Lorena continuou andando mesmo quando o corpo começou a falhar.
A adrenalina foi embora de uma vez, como uma onda que recua e deixa apenas destroços.
O cansaço chegou primeiro - não aquele cansaço comum, de fim de dia, mas algo mais profundo. Um peso que parecia vir dos ossos, que se alojava nos músculos e os tornava estranhos, como se não pertencessem mais a ela.
Depois veio a dor no estômago.
Não a dor familiar dos últimos dias, aquela que ela já aprendera a ignorar. Era diferente. Mais aguda. Mais funda. Como se o corpo estivesse dizendo: chega. Não aguento mais.
A tontura veio em ondas.
Cada passo fazia o mundo balançar. As luzes da cidade se alongavam, borravam, multiplicavam. Ela precisou pisar mais devagar, forçando os olhos a focar em pontos fixos - uma placa, uma árvore, o capô de um carro estacionado - para não cair.
Mas não parou.
Não ainda.
Os homens tinham ficado para trás. O carro que ficou entre ela e eles - aquele carro - havia criado uma barreira de metal e luz que os impediu de continuar. Ela não viu quem estava dirigindo. Não perguntou. Só correu.
O dinheiro estava escondido por dentro da roupa, pressionando sua pele. A lembrança do beco, das vozes, do olhar daqueles homens ainda fazia suas mãos tremerem.
Ela só desacelerou quando avistou um ponto de táxi, iluminado, com dois carros parados e gente por perto. A segurança relativa daquele lugar fez suas pernas quase cederem.
Lorena respirou fundo.
Pegou o celular por instinto e pensou em procurar um hotel. Um lugar barato, só para dormir algumas horas.
A ideia morreu antes de se formar por completo.
Ele sempre soube antes.
A certeza veio clara, fria. Rafael tinha acesso a tudo. Localização. Movimentos.
Sem pensar duas vezes, Lorena desligou o telefone.
Entrou no táxi.
- Um hotel - pediu ao motorista, a voz baixa, cansada. - Não muito caro. Aqui pelo centro mesmo.
O carro arrancou.
Ela encostou a cabeça no vidro, fechou os olhos por um segundo e deixou o corpo existir daquele jeito - doendo, exausto.
***
A loja de penhores estava fechada quando Rafael chegou.
Lá dentro, as luzes ainda acesas revelavam três homens ajoelhados no chão. Os dois que haviam seguido Lorena. E o dono da loja, pálido, tremendo, o rosto já marcado.
Rafael entrou sem dizer uma palavra.
Um dos seus homens se aproximou.
- A senhora vendeu o anel aqui. Em dinheiro vivo. O velho mandou esses dois irem atrás pra recuperar a grana.
Rafael olhou para o balcão o anel de diamantes que ele mesmo havia desenhado.
- E ela? - perguntou, a voz baixa demais.
- Fugiu. - O homem engoliu em seco. - Quando tentamos cercá-la, um carro entrou no meio. A perdemos.

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