PERSPECTIVA DO GAVIN
Quando finalmente chegamos à enfermaria da Alcateia, a floresta estava sobrenaturalmente quieta, como se a tempestade que a havia devastado nunca tivesse passado por ali. As árvores voltaram a ficar silenciosas, mas o ar ainda carregava o fantasma da violência, da terra devastada, das cascas de árvores lascadas e do sangue. O silêncio depois da destruição.
Estávamos péssimos, esfarrapados, ensanguentados e completamente exaustos, e nos afundamos no banco de pedra no pátio da enfermaria.
A luz da lua iluminava as bordas da pele ferida do Kieran e fazia o suor dele brilhar. Ele não parecia um Alfa naquele momento, apenas um homem despedaçado pelos seus próprios erros.
Peguei uma caixa de primeiros socorros e um conjunto de roupas extras do depósito. Quando voltei, ele não tinha se movido e olhava para o nada, com o queixo cerrado e os olhos vazios.
Ashar havia se retraído profundamente dentro dele, mas a inquietação do lobo não tinha desaparecido, como eu podia sentir fervilhando sob a superfície.
O ar da noite ardia contra os cortes abertos nos meus braços e pernas e o leve sabor metálico do sangue estava grudado na nossa pele. Comecei a limpar os cortes no meu antebraço, o ardor do antisséptico me mantendo focado no presente.
Quando entreguei uma toalhinha com álcool para o Kieran, ele apenas balançou a cabeça, orgulhoso demais ou cansado demais, não tinha certeza de qual, e eu não insisti com ele.
Os nossos lobos iam curar tudo até de manhã e não restariam hematomas, apenas as mais leves cicatrizes. Quase não havia provas do caos que rasgou as montanhas.
Essa era a ironia cruel: o corpo esqueceria o que o coração nunca poderia esquecer.
Por um longo tempo, o único som entre nós era o débil coro dos grilos e das cigarras, uma tentativa frágil da natureza de voltar ao normal.
Eu sabia que não era a hora de romper o silêncio. O Kieran não estava preparado, e pressioná-lo só o empurraria mais fundo naquela espiral.
Levou quase uma eternidade até ele soltar uma longa e pesada respiração que parecia esvaziar algo dentro dele. Ele olhou para as mãos e para o sangue endurecido sobre seus nós dos dedos.
"Terminei com a Celeste," ele disse roucamente.
As palavras pairavam no ar, pesadas e espessas.
Um ‘Parabéns’ quase me escapou, mas mordi a língua na hora certa. Em vez disso, perguntei, em voz baixa: "Por quê?"
Ele balançou a cabeça, com o cabelo úmido de suor grudado nas têmporas. "Não importa." Kieran soltou um suspiro longo e áspero, como se estivesse expulsando veneno dos pulmões. "Eu nunca devia ter ficado com ela pra começo de conversa."
"E... o que a Sera disse sobre a notícia?"
Essa era a verdadeira ferida. Sob o sangue, o suor, o cansaço... o perfume dela permanecia. Lavanda e desilusão.
Kieran ficou tenso instantaneamente e o seu corpo todo se enrijeceu como um arco prestes a soltar a flecha. Eu prendi a respiração, ponderando se tinha energia para enfrentar outra investida do Ashar.
Mas então, ele falou, e reparei que as palavras dele estavam tensas: "Ela... me rejeitou."
Franzi a testa. "Te rejeitou? O que diabos você disse pra ela?"
Ele não levantou o olhar. Seus dedos se contraíam e relaxavam. "Que eu sentia muito. Que queria ela de volta."
"Seu idiota de merda..."
Dessa vez, mordi a língua com força suficiente para sentir o gosto do sangue.
Os ombros dele vibraram com uma risada amarga e sem humor. "Vai, fala. Sou um idiota de merda."
"Coloque-se no lugar dela," eu disse suavemente. "Você passou uma década casado com ela, mas amando a irmã dela. Então, se divorciou dela assim que a tal irmã voltou. Quando o relacionamento não deu certo, correu de volta pra mulher que você magoou justo quando ela estava começando a seguir em frente com a vida dela. O que você esperava, Kieran? Um cartaz de boas-vindas?"
Ele não respondeu, mas o seu silêncio dizia tudo. O grande Alfa da NightFang se curvou sob o peso do próprio remorso.
"Eu estraguei tudo", ele declarou rigidamente.
Sem discordância aqui.
"O que eu faço, Gavin?" A voz dele falhou quase imperceptivelmente, mas foi o suficiente para apertar o meu peito.
Os olhos dele encontraram os meus, vazios com uma dor que parecia ter séculos.
Eu o conhecia desde que éramos crianças e o vi enfrentar lâminas no peito e flechas nas costelas, e ainda assim permanecer firme, mas isso era diferente. Esse era o tipo de ferida que nenhum curandeiro poderia fechar.
Kieran Blackthorne era o Alfa mais forte que eu já conheci, mas ele era absolutamente péssimo quando se tratava de assuntos do coração.
Era um choque de humildade.
Suspirei, esfregando a ponta do nariz. "O que aconteceu, de fato?" Perguntei com cuidado. "Por que a mudança repentina de atitude em relação a ela?"
O maxilar dele se contraiu e o músculo tremeu. "Ela pode ser a minha companheira."
Meus olhos se arregalaram. Ah. Caramba.
"Como... Você tem certeza?"

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei