PERSPECTIVA DA SERAPHINA
"Então, amor, a questão é..."
"É sobre AS minhas férias?"
Parei, piscando para O Daniel. "O quê?"
Ele deu de ombros. "Não tô indo pra escola há uma semana e o Papai disse que eu ia passar umas férias longas na casa da Vovó e do Vovô."
"Ah..."
A tensão deixou o meu corpo. Fiquei aliviada de não ter que dar aquela notícia ao Daniel, já que não tinha ideia sequer de por onde começar, mas não sabia dizer exatamente como me sentia com relação à atitude do Kieran de contar antes de mim.
"E... tá tudo bem pra você?"
Daniel deu de ombros de um jeito despreocupado que só as crianças conseguem. "Eu tava preocupado em perder aula, mas o Papai disse que vou ter um professor particular, então não vou ficar pra trás quando voltar."
Kieran tinha pensado em tudo. Acho que meus sentimentos estavam se inclinando para gratidão.
Daniel levantou nossas mãos entrelaçadas e as pressionou contra o peito. "Agora que você voltou do seu treinamento..." Sua voz de repente ficou fraca, seus olhos grandes e cheios de esperança. "...você vai comigo?"
Minha garganta se fechou.
Antes que eu pudesse responder, ele continuou, as palavras saindo como ondas: "O Papai disse que é uma ilha particular muito legal. Podemos nadar todos os dias, aprender a surfar, fazer churrasco na praia e..."
"Ah, querido."
Inclinei-me para a frente e beijei a testa dele, respirando fundo para me acalmar. "Você não precisa listar todas essas coisas pra me convencer a ir com você."
"Então..." A voz dele estava tremendo de expectativa. "Você vai comigo?"
Fechei os olhos com força, tentando evitar que as lágrimas caíssem. "Não," respondi com a voz embargada. "Não posso."
Afastei-me a tempo de ver a expressão dele mudar. "Por quê?"
Meu coração se partiu com essa pergunta, mas me esforcei para manter a voz firme, acariciando os cachos rebeldes dele. "Eu preciso treinar mais, meu amor. Pra te proteger."
Ele fungou. "Mas sou eu quem deveria te proteger."
Desabei. Abracei-o apertado, segurando minhas lágrimas antes que elas molhassem seu cabelo.
Forcei um sorriso enquanto segurava o rosto dele novamente. "Eu sei, meu amor. Mas não seria incrível se pudéssemos proteger um ao outro?"
Ele conseguiu esboçar um fraco sorriso, o que considerei como uma vitória. Então, ele olhou para seu prato de arroz frito e fez uma careta.
"Podemos pedir pizza?"
***
O sol começava a tingir o horizonte de dourado quando cheguei ao terminal privativo do Aeroporto de Van Nuys.
A área estava em um ritmo que transparecia ao mesmo tempo eficiência e tranquilidade, com a equipe e a tripulação movimentando-se em torno do grande avião privado do Kieran, na cabeceira da pista particular.
Daniel saiu do carro carregando sua mochila do Homem-Aranha e observou o enorme avião.
"Aquele é um Gulfstream G650," disse ele animado, virando-se para mim enquanto eu pegava sua mala no porta-malas. "O Papai disse que, quando eu crescer, posso aprender a pilotar."
Sorri, acariciando seus cachos rebeldes por um tempo um pouco mais longo do que o habitual: "Você seria um piloto incrível."
Os pneus fizeram um ruído sobre o asfalto. O utilitário esportivo Escalade prata se aproximou do meu sedã desgastado como um predador cercando sua presa. Kieran desceu pela porta do motorista e rapidamente caminhou para abrir a porta do passageiro.
Cerrei os dentes quando a Celeste saltou do carro, jogando um cacho perfeito por sobre o ombro e com metade do rosto escondida por um óculos de sol enorme. Leona e Christian desceram do banco de trás e senti um aperto no peito.
Um homem com uniforme de piloto atravessou a pista em direção ao carro. Kieran acenou rapidamente para ele e o piloto engajou uma conversa com Leona e Christian, deixando Kieran e Celeste livres para virem na nossa direção.
"Como tá o meu garoto?" Kieran disse, com a voz carregada de orgulho, e agachou-se para receber o abraço energético do Daniel,.
"Bem," meu filho murmurou contra o ombro do pai. Quando se separaram, os olhos dele passearam entre mim e o Kieran. "Vocês têm certeza de que nenhum dos dois pode ir comigo?"
Kieran abaixou-se e sussurrou algo no ouvido do Daniel.
O rosto do Daniel se firmou e ele assentiu uma vez: "Entendi."
"Esse é o meu garoto," Kieran disse suavemente, e me perguntei o que ele havia dito ao Daniel.
"Danny!"
A voz açucarada da Celeste fez meus dentes rangerem enquanto ela se aproximava e cravava as unhas perfeitas nos ombros do meu filho. A ameaça dela no hospital ecoou na minha mente: "Vou criá-lo direito. Como meu filho". Precisei de todo o meu autocontrole para não empurrá-la e rosnar para aquela cobra ardilosa.
Seu sorriso estava largo demais. "Você não tá empolgado com a sua aventura?"
Daniel recuou, seu corpinho pressionando-se contra mim. Eu o envolvi protetoramente e meus braços formaram um escudo vivo.
Ele olhou para o Kieran e perguntou friamente: "Ela não vai com a gente, né?"
Um músculo se mexeu no maxilar do Kieran enquanto as orelhas da Celeste ficavam vermelhas.
"Não, meu amor," respondi, pressionando meus lábios em seus cabelos macios. Lancei um olhar na direção da Celeste capaz de derreter aço. "Definitivamente não."
Mais um carro, o Mercedes do Ethan, chegou e parou perto de nós, trazendo familiares que eu não conseguia sequer reconhecer.
'Olhe só pra nós', pensei amargamente, 'Uma família grande e feliz'.
De repente, o avião ganhou vida, os motores zumbindo na quietude das primeiras horas da manhã.
"Tá na hora," Kieran disse com seriedade.
Um pânico ilógico tomou conta de mim.
Mesmo que tivéssemos feito as malas juntos, passado a noite inteira assistindo aos programas favoritos dele e devorando pizza e sorvete até finalmente adormecermos às duas da manhã, parecia que eu não tinha tido tempo suficiente com o meu bebê.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei