco, irônica. — Especialmente por certas relações públicas.
Meu marido desvia o olhar dos desenhos e me encara, irritantemente tranquilo.
— Por que não me avisou que a Isabella também trabalha aqui? — pergunto, mantendo o tom sob controle.
— Minha equipe é extensa, Liz — ele responde, fechando a pasta. — Não achei relevante mencionar cada funcionário.
Antes que eu possa responder, a porta do escritório se escancara de repente, e Chiara entra como um furacão.
Ao me ver sentada em frente ao filho, o desgosto se instala no rosto dela — e não é nada sutil.
Então, me analisa de cima a baixo, com um ódio que nem tenta disfarçar.
— Saia — ordena, apontando para a porta. — Preciso falar com meu filho. A sós.

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