“Liz Bianchi”
Acordo pelada, dolorida e sozinha. Um combo que, em outras circunstâncias, seria digno de arrependimento.
Mas não. Meu arrependimento ainda está dormindo. Provavelmente em outro lugar, de preferência com a consciência tranquila e o ego massageado.
Olho para o lado e encontro o travesseiro amassado, frio. Se não fosse pelo cheiro dele no lençol — e pelas dores deliciosamente espalhadas pelo meu corpo — eu podia jurar que sonhei tudo.
A sensação de vazio me incomoda, mesmo sabendo que era o esperado. O que eu queria, afinal?
Que três anos de mágoa, ressentimento e silêncio evaporassem com uma noite só?
Que Ettore estivesse aqui agora, me abraçando… trazendo café na cama?
— Idiota — murmuro para mim mesma, sentando devagar.
Respiro fundo e me levanto, sentindo os músculos reclamarem em pontos que eu nem lembrava que existiam.
No espelho do banheiro, dou de cara com uma cena quase cômica: cabelo parecendo que abrigou uma família de pássaros, olhos inchados e brilhantes… e marcas. Várias.
No pescoço, nos seios, na barriga... Um verdadeiro festival de provas. Algumas que nem maquiagem resolve.
Entro no banho, deixando a água quente escorrer pelas costas. Alivia o corpo, mas não a mente.
A mente fica reproduzindo cada toque, cada gemido, cada vez que ele murmurou “piccola” como se o tempo nunca tivesse passado.
— E agora, mio Dio? — sussurro, fechando o chuveiro.
Solto um suspiro pesado e vou até o closet. Sem opções melhores, visto uma calça jeans e uma blusa de gola alta, a única maneira de esconder as marcas do pescoço.
Meu estômago ronca, me lembrando que não como desde ontem à noite.
Quando chego na cozinha, encontro Adeline organizando a despensa.
— Bom dia, senhora — ela sorri, gentil como sempre. — Posso servir seu café da manhã?
— Só um café, por favor, Adeline — respondo, me sentando. — O Sr. Bianchi já tomou café?
— Sim, há algumas horas. Saiu para jogar golfe com o Sr. Whitmore.
Golfe, claro. O novo hobby que meu marido parece ter adquirido nos últimos anos. A desculpa perfeita para não me encarar agora.
Isso é bom ou ruim? Nem sei. Talvez até melhor assim. Me dá tempo para organizar o caos mental antes de encará-lo.
— Obrigada — digo, quando Adeline coloca a xícara de café na minha frente.
Bebo em silêncio, perdida nas lembranças da madrugada. Perdida no: “Tão minha. Sempre foi minha, piccola.”
Mordo o lábio, tentando conter o sorriso bobo que ameaça surgir. Não é hora para isso. Ainda não. Palavras sussurradas entre gemidos não podem ser levadas tão a sério assim… certo?
Termino o café e subo de volta para o quarto. A cama ainda está do jeito que deixamos: lençóis revirados, almofadas no chão, cheiro dele impregnado em tudo.
Não dá. Não consigo ficar aqui. Não hoje.
— Preciso da Giulia — murmuro, pegando minha bolsa e as chaves.
Desço as escadas com passos rápidos, aviso Adeline que vou passar o dia fora e, finalmente, saio de casa.
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