“Ettore Bianchi”
As portas do elevador se abrem e eu saio sem olhar para os lados.
Paolo está insuportável. Mais do que o normal, o que já é dizer muito.
Se ele gastasse metade da energia que usa cuidando do trabalho alheio em algo produtivo, talvez eu não tivesse que ouvir investidores questionando resultados medíocres.
— Acha que ele entendeu o recado? — Max pergunta ao meu lado, me acompanhando até minha sala.
— Qual deles? O sobre a coleção ou o sobre manter a boca fechada quando é necessário?
Ele ri baixo.
— Ambos. Mas principalmente o segundo. Porque, convenhamos, você defendeu a Liz com gosto.
— Eu não a defendi — rebato, entrando na sala e largando a pasta sobre a mesa. — Só lembrei que o Paolo vive num aquário e adora jogar pedra. Não é minha culpa se ele esquece que é de vidro.
Max fecha a porta, mas não move um músculo. Só me encara com aquela cara de quem claramente não acreditou em uma palavra.
— Certo — diz, enfim, arrastando a palavra. — Só espero que esse aquário não vire um tsunami, porque o homem estava quase cuspindo fogo.
— Que ele aprenda a usar o tempo com o próprio trabalho, não com intrigas.
Ele ergue as mãos, rendido, e caminha até a porta. Quando a porta se fecha com um clique suave, praticamente me jogo na cadeira, massageando as têmporas.
A proposta da Liz para a nova coleção é, sem dúvidas, forte. Tem identidade, personalidade…
Mas conheço Giorgio bem o bastante para saber que enfiar na cabeça dele que a coleção será um sucesso vai ser estressante.
Uma batida discreta na porta me arranca dos pensamentos, e dessa vez eu nem tento fingir paciência.
— Entre.
Meu tio entra, trazendo a calmaria que parece contagiosa só de olhar para ele. O oposto de Victor Bianchi.
— Ocupado? — pergunta, aproximando-se.
— Um pouco. O que precisa?
— Nada de trabalho, dessa vez — responde, sorrindo. — Vim te lembrar do jantar de sábado antes que você se esqueça e coloque outro compromisso no meu lugar.
O encaro por um momento, tentando me lembrar do que, exatamente, ele está falando. Alessandro, claro, percebe na hora e balança a cabeça.
— Meu aniversário, Ettore — completa, me fazendo sentir péssimo por ter esquecido. — Sabia que você nem se lembrava.
— Claro que me… — começo, mas desisto de mentir quando ele levanta uma sobrancelha. — O senhor tem razão, não me lembrava. O prazo da coleção, o conselho esperando qualquer deslize… tudo isso está me sugando mais do que imaginei.
— Sei muito bem disso, sobrinho. Mas, se me permite o conselho: não se sobrecarregue — diz ele, com sua calma habitual. — Ao contrário do que pensam, você conquistou seu lugar por mérito. Uma hora eles vão cansar de cobiçar o que não é deles. Você está fazendo um ótimo trabalho, isso é incontestável.
— Nada. Só estou dizendo que você carrega tanto peso sozinho — continua, com a mão ainda no meu ombro. — É admirável, mas cansativo. Me pergunto se Liz realmente sabe cuidar de você como deve ser.
Levanto os olhos devagar, encarando-a. Sei exatamente o que ela está tentando fazer. Reforçar que ela, sim, é o retrato vivo do que minha mãe sempre achou ideal.
— Isabella — murmuro, num tom baixo, porém firme — isso não é apropriado. Escolhi a mulher que…
— Apropriado é relativo — ela me interrompe, endireitando minha gravata. — Não estou fazendo nada de mais. Só tentando te fazer enxergar o óbvio.
— E o que seria o óbvio? — pergunto, afastando a mão dela com um gesto contido.
— Que você merece alguém que cuide de você como você cuida de tudo — responde, voltando a tocar minha gravata como se eu fosse uma criança. — Alguém que entenda o peso do seu nome, que não tente se aproveitar do sobrenome Bianchi.
Não tenho tempo nem de pensar em uma resposta.
A porta se abre. Rápido demais.
Liz entra com uma pasta na mão e um olhar que arranca o ar do ambiente.
Seu olhar passa por Isabella, percorrendo pela gravata até parar na mão apoiada no meu ombro.
Então… silêncio.
Silêncio do tipo que pesa, que grita sem som, que mata sem precisar de palavras.

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