~ MAREU ~
Apesar de todo mundo estar agindo como se tivesse assinado um pacto coletivo de estranheza, eu tive uma ótima tarde no navio.
Talvez ótima fosse até pouco.
O sol estava bonito sem estar agressivo, o mar tinha aquele azul perfeito que parece filtro de rede social, Liam passou boa parte do tempo alternando entre euforia e cochilos curtos, Eva ficou um pedaço inteiro da tarde naquela fase rara e milagrosa em que uma criança de seis meses decide colaborar com a paz mundial, e Logan circulou ao meu redor com um drink sem álcool na mão e um ar perigosamente relaxado para alguém que, em terra firme, ainda gostava de controlar reuniões, horários e a temperatura emocional de qualquer ambiente.
Eu aproveitei.
Aproveitei a piscina. Aproveitei a brisa. Aproveitei o fato de estar usando um maiô bonito sem sentir vontade de me esconder dentro de uma toalha, o que já era uma vitória moral relevante depois de tudo que meu corpo tinha passado. Aproveitei Liam jogando água em todo mundo com a alegria irresponsável dos pequenos tiranos fofos. Aproveitei Eva esticando as mãozinhas para agarrar qualquer coisa que brilhasse, o que incluía o colar da Samira, a alça do meu vestido de saída e, em um momento particularmente ambicioso, os cílios da Helen.
E aproveitei Olívia.
Principalmente Olívia.
Porque, quando ela estava feliz, narrando histórias, inventando análises e teorias como se o mundo fosse uma reunião muito complexa presidida por uma criança de sete anos, alguma coisa dentro de mim relaxava de um jeito que ainda me emocionava um pouco.
Naquela tarde, sentada numa espreguiçadeira ao lado do Logan com um copo de alguma mistura cítrica sem álcool, eu ouvi minha enteada — filha do meu coração, filha da minha vida, filha que também já me chamava de mãe quando queria acabar comigo emocionalmente — contar uma teoria detalhada sobre por que golfinhos provavelmente tinham hierarquias internas mais sofisticadas do que muitos conselhos de administração.
Logan riu.
Eu ri.
Liam bateu palmas sem entender nada.
Eva soltou um som feliz no colo da Helen.
E, por um momento longo e precioso, tudo pareceu simplesmente certo.
Havia só um problema.
Um pequeno probleminha.
Às 17h40, eu estava completamente arrumada para a cerimônia de renovação de votos da Kara Milani, marcada para as 18h.
Completamente arrumada queria dizer: maquiagem feita, cabelo pronto, vestido bonito, sandália no pé, perfume passado, brincos colocados, dignidade profissional no limite e a sensação crescente de que eu estava a poucos minutos de ser assassinada por uma cliente excêntrica.
Porque Kara ainda não tinha aparecido sequer para ver o vestido.
Na verdade, Kara vinha ignorando todas as minhas ligações e mensagens como se eu não fosse a mulher que, naquele exato momento, tinha em sua cabine um vestido de renovação de votos e uma necessidade bem razoável de saber se a cliente pretendia se vestir antes de fazer qualquer promessa pública de amor eterno.
Pior: eu tinha ficado sozinha naquele fim de tarde.
Logan tinha sumido para uma reunião.
Clara e Cath tinham desaparecido misteriosamente em algum ponto depois do almoço, claramente em missão secreta de mulheres suspeitas.
As crianças estavam em alguma atividade com as babás, o que, em linguagem Novak, podia significar desde oficina infantil até operação logística de entretenimento com monitores e lanches organicamente aprovados.
E eu, sozinha na cabine, andava de um lado para o outro com o celular na mão e uma crescente vontade de cometer um crime elegante.
— Bilionários excêntricos! — reclamei para ninguém em especial, lançando o telefone sobre a poltrona com mais indignação do que delicadeza.
Foi exatamente nesse momento que ouvi um toc-toc na porta.
Eu fui tão rápido atender que, se tivesse uma câmera no corredor, provavelmente daria para usar a gravação como prova de surto.
Abri a porta já falando:
— Céus, Kara, você quer me matar do cora...
Era ela.
Linda.
Calma.
Perfeitamente maquiada.
Com cara de quem tinha todo o tempo do mundo.
— Calma — ela disse, entrando como se não tivesse cometido sete infrações éticas contra uma estilista. — Temos tempo.
Eu fechei a porta atrás dela devagar, por um instante em estado de incredulidade absoluta.
— Tempo? — repeti. — Tempo?
Kara tirou os óculos escuros com uma serenidade que me fez querer mordê-la.
— Sim.
— Temos vinte minutos e eu ainda nem ajustei seu vestido! — apontei para ela com as duas mãos. — Vai tirando logo a roupa.
Ela levantou as sobrancelhas.
— Sem um jantar antes?
Revirei os olhos tão forte que provavelmente vi fragmentos da minha alma.
Mas estava rindo.
Porque esse era o problema de Kara Milani: a pessoa conseguia ser insuportável com muito carisma.
— Muito engraçada. Tira logo essa roupa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...