PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Por um momento, tudo ficou imóvel. A noite. A minha pulsação. A minha respiração.
Um zumbido agudo encheu os meus ouvidos, abafando todo o resto, exceto as duas palavras que se repetiam incessantemente: o vínculo. O vínculo. O vínculo. O vínculo.
"Dane-se isso."
Virei nos calcanhares, mas dei apenas um passo antes do Kieran me alcançar e segurar o meu pulso, não com força, mas firme o suficiente para me deter.
O contato enviou uma descarga elétrica violenta pelo meu braço, energizando cada célula do meu corpo. Igualzinho no parque. E na Ilha. E no iate. E no acidente de carro. E...
Droga!
"Você sente isso", ele declarou, cada palavra impregnada de desespero. "Sera, me diz que você sente isso."
A raiva voltou com força total, feroz e ardente. Mais forte do que qualquer outra maldita sensação.
"É isso que tá acontecendo?" sussurrei, a raiva fazendo o meu corpo tremer. "Seu arrependimento é o seu lobo te pressionando? Você acha que posso ser a sua companheira, e de repente eu valho o esforço?"
Ele balançou a cabeça, se aproximando, mas eu recuei mesmo com a mão dele ainda ao redor do meu pulso.
Deuses, a sensação era de dar vertigem.
"E o que acontece quando você descobrir que não sou?" exigi saber. "Quando o toque de outra mulher despertar o seu precioso vínculo, vou ser descartada de novo?"
Minha visão ficou um pouco embaçada e eu odiei o tremor na minha voz quando acrescentei: "Você é assim, não é?"
"Sera..."
"Deixe pra lá." Me virei, com a fúria pulsando em cada nervo. "Se essa é a razão por trás do seu arrependimento, é fraca e patética. Seja qual for a epifania que você tá tendo, eu não quero fazer parte dela. E eu não quero o seu arrependimento. Eu. Não. Quero. Você."
Aquela dor estúpida passou pelo rosto dele de novo. "Sei que você pode não acreditar em mim," ele disse, entre dentes cerrados. "Mas, Sera... Seja lá o que for isso, é real. E eu não vou me afastar."
Por um momento, a sinceridade no olhar dele quase desarmou as minhas defesas e eu quase cedi.
Mas, então, as memórias me invadiram vivas e mordazes. Me lembrei de tudo com uma clareza enjoativa: a humilhação daquela manhã após a Caçada da Lua de Sangue, o silêncio gelado do nosso casamento, a finalidade implacável do nosso divórcio.
A dor varreu qualquer fraqueza, solidificando a minha decisão.
Puxei a mão de volta e um frio instantâneo tomou conta de mim. "Você já se afastou, Kieran," eu disse, a voz tão fria quanto eu me sentia. "Você só não esperava que eu também fosse me afastar."
O maxilar dele se apertou. "Sera..."
"Sabe o que eu desejo pra você, Kieran?"
As sobrancelhas dele se juntaram enquanto ele aguardava a resposta.
Me aproximei, chegando perto o suficiente para ouvir o rugido ensurdecedor do coração dele. Ou talvez fosse o meu.
"Desejo que você volte com a Celeste."
Ele congelou, como um cervo diante dos faróis de um carro.
"Desejo que vocês se casem e que tenham muitos, muitos filhos." Cheguei mais perto ainda e levantei o pescoço para que ele pudesse ver o puro desprezo nos meus olhos (pelo menos eu esperava que fosse essa a emoção que eu sentia queimando em mim com intensidade gélida).
"Desejo que você passe o resto da sua vida preso em um casamento sem amor. Desejo que as suas noites sejam frias e vazias. Desejo que você anseie por um amor que nunca terá." Minha garganta apertou, mas me forcei a completar a sentença: "O mesmo amor que você jogou fora."
Não esperei para ver o efeito das minhas palavras. Girei nos calcanhares e subi as escadas. Cada passo parecia uma batalha em meio a uma nevasca e eu estava igualmente anestesiada e em carne viva.
Quando parei na frente da minha porta, as minhas pernas mal conseguiam me sustentar.
"Não venha mais até mim com meias verdades e arrependimentos bonitos," eu disse baixinho.
Não olhei para trás. Não consegui.
"Mesmo que algum destino distorcido e impossível fizesse a própria Deusa da Lua nos unir, isso não mudaria nada. Algumas feridas não foram feitas pra cicatrizar."
Ouvi ele soltar um suspiro, longo e lastimável, enquanto abria e fechava a porta atrás de mim. A porta se fechou como um ponto final pesado que ecoou pelo hall de entrada como um trovão se afastando.
Encostei-me nela, com o coração ainda acelerado e os dedos tremendo levemente enquanto os pressionava contra a madeira fria. Por um longo momento, não me movi. Não respirei. O ar na casa parecia denso demais, cheio de tudo que eu queria ignorar: o cheiro dele, a voz dele, o olhar nos olhos dele quando dizia 'você'.
"Mãe?" A voz do Daniel chegou fraca da cozinha.
"Então você tá dizendo que poderia ser possível." As palavras soavam absurdas saindo da minha boca. "O Kieran realmente pode ser o meu companheiro."
'Ele pode ser,' Alina admitiu após um longo silêncio. 'Mas... isso importa?'
Aquela pergunta me cortou fundo.
Importa. Importa pra caramba. A impotência e a descrença colidiram dentro de mim.
Eu não conseguia imaginar nada mais cruel do que descobrir que a conexão que desejei por toda a minha vida era com a pessoa que mais me causou dor no mundo.
Pressionei uma mão contra o coração, sentindo as batidas frenéticas sob as costelas. Medo e saudade pulsavam em medidas iguais. "Eu não quero que isso importe," disse baixinho. "Não quero nada que me prenda a ele de novo."
'Então não precisa importar,' ela respondeu de maneira simples. 'A Deusa da Lua, em sua infinita sabedoria, pode tecer o véu do destino, mas ela não nos obriga a vesti-lo. Não mais. Você tem o direito de escolher, Sera. Você conquistou isso.'
Lágrimas queimaram atrás dos meus olhos antes que eu pudesse contê-las. "Sofri por dez anos, Alina. Dez anos de falta de amor, sendo invisível, não sendo escolhida. Se isso é destino, então é cruel."
'O destino pode ser cruel,' ela concordou. 'Mas também pode ser reescrito.'
Fechei os olhos, respirando o leve cheiro de açúcar e leite do cereal do Daniel. Eu podia ouvi-lo lá em cima, fazendo barulho. O som da água correndo. Provavelmente estava escovando os dentes, um ritual com o qual ele era estranhamente meticuloso. Dez movimentos para cima e para baixo. Dez movimentos de um lado para o outro. Cinco em cada canto.
Senti o meu corpo relaxar ao pensar no meu filho.
Esse era o meu alicerce. O meu propósito.
Não os arrependimentos do Kieran, nem os laços emaranhados de algum vínculo divino imperfeito.
"Você tem razão," sussurrei. "Mesmo se a própria Deusa da Lua gravasse os nossos nomes nas estrelas, eu ainda diria não."
Alina não discordou. Ela simplesmente cantarolou baixinho, orgulhosa, talvez, ou simplesmente em paz com a minha decisão.
Ainda assim, enquanto caminhava até o quarto do Daniel para dar uma olhada nele, não pude ignorar o leve arrepio de eletricidade sob a minha pele, o eco do toque do Kieran no meu pulso, a fagulha que não deveria estar ali.
Ela pulsava como um coração secreto.
E, por mais que eu tentasse, não conseguia silenciá-lo por completo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...