PERSPECTIVA DO KIERAN
Observei a Sera como um falcão.
Fiquei olhando o movimento constante do subir e descer do peito dela, como se aquilo guardasse os segredos do universo.
Mesmo agora, com ela acordada e se recuperando, a imagem dela sangrando naquela ponte passava por trás das minhas pálpebras sempre que eu as fechava. Estive muito perto de perdê-la. De novo.
Nossas mãos estavam entrelaçadas sobre o cobertor do hospital. Quando foi a última vez que nos tocamos assim? Não durante o divórcio, nem durante nosso casamento. Alguma vez fizemos isso?
Meu telefone vibrou no bolso e eu o peguei com a outra mão, sem querer soltar a mão da Sera.
"Margaret." Minha voz soou rouca até para mim. "Eu estava prestes a te ligar."
A voz dela estava trêmula de ansiedade quando disse: "Aconteceu alguma coisa? Ela tá bem? Ela tá...?"
"Ela acordou." Cortei o pânico antes que saísse do controle. Margaret tinha sido um fantasma pelos corredores do hospital desde o tiroteio, como outra vítima desse pesadelo. Primeiro o Edward, agora a Sera. A dor estava cravada nela como uma segunda pele.
Ela implorou para ficar com a Sera no meu lugar, mas eu recusei. Não só porque a Margaret mal conseguia se manter de pé, mas também porque a ideia de me afastar fazia meu lobo rosnar.
"Ah, graças aos Deuses," Margaret soluçou, e ouvi um barulho de como se ela tivesse caído em uma cadeira. "Como ela tá?"
"O médico fez uma avaliação inicial e disse que aparentemente tá tudo bem, ela só precisa descansar muito e terá uma longa recuperação pela frente."
"Mas ela vai sobreviver?" A voz da Margaret oscilou, carregada de lágrimas. "Minha filha não vai morrer?"
A ideia da Sera morrer era como uma bala de prata no meu coração.
"Não." Meu polegar roçou os nós dos dedos da Sera. "Ela não vai a lugar algum."
Margaret soltou um suspiro pesado de alívio. Uma pausa. Então, disse, tão baixo que quase não ouvi: "Você... Você acha que ela gostaria de me ver?"
Cerrei os dentes. Nas semanas desde o funeral, Sera fez questão de se afastar da família e não escondeu sua intenção de cortar qualquer vínculo. Mesmo ferida e enfraquecida, ela queria que eu fosse embora, então até podia imaginar a recepção que a Margaret teria.
"Acho que devemos dar um pouco de espaço pra ela agora," eu disse, com cautela. "Espere ela se recuperar totalmente. E você também precisa descansar, Margaret. Você passou por tanta dor em tão pouco tempo..."
Margaret fungou. "Entendo. Obrigada, Kieran. Sei que vocês dois estão divorciados e você não precisava..."
"Ela é a mãe do Daniel." A mentira saiu facilmente. "Divorciados ou não, ela é minha responsabilidade." Pelo menos, era o que eu andava dizendo a mim mesmo.
Assim que desliguei o telefone, o celular da Sera tocou na mesa do quarto e um nome desconhecido apareceu na tela: Elaine.
Atendi com cautela. "Alô?"
Uma voz feminina animada me respondeu: "Como vai a minha escritora favorita? Você me deixou no vácuo por dois dias! Tá com um bloqueio criativo? Seus leitores precisam da sequência! Olha, eu sei que divórcios são complicados e que você deve estar com o emocional em frangalhos, mas lembra que você tá solteira de novo, garota! Vai viver um pouco! Aquele homem nunca te mereceu."
Afastei o telefone do ouvido, franzi a testa ao observar o nome na tela e coloquei o aparelho de volta no rosto. "Senhora, acho que ligou pro número errado."
Houve uma pausa. E então, ela continuou: "Não é o número da Sera?"
"Bom, sim, mas..."
"É a Elaine, a editora dela. Você pode passar o telefone pra Sera?"
Minha testa estava tão franzida que imaginei que estava com uma monocelha. "Editora?"
"Sim, isso mesmo," ela retrucou. "Quem é?"
"Kieran, o mari..." Quase me entreguei. Uma coisa era deixar os funcionários do hospital acreditarem que ainda éramos casados, outra era me apresentar assim. "O ex-marido dela."
O clima ficou mais frio. "Ah. O ex-marido, o divorciado. Por que você tá com o celular dela?"
"Moça, o que você quer dizer com 'editora'?"
Um riso seco. "Ah, que ótimo. Ela disse que você não sabia."
"Sabia do quê?"
"Que sua ex-esposa é uma autora de best-sellers? Que ela vendeu meio milhão de livros no mundo todo sob um pseudônimo?"
Minha boca ficou aberta e eu olhei para a Sera, que dormia tranquilamente, alheia à bomba que acabara de cair no meu colo.
Ela era uma... autora? Que história é essa?
Por vezes, me perguntei por que ela nunca me pedia dinheiro, mas imaginei que ela vivesse com o dinheiro da família Lockwood e nunca me aprofundei no assunto.
Todas aquelas horas que ela passava trancada no quarto...
Ela não estava se escondendo. Ela estava escrevendo, construindo uma carreira.
A voz da Elaine ficou mais afiada. "Agora que matei sua curiosidade, coloque a Sera na linha."
"Ela está... indisponível."

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei