Entrar Via

Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 177

PERSPECTIVA DO GAVIN

Quando finalmente chegamos à enfermaria da Alcateia, a floresta estava sobrenaturalmente quieta, como se a tempestade que a havia devastado nunca tivesse passado por ali. As árvores voltaram a ficar silenciosas, mas o ar ainda carregava o fantasma da violência, da terra devastada, das cascas de árvores lascadas e do sangue. O silêncio depois da destruição.

Estávamos péssimos, esfarrapados, ensanguentados e completamente exaustos, e nos afundamos no banco de pedra no pátio da enfermaria.

A luz da lua iluminava as bordas da pele ferida do Kieran e fazia o suor dele brilhar. Ele não parecia um Alfa naquele momento, apenas um homem despedaçado pelos seus próprios erros.

Peguei uma caixa de primeiros socorros e um conjunto de roupas extras do depósito. Quando voltei, ele não tinha se movido e olhava para o nada, com o queixo cerrado e os olhos vazios.

Ashar havia se retraído profundamente dentro dele, mas a inquietação do lobo não tinha desaparecido, como eu podia sentir fervilhando sob a superfície.

O ar da noite ardia contra os cortes abertos nos meus braços e pernas e o leve sabor metálico do sangue estava grudado na nossa pele. Comecei a limpar os cortes no meu antebraço, o ardor do antisséptico me mantendo focado no presente.

Quando entreguei uma toalhinha com álcool para o Kieran, ele apenas balançou a cabeça, orgulhoso demais ou cansado demais, não tinha certeza de qual, e eu não insisti com ele.

Os nossos lobos iam curar tudo até de manhã e não restariam hematomas, apenas as mais leves cicatrizes. Quase não havia provas do caos que rasgou as montanhas.

Essa era a ironia cruel: o corpo esqueceria o que o coração nunca poderia esquecer.

Por um longo tempo, o único som entre nós era o débil coro dos grilos e das cigarras, uma tentativa frágil da natureza de voltar ao normal.

Eu sabia que não era a hora de romper o silêncio. O Kieran não estava preparado, e pressioná-lo só o empurraria mais fundo naquela espiral.

Levou quase uma eternidade até ele soltar uma longa e pesada respiração que parecia esvaziar algo dentro dele. Ele olhou para as mãos e para o sangue endurecido sobre seus nós dos dedos.

"Terminei com a Celeste," ele disse roucamente.

As palavras pairavam no ar, pesadas e espessas.

Um ‘Parabéns’ quase me escapou, mas mordi a língua na hora certa. Em vez disso, perguntei, em voz baixa: "Por quê?"

Ele balançou a cabeça, com o cabelo úmido de suor grudado nas têmporas. "Não importa." Kieran soltou um suspiro longo e áspero, como se estivesse expulsando veneno dos pulmões. "Eu nunca devia ter ficado com ela pra começo de conversa."

"E... o que a Sera disse sobre a notícia?"

Essa era a verdadeira ferida. Sob o sangue, o suor, o cansaço... o perfume dela permanecia. Lavanda e desilusão.

Kieran ficou tenso instantaneamente e o seu corpo todo se enrijeceu como um arco prestes a soltar a flecha. Eu prendi a respiração, ponderando se tinha energia para enfrentar outra investida do Ashar.

Mas então, ele falou, e reparei que as palavras dele estavam tensas: "Ela... me rejeitou."

Franzi a testa. "Te rejeitou? O que diabos você disse pra ela?"

Ele não levantou o olhar. Seus dedos se contraíam e relaxavam. "Que eu sentia muito. Que queria ela de volta."

"Seu idiota de merda..."

Dessa vez, mordi a língua com força suficiente para sentir o gosto do sangue.

Os ombros dele vibraram com uma risada amarga e sem humor. "Vai, fala. Sou um idiota de merda."

"Coloque-se no lugar dela," eu disse suavemente. "Você passou uma década casado com ela, mas amando a irmã dela. Então, se divorciou dela assim que a tal irmã voltou. Quando o relacionamento não deu certo, correu de volta pra mulher que você magoou justo quando ela estava começando a seguir em frente com a vida dela. O que você esperava, Kieran? Um cartaz de boas-vindas?"

Ele não respondeu, mas o seu silêncio dizia tudo. O grande Alfa da NightFang se curvou sob o peso do próprio remorso.

"Eu estraguei tudo", ele declarou rigidamente.

Sem discordância aqui.

"O que eu faço, Gavin?" A voz dele falhou quase imperceptivelmente, mas foi o suficiente para apertar o meu peito.

Os olhos dele encontraram os meus, vazios com uma dor que parecia ter séculos.

Eu o conhecia desde que éramos crianças e o vi enfrentar lâminas no peito e flechas nas costelas, e ainda assim permanecer firme, mas isso era diferente. Esse era o tipo de ferida que nenhum curandeiro poderia fechar.

Kieran Blackthorne era o Alfa mais forte que eu já conheci, mas ele era absolutamente péssimo quando se tratava de assuntos do coração.

Era um choque de humildade.

Suspirei, esfregando a ponta do nariz. "O que aconteceu, de fato?" Perguntei com cuidado. "Por que a mudança repentina de atitude em relação a ela?"

O maxilar dele se contraiu e o músculo tremeu. "Ela pode ser a minha companheira."

Meus olhos se arregalaram. Ah. Caramba.

"Como... Você tem certeza?"

Ele bufou, esboçando um sorriso quase imperceptível.

"Obrigado," ele disse suavemente, "por ter vindo."

Eu assenti. "Claro."

"E..." Ele lançou um olhar carregado para mim. "Sobre antes... Você sabe que eu nunca..."

Eu assenti com firmeza. "Eu sei."

Ele exalou aliviado.

"Você tá sangrando pelos motivos errados," eu acrescentei.

Ele riu de novo, mas era um som quebrado e cortante. "Tô sangrando porque mereço."

Balancei a cabeça. "Não, você tá sangrando porque tá tentando desfazer dez anos em uma noite. E a cura não funciona assim. Você não pode forçar a redenção."

Os ombros do Kieran cederam, toda a garra se esvaindo dele.

Então, a voz dele saiu fraca, quase estranha: "Então, o que eu faço?"

Estendi a mão e agarrei o ombro dele, firme e estável. "Você luta. Mas, dessa vez, não contra si mesmo. Você luta por ela. Você pega os pedaços com as mesmas mãos que os quebraram, e faz o melhor para juntá-los de novo. Não com punição, mas com paciência."

Ele engoliu em seco. "E se isso não funcionar?"

"Então você respeita a escolha dela," eu disse em um tom baixo. "E aprende a viver com o que resta. Caso contrário, o ciclo de dor nunca vai acabar. A Celeste, a Sera, o Daniel, você mesmo... Você só vai deixar um rastro de sofrimento pelo caminho."

Ficamos um bom tempo em silêncio, enquanto o vento farfalhava as folhas e a lua pairava baixa, pálida e indiferente.

Então, o Kieran soltou um suspiro irregular, mal mais do que um sussurro: "Droga."

Deixei escapar algo entre um suspiro e uma risada. "É, isso resume bem a situação."

E, pela primeira vez, o Alfa da Alcateia NightFang não contestou.

Ele apenas ficou ali, de cabeça baixa e coração partido sob a luz da lua.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei