PERSPECTIVA DO KIERAN
Eu não me movi por muito tempo depois que a porta bateu com força.
O som reverberou pelos meus ossos, ecoando no ritmo do meu coração acelerado.
Fiquei na entrada da casa da Sera com a noite fria e implacável ao meu redor, encarando a porta que me separava de tudo o que eu queria. Tudo o que eu tinha destruído.
Cerrei os punhos, sentindo o Ashar andando inquieto dentro da minha mente. A inquietação dele reverberava por todo o meu corpo e o seu orgulho ferido se retorcia no meu estômago.
'Você tinha uma chance', ele rosnou, baixo e feroz. 'Uma única chance pra consertar as coisas, e você estragou tudo.'
"Eu não estraguei nada," murmurei entre os dentes, mesmo sabendo que, de fato, eu tinha estragado tudo. "Ela só... Ela não acredita em mim."
'Por que ela acreditaria?' A voz do Ashar aumentou para um rugido que vibrava no meu crânio. 'Você a machucou. Diversas vezes. Se recusou a marcá-la, mesmo quando eu te implorei várias vezes. Você foi teimoso. Não quis ouvir. E agora tá surpreso que ela deu as costas para você?'
Trinquei os dentes. "Você acha que eu não sei de tudo isso? Acha que não me sinto péssimo o suficiente sem ouvir você me criticando?"
Ashar não respondeu, mas a sua fúria queimava mais quente e mais pesada.
Meu peito parecia apertado demais para continuar respirando e o pouco ar que entrava nos meus pulmões cheirava a lavanda e arrependimento.
O cheiro dela. A rejeição dela.
Grudado em mim como fumaça, sufocando a razão e alimentando o sentimento que queria se libertar.
Meus dedos se curvaram involuntariamente, cravando as unhas nas palmas das mãos até sangrar. Cada músculo do meu corpo clamava por uma liberação violenta, implorava por destruição, por qualquer coisa brutal o suficiente para abafar o caos martelando dentro do meu crânio.
'Ela se afastou de nós.' O rosnado do Ashar era gutural e áspero. 'Ela se afastou, Kieran.'
"Eu sei," sibilei.
‘Por sua causa!’
“Eu sei!” Gritei.
Mas saber disso não aliviava a pressão, só a intensificava. Meu pulso batia de forma descontrolada, rápido demais, alto demais, como se o meu coração quisesse se despedaçar para escapar da prisão do meu peito.
O mundo ao meu redor, composto por árvores, vento e as luzes fracas das janelas da casa da Sera, se misturava e parecia distorcido pela névoa vermelha que turvava a minha visão.
A energia do Ashar queimava dentro de mim, selvagem e incontrolável. Cada batida do coração dele era uma batida de raiva; cada respiração, uma luta entre restrição e rendição.
Minha mandíbula se travou dolorosamente. “Calma. CARAMBA. Calma,” murmurei com esforço.
Mas o Ashar estava fora de si e as suas emoções eram uma maré violenta me puxando para baixo.
Minha dor era a dor dele, minha tristeza era dele também, só que amplificada, crua, primitiva. Minha pele parecia apertada demais, frágil demais para contê-lo e os meus ossos doíam pelo esforço de mantê-lo dentro de mim.
Finalmente, não suportei mais a prisão da minha forma humana.
A lógica dizia que eu não deveria me transformar em território neutro, muito menos na entrada da casa da Sera. Mas a lógica nunca foi forte o suficiente para conter o Ashar.
O chão tremeu quando a Transformação me atravessou, violenta e irresistível. O som rasgou a noite: ossos quebrando, músculos se esticando, pelo irrompendo da carne.
Por um segundo, achei que ouvi o meu próprio grito ecoar no ar, então o Ashar assumiu completamente o controle e tudo ficou em silêncio, exceto o trovão da sua fúria.
A noite explodiu em cores e cheiros mais vivos. Ashar avançou, enorme e selvagem, um borrão de pelo dourado e olhos de obsidiana.
Ele não hesitou. Ele correu.
A floresta nos acolheu. O nosso santuário, o nosso castigo.
As árvores passavam borradas enquanto rasgávamos por elas, a fúria dele queimando a cada passada. Eu podia sentir nas minhas veias a culpa e os anseios dele.
Uivamos uma vez, alto o bastante para abalar o vale.
O uivo rompeu o silêncio. Soou como fúria e desolação e ecoou pelas montanhas como um trovão reverberando nas pedras.
A raiva do Ashar era um incêndio incontrolável. Ele não estava apenas correndo pela floresta, ele a estava consumindo.
Ele avançava como um furacão, destruindo árvores como se fossem feitas de papel. As suas patas gigantescas golpeavam o solo com força suficiente para rachar raízes. Lasca voaram, cascas eram arrancadas sob as garras dele. O chão da floresta foi se tornando um borrão de folhas esmagadas e terra revirada.
Ele estava fora de controle. Nós estávamos fora de controle.
Quanto mais ele avançava, mais eu reconhecia a terra sob os pés. O cheiro no vento, uma mistura de ferro, pinho e cedro, era inconfundível. Território da NightFang.
Meu estômago gelou. Droga.
Tentei recuperar um pouco do controle, lembrá-lo de que não estávamos sozinhos, que ali não era apenas uma selva qualquer.
Uma coisa era ficar furioso, destruir o meu próprio território era outra.
Mas não era isso o que eu fazia? Destruía coisas que eu deveria proteger?
A voz da Sera ecoou, especificamente aquele insulto doloroso.
‘Você é assim, não é?’
"Ashar, para!" Tentei projetar calma, mas ele não estava ouvindo. Aliás, não estava ouvindo desde o momento em que a Sera fechou aquela porta.
Ele investiu contra um tronco e bateu o ombro com tanta força que um estalo ecoou, ensurdecedor. O som reverberou nas minhas costelas.
Ele arrancou lascas do troco e as suas garras escavaram sulcos profundos na madeira, como se destruí-la pudesse acalmar a dor dentro dele.
‘Ela era nossa!’ ele rugiu na minha mente. ‘Nossa, e você a jogou fora!’
Eu estremeci quando a dor percorreu a nossa espinha compartilhada. Cada músculo doía com a tensão da sua fúria. "Eu não tive a intenção..."
‘Intenção não importa quando o resultado é o mesmo!’
Outra árvore caiu. Pássaros se dispersaram pelo céu noturno, as asas rompendo o silêncio que havíamos destruído. O eco do rosnado do Ashar os seguiu, baixo e gutural, vibrando o ar como o prelúdio de uma tempestade prestes a desabar.
Tentei puxar a ligação que nos conectava, o meu último fio de controle, mas ela se retraiu e se partiu sob a força da raiva dele.
Ele não ia parar. Não até que algo (ou alguém) fizesse com que ele parasse.
‘Precisamos de você, Gavin,’ eu rosnei através do vínculo mental. ‘É urgente.’
Sua resposta foi imediata e senti a pulsação de outra mente tocando a minha.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei