PERSPECTIVA DO KIERAN
Alguém bateu na porta antes que a Sera pudesse soltar qualquer veneno que ela tivesse preparado. Ela fechou os olhos e murmurou: "O que é agora?" como se todo mundo, incluindo eu, fosse um grande inconveniente.
"Entre," eu chamei, esperando que quem quer que fosse a incomodasse ainda mais.
A porta se abriu e o Gavin, meu Beta, entrou com toda a sua precisão militar. O olhar dele passou pela mão do Lucian, que ainda segurava a Sera (droga) e pousou em mim como se nada mais importasse.
"Alfa," ele estendeu um envelope marrom fino para mim "aqui estão os resultados da investigação."
As unhas da Sera cravaram nos lençóis. "Cuide dos assuntos da sua Alcateia em outro lugar..."
Não pude resistir e respondi no mesmo tom: "Isso é do seu interesse."
Ela franziu a testa. "O quê?"
Ignorando-a, puxei o único documento do envelope. Gavin começou a explicar enquanto meus olhos percorriam o texto: "Encontramos a cápsula da bala que atingiu a Seraphina."
Ouvi a Sera prender a respiração.
"Como suspeitávamos, tinha as mesmas marcas que encontramos nos corpos dos renegados mortos após o ataque."
"O... que isso significa?" Sera perguntou suavemente.
Virei-me para ela e qualquer compaixão que eu senti antes evaporou ao ver o Lucian ainda segurando a mão dela.
Gavin me olhou, silenciosamente pedindo permissão, e eu assenti. "Significa que os renegados que atacaram durante o sepultamento do seu pai são os mesmos que tentaram te matar com a bala de prata."
"Mas... isso é impossível..." Todo o corpo dela tremia e eu tive que me esforçar para não atravessar a sala e abraçá-la. "Já faz anos que eu não sou uma Lockwood." Suas palavras sussurradas cortaram mais fundo que qualquer lâmina.
"Pode ser que você não carregue mais o sobrenome Lockwood, Sera," eu disse com firmeza na voz, "mas você nunca poderá negar seu sangue."
"Isso não faz sentido." Ela balançou a cabeça, recusando-se a aceitar. "Você tem certeza do que tá falando?" Seus olhos se voltaram para o Gavin. "Mesmo que eles quisessem um Lockwood, por que me escolheriam? Para os Lockwoods, eu sou um ninguém."
"Cápsulas de prata, marcações correspondentes." O tom do Gavin era direto, sem rodeios. Mesmo que a Sera não o conhecesse bem, todos sabiam que o meu Beta não mentia.
"Isso não foi aleatório. Eles estavam te esperando."
Um som que escapou dos lábios dela exprimiu frustração e medo. Todo o meu instinto gritava para encurtar a distância entre nós, puxá-la para o meu peito...
Mas o Lucian se moveu primeiro.
"Vou te manter segura, Sera." A interrupção dele fez minhas presas latejarem. "A SDS tem seguranças de primeira... "
"Nem por cima do meu cadáver." O rosnado escapou antes que eu pudesse impedir. "A mãe do meu filho continuará sob minha proteção."
"É mesmo?" A fachada polida do Lucian finalmente se partiu, revelando um lado afiado. "Então explique por que a Sera está deitada num leito de hospital. De novo."
A acusação no olhar dele acendeu um fogo no meu sangue. Quem ele pensava que era para me julgar?
O ar estalou com o confronto entre dois Alfas e, com um movimento, eu teria avançado para cortar a garganta do Lucian...
"Daniel!" O suspiro da Sera interrompeu nossa disputa e ela cobriu a boca com a mão. Seu olhar se fixou no meu e, pela primeira vez desde que entrei no quarto, seus olhos não tinham apenas desdém e frieza, mas também um medo bruto e primitivo.
"E se eles forem atrás dele? Temos que protegê-lo!"
Por um breve segundo, nossos olhos se encontraram e um entendimento silencioso passou entre nós. Não éramos ex-marido e ex-esposa nem inimigos, apenas dois pais com um único objetivo: proteger nosso filho.
Engoli em seco, ciente de que o que estava por vir quebraria a trégua frágil. "Pedi pros meus pais levarem ele pra... " Minha mandíbula se fechou de imediato para me impedir de revelar a localização da minha ilha particular. Afinal, o Lucian ainda estava no quarto e, por mais que a Sera ficasse à vontade com ele, eu não confiava nem um pouco no sujeito.
"O quê?!" Se não fosse pelas feridas, suspeito que aquela palavra teria sido um grito. Da forma que foi, saiu como um murmúrio rouco que mexeu com os meus instintos.
Suspirei. "É o melhor, Sera. Ele vai estar seguro..."
"Você não vai roubar o meu filho!" O catéter do soro tremia com a fúria dela. "Nosso acordo de custódia foi claro..."
"Isso não é sobre a custódia dele!" Me controlei para não socar a parede. "É sobre manter ele vivo!"
Os olhos dela brilhavam com aquele fogo teimoso que eu conhecia tão bem. "Então vamos protegê-lo juntos. Ele não vai ficar longe de mim."
O bip frenético do monitor sublinhava o que ambos sabíamos: nenhum de nós cederia, não quando se tratava do nosso filho.
"E se o Daniel estivesse com você no parque?" Dei um passo ameaçador à frente e minha voz ganhou um tom perigoso. "Você sobreviveu porque é humana, mas e o nosso filho? Uma única bala de prata..."
Sera prendeu a respiração em um lamento que me cortou como uma garra. Todos os músculos do meu corpo se tensionaram para me impedir de ir até ela, já que os malditos dedos do Lucian tocaram seu rosto, secando a lágrima traidora.
Minhas mãos se fecharam com tanta força que minhas garras perfuraram as palmas e o cheiro metálico do meu próprio sangue se misturou com o cheiro da minha raiva.
"Posso ir com ele?" O sussurro despedaçado dela destruiu o que restava do meu controle.
Sacudi a cabeça com dificuldade, cada movimento uma agonia: "Se você for o alvo principal deles, aonde quer que vá, eles te seguirão, o que coloca o Daniel em perigo."
Um tremor percorreu todo o corpo dela. Eu não precisava do vínculo para sentir sua devastação, ela pulsava no ar entre nós, espessa como sangue. Nossa, como eu desejava tirar essa dor dela, com todas as minhas forças.
Eu deveria ser o único ao lado dela, segurando sua mão, afinal, só eu poderia entender a angústia de estar separado do Daniel, não um estranho engomadinho que nunca passou noites sentindo falta do cheiro do filho.
Ainda mais quando esse estranho era o maldito do Lucian Reed.
***
PONTO DE VISTA DE SERAPHINA
"Tem certeza de que não precisa que eu entre pra te ajudar?", perguntou Lucian, apertando um pouco mais o volante enquanto me observava atentamente.
Balancei a cabeça enquanto soltava o cinto de segurança, tentando não demonstrar a dor quando o movimento pressionou o ponto sensível no meu peito.
"Te agradeço por tudo que você fez, Lucian, mas eu consigo me virar."


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei