Meu coração salta ao ouvir a palavra dita sem nenhum traço de desprezo.
Piccola. Pequena. O apelido que ele sussurrava contra meus lábios, contra minha pele, nas noites que passamos juntos.
O tempo parece congelar enquanto continuamos assim, imóveis, presos em um instante que se estende além da lógica.
Parte de mim quer ceder. Quer realmente beijá-lo. Quer fingir que os últimos três anos nunca aconteceram.
Mas a outra parte, a que ainda sente o gosto amargo das palavras frias, a que não esqueceu o olhar de desprezo, resiste.
— Não — consigo dizer, quase num sussurro.
Minha negação, provavelmente desmentida pela minha respiração ofegante, arranca um sorriso lento dele.
Ettore aproxima o rosto um pouco mais, e por um segundo, acho que ele vai me beijar. Mas, em vez disso, seus lábios roçam minha bochecha e seguem até meu ouvido.
— Péssima mentirosa — murmura, rouco, provocando um arrepio involuntário que percorre minha espinha.
Com um movimento lento, ele apoia uma das mãos ao lado da minha cabeça, aliviando o peso do corpo sobre mim, mas sem se afastar completamente.
A outra mão afasta uma mecha molhada do meu rosto. Um gesto gentil, familiar. Quente o suficiente para me fazer fechar os olhos.
Mas então ele para, como se só agora percebesse o que estava fazendo.
Abro os olhos e vejo a mudança acontecer. O calor em seu olhar desaparece, substituído pela frieza que agora o define.
A máscara voltou.
Ele se afasta como se meu toque o queimasse, e se levanta da cama rapidamente.
— Tenha mais cuidado da próxima vez — diz, com a voz fria.
Sem olhar para trás, caminha até a porta que conecta nossos quartos e sai, fechando-a com um estrondo seco.
Permaneço deitada, imóvel, sentindo meu coração bater descompassado. Solto o ar preso na garganta e, sem perceber, meus dedos tocam meus lábios.
— O que foi isso…? — murmuro, com as lágrimas começando a arder nos olhos.
Por um momento, vi o antigo Ettore em seus olhos. O homem que me chamava de piccola com reverência, não com desprezo.
Mas, enquanto encaro o teto, uma verdade amarga se forma: aquele homem não existe mais. Foi destruído há três anos. Por mim.
E o homem que tomou seu lugar não quer recomeços. Quer vingança.
Jogo a toalha no chão e me enrolo nas cobertas, exausta demais para buscar uma camisola. Tudo o que quero é dormir. Me esquecer de tudo isso por algumas horas.
[…]
Acordar em um quarto desconhecido sempre foi desconfortável. Hoje, é pior.
Abro os olhos devagar, encarando o teto branco. Por alguns segundos, finjo que estou em um hotel qualquer, numa viagem de trabalho qualquer.
Mas a realidade volta rápido, dolorosa. Estou na casa de Ettore. Minha prisão de luxo pelos próximos doze meses.
— E lá vamos nós — murmuro, passando a mão no rosto.
— Não estou com fome, Ettore. Só quero evitar…
— A dor de cabeça — ele completa, limpando a garganta ao perceber que acabou de lembrar de algo íntimo. Rapidamente muda de assunto: — Vou levá-la à Montesi hoje.
— Posso ir de táxi.
— Não estou pedindo sua permissão. Quanto antes nos virem juntos, melhor.
Ele volta os olhos para o tablet, como se tivesse encerrado o assunto. Tento focar no café, mas a tensão no ar me sufoca.
— Sobre ontem à noite… — começo, mas ele levanta a mão num gesto rápido.
— Foi um acidente — me corta, sem me olhar. — Insignificante o bastante para eu ter esquecido, se você não tivesse mencionado.
Abro a boca para rebater, mas desisto. Tentar explicar que não provoquei aquela situação antes, mesmo que ele pense o contrário, só tornaria tudo ainda mais humilhante.
— Já viu seu cronograma? — pergunta, levantando-se com uma calma calculada.
— Ainda não. Temos tempo, não?
— Depende do que você chama de “tempo” — ele diz, com ironia. — Se tivesse lido, saberia que nosso casamento é no próximo sábado.
Solto a xícara com mais força do que deveria, assustada com a revelação.
Sábado. Quatro dias até estar oficialmente presa a ele.

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