O olhar de Milton voltou a pousar em Helen.
Os olhos dele estavam complexos, atravessados por uma ternura profunda e dolorida.
Ele soltou um suspiro baixo. "Helen, a verdade é que você foi o maior presente que Victoria teve na vida."
Helen congelou por um instante.
Ela ergueu a cabeça e olhou para Milton.
Eu... fui o maior presente da Vovó?
"Naquela época, Sienna não suportava o fato de você ser menina, então te largou no interior e deixou sua avó te criar.
"Quando Sienna te abandonou lá, você era só um tiquinho assim." Milton afastou as mãos para mostrar o tamanho. "O plano da sua avó era deixar você crescer como uma pessoa comum, em segurança, casar com um bom homem e viver uma vida normal. Desde o primeiro dia, ela não tinha a menor intenção de deixar você se enroscar em qualquer segredo que ela guardava.
"Mas... esse QI assustador, esse talento natural, essa capacidade absurda de aprender qualquer coisa. Você era uma prodígio, uma aberração.
"Um dom desses não dá para esconder.
"Quando você ainda era pequena, já começava a se esgueirar para o laboratório escondido no porão, usando aqueles equipamentos de precisão para recriar experimentos de reconstrução insanamente complexos, detalhe por detalhe.
"Quantos anos você tinha? Quatro? Cinco?"
Helen se lembrava.
Os frascos e potes no porão, os líquidos e pós estranhos, os equipamentos empilhados pelo cômodo.
Naquela época, ela achava que eram brinquedos da avó.
Ela tinha visto a avó usar tudo aquilo uma única vez e memorizado cada passo.
Depois disso, a avó parou de esconder e começou a levá-la ao laboratório todas as vezes.
A avó fazia uma vez.
Depois deixava Helen fazer.
E então explicava como cada equipamento funcionava, o que era cada líquido, o que era cada pó, o que havia em todos aqueles frascos e potes, e qual era o objetivo de cada experimento.
Milton suspirou. "Sua avó conhecia o ditado de que a árvore mais alta da floresta é a primeira a pegar vento. Um talento monstruoso como o seu não tinha como ficar escondido. Mais cedo ou mais tarde... a Noctis ia bater à porta.
"E, no instante em que batessem, uma criança criada numa bolha seria só mais um corpo no cepo."
Assim como... as pessoas do Laboratório Nacional trinta anos atrás.
Massacradas pela Noctis.
Se Victoria... não tivesse fugido naquela época.
Se ela tivesse se recusado a ser usada, também não teria saído viva.
As lágrimas caíram em silêncio e respingaram na caixa.
Esse tempo todo, cada golpe de sorte que ela achou que tinha encontrado, cada oportunidade que pensou ter caído no colo, a avó tinha comprado e pago por tudo.
Ela tinha as habilidades agora, e tinha se tornado o Rei Demônio que todos temiam.
Tudo isso, a avó tinha aberto caminho para ela com sangue e osso.
A garganta de Helen se apertou, e sua voz tremeu forte. "Se... se a Vovó ficou fora do radar todos esses anos e a Noctis nunca soube dela, então quatro anos atrás... por que os órgãos dela falharam de repente daquele jeito? Por que você, por que eu... não conseguimos salvá-la?"
Milton ficou em silêncio por um longo tempo.
Uma fúria pura atravessou o rosto envelhecido dele, misturada a algo sombrio e amargamente irônico.
"Sua avó não foi descoberta porque a Noctis era poderosa demais.
"Quando a gente some do mapa, ninguém nos encontra a menos que a gente queira ser encontrado... ninguém.
"Foi aquele seu pai adotivo idiota, aquele desgraçado ganancioso, que matou a Victoria!"
A voz de Milton estava grossa de raiva crua, rangendo os dentes.
Os olhos de Helen se estreitaram, e um frio se infiltrou no olhar dela. "O que você quer dizer?"

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Expulsa, desbloqueei meu modo chefe supremo