“Liz Bianchi”
Quando abro a porta do escritório de Ettore, a cena que encontro me faz congelar no lugar.
Isabella, debruçada sobre a mesa, praticamente colada em Ettore, enquanto meu marido parece… confortável demais com a proximidade.
Meu primeiro pensamento é gritar. Depois jogar a pasta que seguro na cabeça dele. Ou na dela. Ou em ambos.
Mas então a voz de Giulia ecoa na minha mente: “Seja fria, deixa ele pirar um pouquinho.”
Respiro fundo, forçando meu rosto a assumir uma expressão neutra, quase entediada.
— Perdão, não sabia que estava ocupado — digo, me surpreendendo com o controle na voz. — Volto mais tarde.
Ettore se levanta rápido demais, praticamente empurrando Isabella. A atitude só confirma o que já suspeitava: algo definitivamente estava acontecendo ali.
— Não é necessário — responde, ajeitando a gravata que Isabella acabou de “ajeitar”. — A Srta. Ricci já estava de saída.
Isabella abre um sorriso malicioso, daqueles que só quem sabe que fez um excelente trabalho abre. Então, segue para a saída lentamente. Quando passa por mim, interrompe seus passos.
— Sra. Bianchi — cumprimenta, enfatizando meu sobrenome com ironia. — Sempre interrompendo.
— Srta. Ricci — respondo, com um sorriso tão educado quanto venenoso. — Sempre inconveniente.
Isabella me olha por um segundo antes de finalmente sair. O silêncio que fica é tão incômodo quanto o perfume doce e enjoativo que ela deixou para trás.
— Desculpe interromper — digo, me aproximando. — Mas você pediu que viesse aqui.
— Sim, pedi — confirma, claramente desconfortável, voltando ao seu lugar. — Sente-se.
Obedeço, cruzando as pernas como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de encontrar meu marido em uma situação, no mínimo, questionável.
— Aquilo não foi o que pareceu — diz rapidamente.
— Não precisa me explicar nada, Ettore — respondo, com a calma que aprendi a imitar dele. — Sua vida pessoal não me diz respeito.
— Isabella estava ajustando minha gravata. Só isso — insiste, irritado.
— Não há nada para falar — respondo, mantendo os olhos nos documentos. — A menos que você tenha esquecido que nosso casamento é apenas um acordo. Você não me deve explicações.
Ettore me observa por um momento, claramente não esperando essa reação. Ele se levanta, contorna a mesa e para à minha frente.
— Então, por que parece estar incomodada? — pergunta, inclinando-se sobre minha cadeira.
— Não estou — minto, agradecendo aos céus por minha voz não falhar. — Sei que se lembra daquela cláusula de fidelidade ridícula que você mesmo fez questão de incluir. Uma cláusula que te impede de fazer o que, claramente, estava prestes a acontecer.
Algo muda no olhar dele. Um brilho perigoso que reconheço bem demais.
— Está com ciúmes, Sra. Bianchi? — pergunta, se aproximando um pouco mais.
— Estou lembrando os termos do nosso contrato — corrijo, levantando rapidamente, dando um passo para trás. — Algo que você parece ter esquecido.
Ettore avança na minha direção, como um predador ciente da presa encurralada. Recuo instintivamente, até sentir a porta fria contra minhas costas.
O empecilho perfeito para que ele pare tão próximo de mim que consigo sentir o calor do corpo dele.
Quando as portas se fecham, me encosto na parede espelhada, soltando o ar que não percebi estar segurando.
Assim que chego na minha sala, Giulia está sentada na minha cadeira, mexendo no celular.
— Você não tem sua própria sala? — pergunto, fingindo irritação, mas falhando miseravelmente.
— Tenho, mas estava ansiosa demais para saber o que aconteceu na toca do lobo mau — responde, levantando-se. — E pela sua cara, foi intenso.
— Peguei Isabella praticamente em cima dele. Ajeitando a gravata, segundo Ettore — conto, me jogando na cadeira. — Foi no mínimo… irritante.
— E o que você fez? Jogou café no colo dele? Arranhou a cara dela?
— Fiquei fria e indiferente, como você sugeriu.
— Ah, meu Deus! — ela exclama, divertida. — Você realmente ouviu meu conselho! Estou impressionada. E como nosso querido CEO reagiu?
— Tentou me explicar… depois me prensou contra a porta, perguntando se eu estava com ciúmes.
— E estava? — pergunta, arregalando os olhos.
Mordo o lábio, ponderando mentir, mas desisto.
— Sim. É ridículo e absurdo, mas senti ciúmes — admito, passando a mão pelo rosto. — O que só prova que sou uma idiota que não aprende.
— Uma idiota completamente apaixonada — ela corrige.
— E ciumenta — completo, sentindo meu rosto esquentar. — Estou perdida com esse homem.

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