A melodia da valsa continuava a fluir, mas ela sentiu que o ar ao redor havia estagnado.
De cabeça baixa, encarava as tramas escuras na gravata dele, sem dizer uma palavra.
Francisco a conduzia em giros. Seus passos eram mais vigorosos que os de Oliver; a cada movimento, dominava o ritmo com precisão formidável.
— Você consegue sorrir para ele. — Ele rompeu o silêncio repentinamente, com o tom de voz tão baixo que só ela podia ouvir. — Mas olhando para o meu rosto, não tem uma única palavra a dizer?
Nina ergueu o olhar, encontrando o vazio misterioso nos olhos dele, e forçou um sorriso enviesado:
— Que nada. É que a aura do meu chefe é tão intimidadora que não ouso dizer nada.
A mão que ele pousava na cintura dela apertou levemente.
Nina, cheia de cócegas, sentiu a pressão dos dedos de Francisco no seu flanco e por muito pouco não saltou do chão.
Ela lançou um olhar irritado a ele, embora as pontas de suas orelhas ficassem rubras, sem que pudesse evitar.
— Fale direito. — Ele a fitou. Seu gogó subiu e desceu com a deglutição, e a sua voz desceu de tom. — Me chame pelo nome quando estivermos a sós.
Nina ficou espantada.
— Esta é uma exigência do seu chefe, não pode recusar. — acrescentou ele. Os seus lábios não sustentavam sorriso algum, mas o seu olhar revelava uma obstinação inabalável.
Irritada, mas sem coragem de reclamar, após um momento, as palavras pularam por entre os seus dentes:
— ... Entendi.
Francisco parecia satisfeito e a puxou para mais uma volta.
Os reflexos de luz do lustre de cristal deslizavam sobre suas cabeças, desenhando uma coreografia intermitente de brilho e sombras sobre as feições do rosto dele.
— Tem me evitado ultimamente?
O olhar de Nina vacilou. Ela virou o rosto para o lado.
— Não. Só tenho estado muito ocupada com o trabalho.
— Verdade?
— ... Uhum.
Francisco não insistiu; limitou-se a mirá-la, calado. O olhar era tão intenso, como se estivesse revirando o seu semblante à caça de alguma fraqueza.
O ritmo da música começou a se desenhar para o final, e de repente ele soltou a pergunta:
— Tem algum plano para o feriado de primeiro de maio?
Nina ficou atordoada.
— Hã?

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