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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 322

Aelyn

Acordei devagar, como se estivesse subindo de um poço profundo.

A primeira coisa que senti foi o cheiro de hospital, aquele odor característico de álcool e remédio. Pisquei várias vezes, confusa. O teto branco, as luzes frias, o bip constante de um monitor. Tentei me mexer e senti uma dorzinha no peito, um cansaço que ia até os ossos.

Olhei para os lados.

Mamãe estava sentada à minha direita, segurando minha mão. Papai à esquerda, com a outra mão presa na minha. Os dois pareciam exaustos, com olheiras profundas.

"Onde… onde eu estou?", perguntei, a voz rouca.

Mamãe apertou minha mão com mais força, os olhos marejados.

"No hospital, meu amor. Você teve febre alta de madrugada. O Felipe te trouxe correndo pra cá."

Papai apertou a outra mão, o maxilar travado daquele jeito que ele faz quando está se segurando para não ruir na nossa frente.

"Como você tá se sentindo, filha?"

"Dolorida…", respondi com sinceridade. "Parece que um caminhão passou por cima de mim."

Eles riram baixinho, aliviados. Mas o riso do papai durou pouco.

"Tá vendo por que eu não gosto que você durma fora de casa?", disse ele, a voz rouca. "Eu…"

"Pai", interrompi gentilmente. "Se eu não estivesse com o Felipe, ninguém teria percebido a febre tão rápido. Ele me medicou de madrugada, ficou acordado comigo… Acho que a melhor coisa foi eu ter estado lá com ele. Acho que eu poderia ter convulsionado e ninguém teria visto."

Papai passou a mão no rosto, tenso. Mamãe interveio, sempre a mediadora:

"Filha, não vamos nos estressar com isso agora, tá bom? Uma das causas dessa febre foi o estresse. Então respira fundo. Seu pai só está preocupado. Vai ficar tudo bem. Não vamos falar sobre isso agora, vamos apenas descansar e cuidar de você."

Cássio bufou, mas não soltou minha mão. Eu olhei para os dois, o peito apertado.

"Está sentindo mais alguma coisa?" esperei um pouco e além da dor no peito, o leve ardor entre as pernas ainda estava ali, mas eles não precisavam saber desse detalhe.

"Não, só o peito pesado e a cabeça latejando."

"O médico disse que vai melhorar, mas que vai ter que ficar em observação durante algumas horas. O dr. Martins passou para conversar com a gente também, ele e o Felipe conversaram a sós por bastante tempo. Sabe nos dizer por que?" Devo ter ficado vermelha de vergonha, porque minha mãe pareceu entender.

O silêncio que caiu foi pesado. Os olhos da mamãe se encheram de lágrimas na hora. Eu me arrependi imediatamente de ter dito em voz alta.

"Me desculpa, mãe… é só que eu não entendo. Eu… eu não sei no que pensar."

Mamãe se levantou rapidamente e me abraçou com cuidado, apertando minha cabeça contra o peito dela como quando eu era criança.

"Não fala isso, meu amor. Não fala isso nunca mais. O coração do Pedro te deu uma chance de viver. Ele te ama sim. E nós te amamos mais ainda. Vai ficar tudo bem. Os médicos disseram que é uma reação normal ao esforço e à medicação. Nada grave."

Eu chorei. Um choro silencioso, apavorado, daqueles que vêm do fundo da alma. Mamãe me apertou mais forte, balançando-me de leve. Papai segurava minha mão com tanta força que quase doía, mas eu não reclamei.

"Eu tenho tanto medo de não ser o suficiente pra ele…", sussurrei entre soluços. "De não aguentar tudo que ele merece."

"Você é mais do que suficiente", mamãe disse firme, a voz embargada. "E o Felipe sabe disso. Ele te trouxe correndo pra cá, ficou desesperado. Ele fará qualquer coisa por você."

Fechei os olhos, ainda abraçada à minha mãe, sentindo o cheiro familiar dela me acalmando aos poucos.

Eu só queria que meu coração entendesse isso também.

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