“Liz Bianchi”
Observo meu reflexo no espelho do elevador enquanto subo para o andar do design.
As olheiras voltaram a dar o ar da graça depois da viagem. Pequeno preço por noites em claro, revirando cada segundo em Zurique.
A lembrança ainda queima. O beijo, os toques, o quase. E, claro, a volta à realidade — fria, seca e desconfortavelmente parecida com antes… ou quase isso.
— Pelo amor de Deus, Liz — murmuro, encarando meu reflexo. — Para de pensar nisso.
As portas do elevador se abrem e respiro fundo.
Um passo para fora e pronto: ativa o modo “Liz Bianchi, designer de sucesso”. Porque “Liz, a idiota apaixonada pelo homem que supostamente a odeia” precisa ficar trancada no armário.
Quando chego na minha sala, Giulia está sentada em uma das cadeiras, tomando café e folheando uma revista.
— Bom dia, bela adormecida! — ela exclama, fechando a revista. — Achei que não vinha mais.
— Bom dia, amiga — respondo, largando a bolsa em cima da mesa. — Acabei dormindo demais. Nem ouvi o despertador.
Ela estreita os olhos, analisando meu rosto enquanto me sento, fingindo normalidade.
Por mais que eu tente disfarçar, Giulia me conhece o bastante para saber que tem algo errado.
— Aconteceu alguma coisa nessa viagem, não é? — ela finalmente pergunta. — Sabia que não devia ter te incentivado a “aproveitar a situação”.
— Não começa. Você não me incentivou a nada — rebato. — Dois ex-namorados presos num quarto de hotel sem ter para onde fugir? Era óbvio que ia dar errado em algum momento.
— Então começa a contar exatamente o que rolou. AGORA!
Solto um suspiro pesado antes de começar a falar. Conto sobre a nevasca, o beijo, até onde fomos…
— No fim, acho que fiz bem em parar — concluo. — Ele se arrependeu. Teria sido ainda pior se eu tivesse me entregado de vez. Agora só me resta esquecer e seguir.
— Esquecer ou fingir que esqueceu?
— Não sei — confesso. — Só sei que isso só comprova o que eu já sabia: não posso me entregar para ele. Seria minha destruição.
— Nossa, quanto drama! — ela brinca, mas o olhar continua preocupado. — O homem te beijou, não te pediu em casamento. Ah, espera… vocês já estão casados.
— Engraçadinha. Você sabe o que eu quis dizer.
— Sei exatamente. Que você está morrendo de medo.
— Não é medo — mordo o lábio. — É pavor. Pavor de ceder e ele mudar de ideia… de novo.
— Então devolve na mesma moeda — ela sugere, com aquele sorriso de quem quer ver o circo pegar fogo. — Vire o jogo. Seja fria, indiferente… deixe ele pirar um pouquinho.
— Ser fria e distante igual ao Sr. Iceberg? Não sei se…

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