“Ettore Bianchi”
Faz horas que estou deitado encarando o teto. O relógio marca 6h14, e o sol começa a invadir o quarto pelas frestas da cortina.
Ao meu lado, Liz dorme tranquilamente. Respiração lenta, cabelos espalhados pelo travesseiro, o rosto relaxado.
Parece em paz. Tão diferente da mulher cautelosa que tem vivido sob meu teto nas últimas semanas.
Me viro para observá-la melhor, tentando entender em que momento me perdi pelo caminho.
Talvez tenha sido desde que ela entrou na sala de reuniões da Montesi. Desde que nossos olhares se cruzaram depois de mais de três anos.
Meu erro foi acreditar que meu plano seria simples. O casamento. A distância emocional. A vingança. Tudo friamente calculado com um único objetivo: fazê-la pagar pela dor que me causou.
Simples na teoria. Na prática, é mil vezes mais torturante.
Passo a mão pelo rosto, sentindo os olhos arderem com o cansaço de uma noite sem sono.
Me levanto com cuidado, tentando não acordá-la. Não posso encará-la agora. Não com essa bagunça dentro de mim.
Minhas emoções podem estragar as poucas horas de paz que tivemos. Horas que talvez nem devessem ter existido.
Pego minhas roupas espalhadas pelo chão e saio pela porta que conecta nossos quartos.
Meu espaço, impecavelmente arrumado e frio, parece outro mundo depois do calor da cama que acabei de deixar.
Jogo as roupas no cesto e vou direto para o chuveiro. Deixo a água gelada cair sobre o corpo numa tentativa inútil de esfriar os pensamentos.
— Foco, porra — murmuro, apoiando a testa nos azulejos frios, como se isso pudesse apagar a madrugada da minha cabeça.
Depois do banho, me visto e desço para tomar café. Rotina. A única coisa que ainda consigo controlar.
Preciso recuperar meu equilíbrio antes que cometa a burrice de voltar para a cama dela.
Adeline já está colocando a mesa quando entro na sala de jantar.
— Bom dia, senhor — cumprimenta com aquele sorriso caloroso de sempre. — A senhora também vai tomar café agora?
— Não — respondo, pegando o jornal. — Peça que evitem barulho perto do quarto. Ela precisa descansar.
Adeline assente e se retira, me deixando sozinho com meus pensamentos. Pensamentos que insistem em voltar para o quarto no andar de cima.
Para a mulher que deixei dormindo, exausta.
Não sei quanto tempo fico assim — o café esfriando na xícara, o jornal aberto na mesma página — quando ouço a campainha.
Pouco depois, Max aparece na porta da sala de jantar.
— Bom dia, chefinho — diz, sentando-se à minha frente. — Pronto para algumas tacadas?
Fico olhando para ele, confuso, até que a lembrança me acerta: o golfe. Nosso ritual de fim de semana.
— Claro — respondo, bebendo o café como se fosse um remédio amargo. — Só preciso me trocar.
Saio antes que ele comece com as perguntas. Não estou pronto para nenhuma delas.
Meia hora depois, estamos no campo. O dia está perfeito: céu azul, brisa suave, temperatura agradável.
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