“Liz Bianchi”
A neve finalmente parou de cair quando abro os olhos. A claridade que invade o quarto é quase bem-vinda depois de dois dias de céu encoberto e clima sombrio.
Olho para o lado e encontro a cama vazia. Os lençóis estão quase impecáveis e, se não fosse pelo perfume dele no travesseiro, eu poderia jurar que Ettore sequer dormiu aqui.
Fecho os olhos por um instante, permitindo que as lembranças de ontem retornem. As mãos dele na minha pele. O calor. A confissão sussurrada.
O quase.
O quase continua pairando entre nós, mesmo depois de tentarmos seguir convivendo no mesmo ambiente como se nada tivesse acontecido.
— Você consegue, Liz — murmuro baixinho, me forçando a levantar da cama. — Pior do que estava não fica.
Sigo para o banheiro e, enquanto escovo os dentes, encaro meu reflexo no espelho. E, mais uma vez, a pergunta volta à minha mente:
Como me comportar na frente dele?
Porque, querendo ou não, esse novo território entre nós — nem guerra declarada, nem paz — é mais perigoso do que qualquer coisa que enfrentei nas últimas semanas.
Quando finalmente saio, encontro Ettore na pequena sala da suíte, concentrado no notebook.
— Bom dia — cumprimento, tentando soar casual.
— Bom dia — ele responde, sem desviar os olhos da tela. — As estradas estão sendo liberadas.
— Então poderemos voltar para casa.
Ele assente, finalmente levantando a cabeça para me encarar.
— Minha assistente já reservou nossas passagens no primeiro voo disponível. Saímos às dez.
Pego uma xícara de café ao lado dele e me sento na poltrona do outro lado. O silêncio se instala entre nós. Tão tenso que quase consigo ouvir a neve derretendo lá fora.
— Ettore, como ficaremos depois do… — começo, reunindo coragem, mas ele me corta rápido.
— Não há o que discutir, Liz — responde, frio. — Você tomou a decisão certa em não continuar. Aquilo foi só um momento. A neve, o confinamento, o vinho…
As palavras dele deixam um gosto amargo na boca, mesmo com o café adoçado.
Só um momento.
Só o suficiente para me lembrar como é estar viva.
Só o suficiente para me deixar mais vazia agora.
Mas Ettore não seria Ettore se estivesse acendendo qualquer faísca em vez de apagar o fogo.
— Claro — concordo, tentando não demonstrar o quanto sua frieza ainda me afeta. — Só um momento.
Levanto, levando a xícara comigo — mais por orgulho do que por vontade de realmente querer beber. Preciso sair de perto dele. Preciso respirar.
Mas o que eu esperava, afinal? Que ele mudasse magicamente seus pensamentos só porque disse que não me odeia? E daí? Muitas coisas são ditas no calor do momento.
Engulo o nó que se forma na garganta e começo a organizar minhas coisas, tentando ocupar a cabeça para não voltar aos mesmos pensamentos.
A manhã se passa nessa distância de quilômetros, mesmo que estejamos a apenas alguns metros de distância — às vezes até menos.
Como ele consegue parecer tão… inteiro?
Como se os últimos dias tivessem sido só um erro de digitação na vida dele, enquanto, na minha, foram uma vírgula gigante entre o antes e o depois.
— Vai mesmo fingir que nada aconteceu? — As palavras escapam antes que eu possa contê-las.
Ele me olha, surpreso com a minha audácia. Por um instante, vejo algo em seus olhos. Talvez confusão. Talvez arrependimento do quase.
— Não estou fingindo — responde, com uma calma estudada. — Só reconhecendo que certas coisas são melhores deixadas onde pertencem.
— Então vamos seguir a regra do “o que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas”, só que em Zurique? — questiono, tentando manter o tom leve, embora meu coração pese.
Um meio sorriso aparece no canto dos lábios dele antes que volte a encarar a janela.
— Algo assim — murmura, encerrando o assunto.
Por alguns minutos, ele permanece em silêncio, os olhos perdidos nas nuvens que passam sob nós.
— Obrigado — ele diz, tão baixo que, por um momento, penso ter imaginado.
— Pelo quê? — pergunto, confusa.
Ettore vira o rosto em minha direção, e há algo em seus olhos que não consigo decifrar.
— Por não deixar que cometêssemos outro erro — responde. Então volta a olhar pela janela como se não tivesse dito nada.
E, nesse momento, uma certeza se instala: a trégua ficou em Zurique.

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