A ala de obstetrícia tinha um cheiro específico.
Lorena o conhecia melhor do que gostaria.
Ela havia ficado parada na entrada por um segundo antes de entrar. Depois acompanhou a maca de Nina até onde os médicos a receberam, havia ficado do lado de fora quando a porta da sala de parto fechou.
Agora estava sentada numa cadeira de plástico com as mãos no colo.
As mãos tremiam levemente. Ela as pressionou uma contra a outra até parar.
Do outro lado da porta chegavam sons, vozes médicas, equipamentos, e às vezes, sem aviso, o choro de um recém-nascido vindo de algum quarto próximo. Cada vez que chegava, algo no peito de Lorena apertava com uma precisão que os anos não haviam embotado.
A memória não precisava de convite. Voltava sozinha, Rafael de mãos dadas com ela no corredor do hospital, o rosto dele desfeito em lágrimas enquanto o médico explicava o diagnóstico de infertilidade com aquela voz clínica de quem entrega más notícias todos os dias. Ele havia chorado mais do que ela naquele dia. Havia dito que não importava. Havia dito que a amava assim mesmo.
Por muito tempo ela acreditou nisso até virar uma arma nas mãos dele e da família.
Muito antes de Rafael engravidar Nina, a mãe e o avô já faziam questão de soltar comentários ácidos sempre que podiam. O acidente, a perda, a infertilidade - tudo aquilo que tinha destruído Lorena por dentro parecia, para eles, um erro que ela havia cometido. Como se tivessem esquecido, convenientemente, de quem realmente havia causado tudo aquilo.
Uma maca sendo trazida às pressas para outra sala de parto arrancou Lorena das lembranças. Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Precisava dar um jeito de avisar alguém. O problema é que não tinha o telefone de ninguém da família de Nina. Sobrava apenas um número, o que ela jurou para si mesma que nunca mais discaria na vida.
Sônia atendeu no quarto ou quinto toque.
- Maldita! - o grito atravessou o ouvido de Lorena como uma lâmina. - O que diabos você pretende agora? Cadê o meu filho? Por que você não desaparece de uma vez…
- Cala a boca e escuta - Lorena cortou o escândalo, a voz firme. - Nina está no Hospital Central. Entrou em trabalho de parto.
- Nina? - Sônia repetiu, como se o nome fosse uma ofensa pessoal. - Essa outra idiota que não serve para nada…
- Eu já dei o recado.
Lorena desligou antes que a voz da sogra, ex-sogra, pudesse chegar aos seus ouvidos mais uma vez.
O celular continuava em suas mãos. Ela tinha enviado várias mensagens para Dante sem nenhuma resposta.
- O bebê nasceu - disse. - É um menino. Está respirando, mas os pulmões precisam de suporte. Vamos mantê-lo em incubadora por pelo menos duas semanas, talvez mais. - Uma pausa. - A mãe está estável, mas perdeu muito sangue. Vai precisar de repouso e acompanhamento.
Lorena assentiu.
- Ele estará na UTI neonatal em alguns minutos a senhora poderá vê-lo.
A médica voltou para dentro.
Lorena ficou parada no meio da sala de espera. Destoava de todos os outros - rostos iluminados por aquela mistura de expectativa e felicidade que só uma nova vida sendo esperada parecia capaz de trazer. Já ela… ela sinceramente não sabia o que estava fazendo ali.
Olhou novamente para a tela do celular.
Nenhuma notificação.
O peito teve um sobressalto - um mal pressentimento que ela não conseguia abafar, por mais que tentasse.

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