- Que encontro comovente - Rafael deu um passo à frente, os olhos vidrados, a arma firme na mão. - O bastardo enfim tem pai. Pena que será por pouco tempo. Agora eu vou te mandar pro inferno.
O dedo já pressionava o gatilho.
Dante forçava os dedos nas garras da armadilha, o metal frio cortando a pele, tentando encontrar o mecanismo de abertura. O corpo pendia em um ângulo desconfortável, o tornozelo preso, a terra úmida da mata absorvendo o suor que escorria da testa.
- Baixa a arma.
A voz veio do lado.
Alexandre havia sacado a própria pistola, o braço estendido, o cano apontado para Rafael. O movimento tinha sido rápido, silencioso - o tipo de ação que vem de anos de prática e de instinto. O olhar do pai era firme, sem hesitação.
Rafael virou o rosto lentamente.
- Baixa a arma - repetiu Alexandre, a voz baixa e absolutamente sólida. - Agora.
Rafael o avaliou com os olhos semicerrados, como se estivesse medindo um adversário que não esperava encontrar. Depois, devagar, um sorriso torto começou a florescer em seu rosto daqueles que não têm nada de bom.
- Olha se não é o pai do ano - disse, a arma ainda apontada para Dante, o pulso firme, a intenção clara. - Saiu do esgoto pra aparecer. Que bonito.
- Eu não vou repetir - Alexandre disse, simples. - Última chance.
O sorriso de Rafael ficou mais torto, mais largo.
- Pai e filho juntos - ele moveu a arma levemente, oscilando entre os dois alvos, como se estivesse apreciando a própria generosidade. - Que família bonita. Quase me emociono.
- Baixa a arma, Rafael - Alexandre repetiu, sem mover um músculo, o cano da pistola perfeitamente alinhado com o peito do inimigo. - Você está encurralado. Os homens estão chegando. Isso acaba aqui de um jeito ou de outro - você escolhe qual.
Rafael não respondeu.
O olhar dele mudou não tinha mais hesitação. Era o escuro absoluto, o mesmo que Lorena havia descrito, o mesmo que fazia qualquer um recuar. O sorriso sumiu.
- Eu já escolhi.
O dedo se moveu.
Alexandre viu antes de processar o ângulo do cano, a direção, o fato de que Dante ainda estava no chão, preso na armadilha, sem posição de defesa, sem ter como recuar.
Essa foi a primeira vez que ouviu o filho chamando de pai.
Se a situação fosse outra, se o chão não estivesse manchado de vermelho, se a dor não estivesse crescendo a cada respiração, aquela palavra teria preenchido tudo. Mas naquele momento Alexandre ainda tinha a arma, mesmo que o braço já não obedecesse como devia.
Passos.
Rafael se aproximou devagar.
Não tinha pressa. Tinha a calma de quem sabe que o controle é seu e não há mais ninguém para mudar isso. Parou a menos de dois metros dos dois caídos, a arma baixa por um momento, o olhar percorrendo a cena com satisfação pura.
- Olha que bonito - disse, a voz quase suave, quase doce. - O bastardo finalmente tem um pai.
Ele levantou a arma devagar. A pontaria foi ajustada com calma, como se estivesse mirando em algo que não oferecia perigo.
- Eu não sou tão mal - a expressão nos olhos arregalados de Rafael era de puro êxtase. - Vou mandar os dois juntos pro inferno.
O dedo voltou ao gatilho.

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