PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Senti a dor na palma da minha mão antes de perceber que tinha dado um tapa no Kieran.
A cabeça dele virou para o lado e, por um instante, nenhum de nós se mexeu. Eu, surpresa que meu ex-marido tinha tentado me beijar; ele, chocado que eu tinha ousado dar um tapa nele. Como isso podia estar acontecendo depois que já estávamos divorciados?
Minha respiração ficou pesada enquanto eu apoiava minha mão no peito dele e o empurrava para longe. Ele não se moveu, mantendo firmes os braços que me prendiam contra os armários, seu corpo emanando calor como uma fornalha. O cheiro dele, uma mistura de cedro e algo mais denso, selvagem, inundava meus sentidos, dificultando a formulação de pensamentos claros.
"Você ficou louco?", eu sibilei, meu coração batendo descontroladamente no peito.
Em todos os anos que o Kieran e eu estivemos casados, ele nunca me beijou—pelo menos não nos lábios. Quando fazíamos sexo, era um ato frio, funcional, uma forma do Kieran satisfazer as próprias necessidades. Se os lábios dele tocavam o meu corpo, era no pescoço ou nos seios, nunca foi algo tão íntimo como me beijar na boca.
Então, o que diabo era isso?
"Você bateu a cabeça?" Eu o empurrei novamente, mas ele estava imóvel, seus olhos escuros cravando-se nos meus. Sob minha palma, o coração dele parecia disparado e tão descontroladamente quanto o meu.
"Deixa eu te lembrar de duas coisas: uma, estamos divorciados; duas, sua preciosa Celeste está logo ali fora!"
Isso finalmente rompeu o surto que tomou conta dele.
Kieran recuou como se minhas palavras o tivessem ferido e cerrou a mandíbula com força. Por um momento, ele apenas me encarou com uma expressão indecifrável. Então, sem dizer uma palavra, ele se virou e foi embora.
Fiquei ali muito tempo depois que a porta se fechou atrás dele, com a respiração irregular e a pele ainda formigando onde ele havia me tocado. Um calor traiçoeiro se formou no meu estômago, algo que eu me recusava a aceitar.
Um pensamento me azedou: "Ele voltou para ela".
Não conseguia esquecer a cena de ainda a pouco, a Celeste grudada nele como se aquele fosse o seu lugar, o lugar da Luna perfeita, da companheira perfeita.
Vesti minha camiseta novamente, mas minha pele ainda estava vibrando. Nem cogitei em tomar banho no vestiário, não com eles a poucos cômodos de distância. Precisava de ar. Espaço. Distância.
Quando voltei para o saguão, Lucian estava se aproximando com duas garrafas de água nas mãos.
"Toma." Ele me ofereceu uma com aquela mão firme.
"Obrigada." Nossos dedos se tocaram por um instante e me lembrei das palavras dele mais cedo: " Tenho planos de cortejá-la."
Afastei esse pensamento. O Lucian era um protetor e provavelmente tinha dito aquilo apenas para aliviar a tensão. E funcionou.
Mas, enquanto eu girava a tampa da garrafa, não conseguia me livrar da sensação de que algo tinha mudado.
"Você tá bem?" Lucian perguntou, olhando para a porta do vestiário. "Achei que você ia tomar um banho."
Tomei um grande gole de água, desejando que o líquido frio me acalmasse, e limpei a boca com as costas da mão quando terminei.
"Vou tomar em casa," disse, evitando explicar o motivo.
Ele apertou os lábios e achei que fosse protestar, mas apenas assentiu.
"Tudo bem, posso te levar se você quiser."
Balancei a cabeça, sorrindo. "Eu dirigi até aqui, lembra?"
Ele deu uma risadinha um pouco envergonhado. "Claro. Bom, se precisar de qualquer coisa, Sera, qualquer coisa mesmo, não hesite em me procurar. Pode contar comigo."
Meu peito aqueceu. Quando foi a última vez que pude contar com alguém, como o Lucian estava sugerindo?
"Vou me lembrar disso. Obrigada, Lucian," eu disse.
Ele sorriu radiante. "Tô ansioso pro nosso próximo treino."
Gemi de dor e meu corpo inteiro protestou comigo. "Me mata agora mesmo."
Lucian riu. "Isso iria contra o nosso objetivo, não acha?"
***
Não me permiti pensar no que aconteceu no vestiário até chegar em casa. Mas, assim que entrei debaixo do chuveiro, enquanto a água quente massageava meus músculos doloridos, não consegui mais afastar as memórias.
Kieran nunca havia demonstrado ciúmes ou possessividade, pelo menos não quando se tratava de mim. De qualquer forma, não é como se eu tivesse recebido muita atenção masculina na década em que fomos casados.
Ele sempre foi... calmo comigo, mesmo quando fazíamos sexo. Eu sabia que todas as emoções extremas dele, do amor apaixonado ao ciúmes fervoroso, estavam reservadas para a Celeste.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei