Eduardo
Deixo Leonardo dormindo e sigo para o restaurante do Bonavalle, engolindo meu orgulho a cada passo. Sem contar as lembranças que o lugar remete. Sem pensar muito, entro e me dirijo diretamente à recepcionista.
— Gostaria de falar com o Chef. — A minha voz carrega uma urgência que eu não consigo disfarçar.
Ela me observa com um olhar de avaliação.
— Tem reserva? — Pergunta, com uma pitada de formalidade.
— Não vou jantar, só quero ter umas palavrinhas com ele. — Respondo, tentando manter a calma, mas a impaciência me trai.
— Qual seu nome? — Ela pergunta me encarando.
— Eduardo Hoork. — Digo a olhando intensamente, para que ela se toque e o chame logo.
— Claro, vou verificar se ele pode atendê-lo.
Alguns minutos se arrastam, e então Matteo aparece, seu semblante carregado de um tipo de seriedade que só aumenta meu desconforto.
— Não sei onde Stella está. — Ele começa, antes mesmo que eu possa abrir a boca.
Sinto um peso no peito. Se Matteo não sabe, então minha última esperança se desvanece.
— Você era minha última esperança. Já que ajudou a Stella no hospital, pensei que pudesse saber de algo. — A decepção é evidente em minha voz.
— Sim, eu a vi, mas ela partiu sem me dar qualquer explicação. Sinto muito, Hoork. — Ele diz, a expressão de pesar em seu rosto.
Não consigo encontrar palavras. Um silêncio doloroso paira entre nós. Sem um adeus, sem um agradecimento, dou as costas e saio do restaurante. Caminho sem rumo, parando no primeiro bar que encontro. A bebida se torna meu único consolo enquanto a noite se arrasta até o amanhecer, e com cada gole, a frustração e a dúvida se misturam, tornando o futuro um mistério ainda mais sombrio.
…
Dois meses se passaram…
Estou no escritório, tentando me concentrar nos contratos e planilhas à minha frente. Emma está ocupada com o curso de secretariado que estou pagando para ela. O celular toca, e sem olhar quem está chamando, atendo.
— Fala comigo.
— Senhor Hoork, eu descobri. — A voz de Buick é carregada de uma alegria e um mistério que imediatamente chama minha atenção.
O mundo parece parar por um momento. Se ele descobriu, pode ser que finalmente eu encontre Stella.
Os dias passaram rápidos, virando semanas, meses, hoje completa dois meses e três dias que estou na França, a saudade é estrondosa, a dor avassaladora, as dúvidas gigantescas, o futuro incerto, o passado doloroso.
Estou aqui olhando para o céu escuro da noite. Hoje parece ter mais estrelas, um espetáculo de luzes que parece zombar da minha escuridão interna. A brisa fria acaricia meu rosto, mas a dor dentro chega a congelar. Minhas lágrimas têm vida própria, transbordando a todo momento, enquanto meu coração chora em silêncio, perdido entre os destroços de um coração partido.
Acabei de arrumar as coisas que comprei para mim e algumas para os bebês. Cada peça de roupa, cada fralda, cada pequena chupeta parece carregar o peso do mundo. A descoberta de que estou grávida de trigêmeos me encheu de alegria, mas, ao mesmo tempo, sinto o peso da dor de estar longe de quem amo.
Sentei-me no sofá, acariciando minha barriga, já dá para vê-la de longe.
“Vocês são minha força”, sussurro, tentando acreditar nas minhas próprias palavras. Mas a dúvida de sempre me corrói. Eduardo deveria saber? Ele tem o direito de saber?
Eduardo, com seu sorriso encantador e suas promessas, que se desvaneceram como fumaça ao vento quando mais preciso. Confiar nele novamente é como andar sobre gelo fino, cada passo pode ser o último antes de um mergulho gelado no mar das decepções.
Penso em todas as noites que passei chorando e em como ele não estava lá para segurar minha mão. Tenho total ciência de que, de certa forma, isso também foi minha culpa, pois estar sozinha foi minha escolha. Recordo a primeira semana que passei na França, enfrentando a gravidez sozinha, lidando com os desafios matinais e o medo do desconhecido. Cada momento de solidão reforça a ideia de que talvez seja melhor seguir sozinha. No entanto, me pergunto se é justo privar nossos filhos da presença do pai.
O dilema me deixa acordada durante a noite. O orgulho e o medo de sofrer novamente me dizem para seguir em frente sem ele. Mas a esperança, aquela teimosa chama que nunca se apaga completamente, sussurra que talvez eu tenha entendido errado, como Matteo e Léo insistem em dizer, e que ele mereça uma segunda chance.
A lua cheia ilumina a sala através da janela, lançando sombras longas e dramáticas pelo cômodo que, ao mesmo tempo, está frio e aconchegante. Fecho os olhos e tento imaginar um futuro, qualquer futuro, onde a dor se transforma em felicidade, onde a incerteza dê lugar à certeza. Mas tudo parece tão distante, tão ilusório.
Acabo adormecendo na poltrona, acordando dolorida, hoje tenho mais uma consulta, talvez já serei liberada para trabalhar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Laços do Coração.A babá do Destino.