Aelyn
"Dr. Martins… quais são os riscos se eu quiser manter essa gravidez?"
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. O médico me olhou por um longo tempo, tirou os óculos lentamente e passou a mão pelo rosto, como se precisasse de um segundo para organizar os pensamentos. O silêncio na sala era quase sufocante.
"Aelyn… eu vou ser muito sincero com você." Ele respirou fundo. "Os riscos são altíssimos. Seu coração é um transplante. Uma gravidez aumenta drasticamente o volume sanguíneo, a pressão arterial, o trabalho cardíaco… tudo. Existem grandes chances de rejeição aguda, insuficiência cardíaca, pré-eclâmpsia, e, no pior cenário, você e o bebê podem não sobreviver. Eu realmente acho melhor você e o Felipe sentarem e conversarem com calma sobre isso."
Eu fiquei em silêncio, atordoada. As palavras dele giravam na minha cabeça como um furacão. Você e o bebê podem morrer. Era direto demais. Cru demais. Mas era a verdade.
Ele me pediu para voltar à maca.
"Vou fazer uma ultrassom transvaginal para confirmar o tempo exato de gestação."
Fui até o vestuário para colocar o avental e voltei para a sala. Ele começou o exame e meu coração parecia que ia sair do peito. De repente, a tela acendeu.
Um pontinho minúsculo. Um coraçãozinho batendo forte, rápido, determinado.
"Esse é o seu bebê", disse ele com suavidade. "Cerca de sete semanas e três dias."
As lágrimas desceram sem controle. Eu me apaixonei ali, naquele exato instante. Aquele coraçãozinho minúsculo já tinha todo o meu mundo. Eu coloquei a mão sobre a barriga instintivamente, como se pudesse proteger aquela vida que mal tinha começado.
"Posso… posso levar uma foto pra mostrar pro Felipe?"
O médico imprimiu duas imagens e me entregou. Saí do consultório com as pernas fracas, o envelope apertado contra o peito. Entrei no carro e fiquei parada por vários minutos, olhando para o nada. Grávida. Eu estava grávida. Depois de uma única noite. Depois de tanto tempo esperando, de tanto medo, de tanto cuidado… a vida tinha decidido por nós.
Dirigi até o escritório do Felipe em estado quase automático. Antes de descer, parei no estacionamento, limpei as lágrimas que insistiam em cair e respirei fundo várias vezes. Estava emocionada, apavorada, feliz e aterrorizada ao mesmo tempo. Eu precisava dele. Mais do que nunca.
A recepcionista, Dona Marta, me recebeu com um sorriso enorme.
"Aelyn querida. Como você está. Acabou o sufoco?" dei risada.
"Não sei, meu coração gosta de pregar peças." ela sorriu.
"Mas vamos rezar para ele logo ficar bem." Concordei e me encaminhei para o elevador.
Entrei no elevador com o coração na boca. Quando cheguei ao andar, a porta da sala dele estava entreaberta. Empurrei devagar.
Liana estava lá. De pé, bem inclinada sobre a mesa, quase colada no ombro dele, apontando algo na tela do computador. A blusa dela estava aberta o suficiente para mostrar o decote. Aquilo me irritou profundamente.
Bati na porta com mais força do que pretendia.
"Incomodo?"
Os dois levantaram a cabeça. O sorriso do Felipe se abriu inteiro, iluminando o rosto todo quando me viu.
"Claro que não, amor!" Ele se virou para Liana. "Pode continuar. É exatamente isso que vamos usar na defesa do cliente. Obrigado, Liana."
Ela me lançou um olhar rápido, quase desafiador, agradeceu e saiu. Assim que a porta fechou, Felipe veio até mim e me puxou para um abraço forte, enterrando o rosto no meu cabelo.
"Estava com saudade… por isso veio me ver no meio do dia?"
Eu sorri contra o peito dele, mas neguei com a cabeça.
"Na verdade é outra coisa." Segurei o envelope com força. "Mas antes… por que aquela mulher tem que ficar tão perto de você, Felipe?"
Ele riu e me beijou, carinhoso e leve.
"Eu só estava mostrando onde ela errou na petição. Não é nada demais, amor. Você sabe que eu só tenho olhos pra você."
"Mas ela não... ela tem todos os olhos para você."
"Eu estou grávida. De sete semanas. Aconteceu naquela noite... eu...."
Ele pegou a foto com as mãos instáveis, olhando para o pontinho minúsculo como se não conseguisse processar. O silêncio na sala era absoluto. Eu via mil emoções passando pelo rosto dele: choque, medo, alegria, pânico.
"Aelyn…" A voz dele saiu rouca. "Isso… isso é sério?"
"É. O Dr. Martins já confirmou. E ele… ele disse que é de extremo risco. Meu coração pode não aguentar."
Felipe me puxou para os braços dele com força, quase desesperado. Eu senti o corpo dele tremendo contra o meu.
"Porra… um bebê…" Ele beijou meu cabelo, minha testa, minhas bochechas. "Nosso bebê."
Mas logo depois veio o medo. Eu vi nos olhos dele.
"E os riscos? O que o médico falou exatamente?"
Eu baixei o olhar.
"Que eu e o bebê podemos não sobreviver. Que meu coração não foi feito pra isso."
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, me apertando como se tivesse medo de me soltar. Eu sentia o coração dele batendo forte contra o meu.
"Eu não vou te perder", murmurou, a voz embargada.
Eu fechei os olhos, ainda em choque, mas com uma certeza estranha crescendo dentro de mim.
"Eu sei que é arriscado… mas é nosso filho, Fê. Nosso."
Ele não respondeu. Só me abraçou mais forte, como se o mundo inteiro pudesse desabar ao nosso redor.

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