Capítulo 261
~ MAREU ~
Parada diante do imponente M/S Palingenesia, eu precisava admitir uma coisa muito irritante: Logan Novak tinha um talento obsceno para dramatizar a própria vida com luxo, simbolismo e arquitetura naval.
O navio era enorme. Não no sentido genérico de “rico comprou um navio grande”. Era enorme do jeito calculado, elegante e ofensivamente bonito que só o Logan conseguia transformar em projeto. Linhas modernas, vidro, metal claro, madeira impecável, tripulação discretamente eficiente e aquela presença silenciosa de coisa caríssima que não precisava ostentar para ninguém saber o preço.
E o nome.
Palingenesia.
Eu ainda lembrava da expressão dele quando tinha me explicado, dias antes, com aquele ar de quem estava tentando parecer casual enquanto claramente estava orgulhoso demais de si mesmo.
— É a ideia de voltar à vida, recomeçar e surgir de novo — ele tinha dito.
Então fez uma pequena pausa, daquele jeito dele, em que parecia escolher as palavras com cuidado só para depois fingir que não.
— Renascer depois de quase perder tudo.
Na hora eu só tinha olhado para ele por alguns segundos, sentindo o peso daquilo bater em algum lugar muito específico dentro do meu peito. Porque, sinceramente, se existia um nome mais dramático para um navio da Novak, eu não queria conhecer.
Mas ali, parada diante do M/S Palingenesia, eu entendia.
Entendia até demais.
Estar embarcando naquele navio tinha qualquer coisa de símbolo, mesmo que eu me recusasse a dizer isso em voz alta porque dar razão ao Logan em excesso alimentava o ego dele, e o ego dele já era bem nutrido. Ainda assim, havia um sentido quase bonito demais em estar ali. Como se eu estivesse entrando, de fato, numa vida em que tudo finalmente fazia sentido. Como se, depois de tanto susto, tanta perda evitada por pouco, tanto amor construído na base do caos, eu estivesse indo ao encontro da felicidade em versão marítima e sofisticada.
Olívia segurava firme a minha mão, elegante em um vestidinho que esvoaçava ao vento. Logan mantinha um braço ao redor dos meus ombros, quente, estável, possessivo daquele jeito que agora eu só achava confortável.
Liam estava animado no colo da Samira, chutando o ar como se embarcar num navio fosse a coisa mais emocionante já inventada pela humanidade. O que, para um bebê, talvez realmente fosse. E Eva vinha no carrinho empurrado por Helen.
Helen.
Outra pessoa.
Eu não sabia exatamente em que ponto do caminho ela tinha sido substituída por essa versão quase assustadoramente funcional e, pior ainda, gentil. Talvez depois de tudo. Talvez antes, em pequenas rachaduras que eu não percebi enquanto estava ocupada demais sobrevivendo. O fato era que agora ela estava até fazendo faculdade de enfermagem à noite porque, segundo ela, queria poder ser mais eficiente no trabalho.
Trabalho.
Como se “quero aprender enfermagem para ajudar melhor” fosse uma frase normal de se ouvir da mulher que, no passado, mal suportava a minha existência atravessando o corredor da casa Novak.
Olhei para ela ajeitando com cuidado a mantinha da Eva.
— Às vezes eu ainda acho que você foi trocada discretamente por uma versão melhorada — comentei.
Helen ergueu uma sobrancelha.
— E, às vezes, eu ainda acho que a senhora fala demais.
— Viu? — eu disse, apontando para Logan. — Está quase perfeita, mas ainda restam traços da edição anterior.
Logan riu pelo nariz e apertou meus ombros.
— Vamos entrar.
A área interna do navio era tão absurda que eu tive vontade de nunca ter entrado em um navio antes só para me impressionar com mais coerência. Hall enorme, pé-direito alto, painéis de madeira clara, arranjos elegantes, vista aberta para o mar em praticamente todo lugar. Tudo com aquela cara impecável de showroom de luxo flutuante que o Logan sabia fazer como ninguém.
Fomos conduzidos à grande cabine familiar.
E, ao atravessar a porta, senti uma daquelas pequenas torções de memória que a vida adora aplicar quando está se sentindo poética. Da outra vez, no outro navio, eu tinha ficado no meu quarto separado. Havia tensão, desejo mal resolvido, segredos demais, distância demais, portas demais entre mim e o homem que agora dormia grudado em mim sempre que Eva permitia.
Agora não havia mais isso.
Agora havia nossa bagunça organizada. Nossas coisas misturadas. O bercinho portátil da Eva. Os livros da Olívia. As pequenas roupas do Liam. Meu nécessaire invadindo o espaço que, teoricamente, seria dele. E Logan, como sempre, aceitando isso com uma serenidade suspeita para alguém que um dia teve alergia a desorganização.
Eu estava olhando em volta quando senti os braços dele me envolvendo por trás.
— Café da manhã? — Logan sugeriu perto do meu ouvido.
Eu virei o rosto na direção dele imediatamente.
— Céus, sim. Eu poderia comer por três.
Ele me olhou estranho.
Então eu acrescentei correndo:
— Mas estou comendo por um. Uma. Mareu. Uma Mareu esfomeada. Só euzinha.
Logan soltou uma risada baixa, me puxou mais para perto e depositou um beijo rápido na minha boca.
— Ótima correção. Muito necessária.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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