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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 14

PERSPECTIVA DO KIERAN

Observei a Sera como um falcão.

Fiquei olhando o movimento constante do subir e descer do peito dela, como se aquilo guardasse os segredos do universo.

Mesmo agora, com ela acordada e se recuperando, a imagem dela sangrando naquela ponte passava por trás das minhas pálpebras sempre que eu as fechava. Estive muito perto de perdê-la. De novo.

Nossas mãos estavam entrelaçadas sobre o cobertor do hospital. Quando foi a última vez que nos tocamos assim? Não durante o divórcio, nem durante nosso casamento. Alguma vez fizemos isso?

Meu telefone vibrou no bolso e eu o peguei com a outra mão, sem querer soltar a mão da Sera.

"Margaret." Minha voz soou rouca até para mim. "Eu estava prestes a te ligar."

A voz dela estava trêmula de ansiedade quando disse: "Aconteceu alguma coisa? Ela tá bem? Ela tá...?"

"Ela acordou." Cortei o pânico antes que saísse do controle. Margaret tinha sido um fantasma pelos corredores do hospital desde o tiroteio, como outra vítima desse pesadelo. Primeiro o Edward, agora a Sera. A dor estava cravada nela como uma segunda pele.

Ela implorou para ficar com a Sera no meu lugar, mas eu recusei. Não só porque a Margaret mal conseguia se manter de pé, mas também porque a ideia de me afastar fazia meu lobo rosnar.

"Ah, graças aos Deuses," Margaret soluçou, e ouvi um barulho de como se ela tivesse caído em uma cadeira. "Como ela tá?"

"O médico fez uma avaliação inicial e disse que aparentemente tá tudo bem, ela só precisa descansar muito e terá uma longa recuperação pela frente."

"Mas ela vai sobreviver?" A voz da Margaret oscilou, carregada de lágrimas. "Minha filha não vai morrer?"

A ideia da Sera morrer era como uma bala de prata no meu coração.

"Não." Meu polegar roçou os nós dos dedos da Sera. "Ela não vai a lugar algum."

Margaret soltou um suspiro pesado de alívio. Uma pausa. Então, disse, tão baixo que quase não ouvi: "Você... Você acha que ela gostaria de me ver?"

Cerrei os dentes. Nas semanas desde o funeral, Sera fez questão de se afastar da família e não escondeu sua intenção de cortar qualquer vínculo. Mesmo ferida e enfraquecida, ela queria que eu fosse embora, então até podia imaginar a recepção que a Margaret teria.

"Acho que devemos dar um pouco de espaço pra ela agora," eu disse, com cautela. "Espere ela se recuperar totalmente. E você também precisa descansar, Margaret. Você passou por tanta dor em tão pouco tempo..."

Margaret fungou. "Entendo. Obrigada, Kieran. Sei que vocês dois estão divorciados e você não precisava..."

"Ela é a mãe do Daniel." A mentira saiu facilmente. "Divorciados ou não, ela é minha responsabilidade." Pelo menos, era o que eu andava dizendo a mim mesmo.

Assim que desliguei o telefone, o celular da Sera tocou na mesa do quarto e um nome desconhecido apareceu na tela: Elaine.

Atendi com cautela. "Alô?"

Uma voz feminina animada me respondeu: "Como vai a minha escritora favorita? Você me deixou no vácuo por dois dias! Tá com um bloqueio criativo? Seus leitores precisam da sequência! Olha, eu sei que divórcios são complicados e que você deve estar com o emocional em frangalhos, mas lembra que você tá solteira de novo, garota! Vai viver um pouco! Aquele homem nunca te mereceu."

Afastei o telefone do ouvido, franzi a testa ao observar o nome na tela e coloquei o aparelho de volta no rosto. "Senhora, acho que ligou pro número errado."

Houve uma pausa. E então, ela continuou: "Não é o número da Sera?"

"Bom, sim, mas..."

"É a Elaine, a editora dela. Você pode passar o telefone pra Sera?"

Minha testa estava tão franzida que imaginei que estava com uma monocelha. "Editora?"

"Sim, isso mesmo," ela retrucou. "Quem é?"

"Kieran, o mari..." Quase me entreguei. Uma coisa era deixar os funcionários do hospital acreditarem que ainda éramos casados, outra era me apresentar assim. "O ex-marido dela."

O clima ficou mais frio. "Ah. O ex-marido, o divorciado. Por que você tá com o celular dela?"

"Moça, o que você quer dizer com 'editora'?"

Um riso seco. "Ah, que ótimo. Ela disse que você não sabia."

"Sabia do quê?"

"Que sua ex-esposa é uma autora de best-sellers? Que ela vendeu meio milhão de livros no mundo todo sob um pseudônimo?"

Minha boca ficou aberta e eu olhei para a Sera, que dormia tranquilamente, alheia à bomba que acabara de cair no meu colo.

Ela era uma... autora? Que história é essa?

Por vezes, me perguntei por que ela nunca me pedia dinheiro, mas imaginei que ela vivesse com o dinheiro da família Lockwood e nunca me aprofundei no assunto.

Todas aquelas horas que ela passava trancada no quarto...

Ela não estava se escondendo. Ela estava escrevendo, construindo uma carreira.

A voz da Elaine ficou mais afiada. "Agora que matei sua curiosidade, coloque a Sera na linha."

"Ela está... indisponível."

Ela bufou. "Olha pra você." Ela segurou meu rosto, o polegar passando debaixo do meu olho. "Você tá exausto."

Ethan deu um tapinha no meu ombro. "Você deveria ir pra casa, cara. Descansa um pouco, a gente cuida de tudo aqui."

Mas meus pés permaneceram plantados no chão, uma resistência instintiva surgindo no meu peito. Sera e os irmãos nunca foram próximos e, depois de tudo o que tinha acontecido, eu não conseguia deixar de sentir a necessidade de protegê-la da família que tanto a decepcionou.

'Hipócrita', uma voz amarga sussurrou na minha cabeça. 'Você a machucou muito mais do que qualquer um deles.' Ela nem confiou em mim o suficiente para compartilhar seus livros.

"Kieran." Celeste me chamou, retomando minha atenção. "Vá pra casa, por favor. Nós cuidaremos da Sera."

Inegavelmente, o peso do cansaço pressionava sobre mim. "É... Tá bom."

Virei-me para o Ethan. "Não a deixe sozinha. Ainda não sabemos se a ameaça acabou."

Ele me deu um aceno sombrio.

Celeste inclinou meu queixo na direção do rosto dela. "Para de se preocupar. Vai."

Desta vez, acenei com a cabeça.

Então, em uma fração de segundo, a Celeste sorriu, com os olhos fixos nos meus lábios e, antes que pudesse me tocar, eu me movi, fazendo com que os lábios dela fossem pressionados contra o meu queixo.

Forcei um sorriso, tentando disfarçar meu desconforto e a surpresa com a minha própria atitude. Um breve segundo de confusão e mágoa passaram pelos olhos da Celeste, mas ela disfarçou e deu um passo para trás, as mãos finalmente caindo do meu rosto.

"Vai, vai," ela murmurou, tão suave quanto cautelosa.

Assenti e forcei minhas pernas a se moverem para longe da porta do quarto da Sera.

O calor fantasma dos lábios da Celeste ainda queimava a minha pele e eu não conseguia explicar por que me afastei, por que a evitei.

Celeste e eu tínhamos sido carinhosos um com o outro desde que ela voltou, trocando toques provocantes e abraços demorados, mas não tínhamos nos beijado. Nem uma vez. E agora, caminhando pelo estacionamento do hospital, percebi que não tinha sido um acaso.

Não fazia o menor sentido. Passei dez anos ansiando por ela. Então, por que a ideia de beijá-la agora parecia... errada? Parecia que eu não podia avançar. Era como se não tivesse volta, caso eu decidisse por ir adiante.

Mas de onde exatamente vinha essa sensação?

Minha mente voltou para a imagem da Sera no vestiário e lembrei do som da palma da sua mão estalando no meu rosto antes que eu pudesse me aproximar. Naquele momento, eu não hesitei.

Mas com a Celeste...

A compreensão pesou no meu estômago como sushi estragado enquanto eu deslizei para dentro do meu carro, o cheiro metálico do sangue da Sera ainda impregnando o estofado.

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