O carro cortava a noite, os faróis rasgando a escuridão da avenida quase deserta. A cidade parecia distante, como se tudo ao redor tivesse sido reduzido a sombras e luzes borradas que passavam rápido demais para serem reconhecidas.
Desde que saíram do restaurante, Dante não olhou para trás. Não comentou nada. Não explicou. Apenas entrou no carro, pegou o telefone e mergulhou em um estado que Clara ainda não tinha visto de perto - aquele tipo de foco absoluto que exclui todo o resto.
- O que temos? - perguntou, a voz controlada, baixa, mas precisa.
O laptop já estava aberto sobre os joelhos, a tela iluminando parcialmente o rosto dele. Os dedos se moviam rápidos, abrindo relatórios, acessando sistemas, cruzando dados com uma agilidade que não deixava espaço para erro.
Do outro lado da linha, a voz do diretor de segurança da Nexus Tech veio clara, mas havia algo ali que não combinava com a função.
Preocupação.
- O vazamento foi total, chefe. O projeto inteiro. Seis meses de trabalho… todas as camadas de desenvolvimento, os algoritmos proprietários… tudo.
Dante não respondeu de imediato. Os dedos pararam sobre o teclado, suspensos no ar por um breve segundo - um intervalo quase imperceptível, mas suficiente para marcar a gravidade do que estava sendo dito. Seis meses. Ele sabia exatamente o que aquilo significava.
Quarenta pessoas dedicadas, horas incontáveis, testes, ajustes, falhas corrigidas, avanços conquistados centímetro por centímetro.
Não era apenas um projeto. Era uma vantagem estratégica. E agora… estava exposto.
- Como? - a palavra saiu baixa, controlada, mas havia algo nela. Um corte. - Como isso aconteceu?
Clara observava em silêncio, fascinada pela forma como ele mantinha o controle. Ela já tinha visto executivos lidarem com crises, reuniões tensas, decisões difíceis sendo tomadas em segundos.
Aquele era o homem que ela queria conquistar - frio, estratégico e implacável.
O diretor hesitou. E hesitação, naquele momento, era a pior resposta possível.
- Não foi uma invasão externa, chefe.
O ar dentro do carro mudou. Não foi algo visível. Ninguém falou. Nada aconteceu de forma explícita. Mas Clara sentiu na forma como Dante ficou completamente imóvel, na forma como os dedos não voltaram a se mover, na forma como o silêncio se aprofundou.
- Alguém de dentro - ele disse, completando o pensamento. Não havia surpresa na voz. Apenas confirmação.
Dante respirou fundo. Uma única vez. Controlada. Calculada. E então a mente voltou a funcionar - rápida, precisa, implacável.
Ele já organizava os próximos passos. Isolamento de sistemas. Bloqueio de acessos. Auditoria completa. Controle de danos.
Cada movimento sendo alinhado antes mesmo de ser executado. O corpo acompanhava o raciocínio. Os dedos voltaram ao teclado. As linhas de texto começaram a surgir na tela - diretas, objetivas, estratégicas. A máscara estava no lugar.
- Identificaram a matrícula? - perguntou. Profissional. Distante. Quase frio.
- Sim, chefe. Alguém tentou mascarar, apagou quase todos os vestígios… mas encontramos um ponto de acesso que não foi completamente apagado.


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