PERSPECTIVA DO KIERAN
Eu não esperava que o Daniel me excluísse por completo.
Três chamadas ignoradas. Doze mensagens deixadas sem resposta. Cada tentativa não correspondida doía mais fundo no meu peito. Sentia a distância como uma dor física fria, cortante, brutal.
Sempre me considerei um bom pai, presente e dedicado. Mas, agora, eu já não tinha tanta certeza.
'Ele disse que nunca mais vai confiar em você .'
As palavras da Sera me assombravam, afiadas e implacáveis, e a pior parte é que eram verdadeiras. Eu tinha destruído a frágil confiança de uma criança como se fosse descartável.
Quando o telefone finalmente tocou, a voz da minha mãe não soou com o seu calor habitual. "Seu filho chorou até dormir, agarrado ao robô que queria te mostrar."
Estremeci. "Você tá falando que nem a Sera."
"Ainda bem," ela sibilou. "Aquela garota devia te dar uma bela bronca pelo que você fez."
Se eu precisava de mais provas de que tinha fracassado monumentalmente, aí estavam.
Minha mãe havia passado uma década afiando seu desprezo pela Sera. Quando até a maior inimiga da Sera ficava do lado dela, eu não tinha apenas falhado como pai.
Eu me tornara a própria fraqueza que passei a vida desprezando: um covarde por trás de suas desculpas.
Minha justificativa para ter decepcionado o meu filho era no máximo frágil e no mínimo absolutamente ridícula.
Eu estava com a Celeste e esqueci as responsabilidades da minha vida como um adolescente sem lobo frontal totalmente desenvolvido.
Eu estava desesperado para consertar o que tinha destruído entre nós e provar que ainda podia ser o homem que ela um dia desejou. Então, quando ela implorou para que eu a levasse ao Parque Temático Six Flags Magic Mountain, eu fui como um cachorrinho obediente, em vez de ser o Alfa que deveria ser.
Quando ela arrancou meu celular e o guardou na bolsa, eu não discuti. "Sem distrações, Kieran. Só nós dois."
E, quando finalmente me dei conta da hora, quando ela fez beicinho e pediu para eu levá-la para casa antes de correr para a escola do Daniel, eu concordei, sem pensar.
Sera estava certa. Eu escolhi a Celeste em vez do Daniel.
Passei de péssimo ex-marido para péssimo pai.
Esqueci do que deveria estar gravado nas minhas entranhas: o meu filho. Meu menino brilhante e de coração bom que ainda me olhava como se eu fosse a lua, mesmo quando eu não merecia um pingo da sua confiança. E eu o magoei e o fiz chorar.
O desprezo por mim mesmo me envolveu como o cheiro do sangue após uma caçada.
Depois de uma eternidade ouvindo a bronca da minha mãe: "Você tem sorte de ele ainda estar disposto a falar com você", ela finalmente cedeu e fez o papel de mediadora, convencendo o Daniel a me dar uma última chance.
Agarrei essa oportunidade como um homem se agarra a um pedaço de madeira à deriva no mar.
Então, a tela piscou e, no momento que vi o rosto dele, foi como se tivesse levado uma bolada no peito.
"Danny," eu suspirei, passando a mão pelo rosto.
Ele não olhava para mim. Seu olhar estava fixo acima meu ombro, no quadro da cadeia de montanhas que ele sempre adorou e que estava pendurado atrás de mim.
"Oi." Frio. Vazio.
Meu peito se apertou. Ele costumava se iluminar quando me via. Agora, eu tinha apagado toda essa luz.
Engoli em seco. "Cara, me desculpa demais. Você não faz ideia de quanto..."
"Foi por causa da Celeste?" Sua voz era aguda demais para um garoto de nove anos.
Senti um frio correr nas veias. Será que a Sera tinha colocado ele contra mim? Contra a Celeste?
"Danny, o que quer que a sua mãe tenha dito..."
"A Mamãe não falou nada." O olhar dele finalmente se chocou com o meu. "Ela nunca fala. Mas eu mesmo vi. Ontem, na chamada de vídeo. Aquela mulher tava sentada na nossa cozinha como se fosse dela. Você tava com ela, né? Por isso não foi pra minha reunião."
Minha boca se mexia sem emitir sons, um Alfa calado pelo próprio filho. Eu não tinha como me defender, até porque nenhuma desculpa poderia amenizar a traição na voz dele.
"Eu não gosto dela, pai." O olhar dele grudou no meu, cheio de convicção.
"Daniel." Passei a mão pelo rosto, exasperado. "Se você ao menos desse uma chance a ela..."
"Não." Ele balançou a cabeça com firmeza. "Não quero ela perto de mim."
A teimosia no queixo dele era igual a minha e ele tinha o mesmo orgulho obstinado que uma vez me fez desafiar as ordens do meu pai. Só que o Daniel não era apenas teimoso, ele estava certo.
Era eu quem havia perdido o rumo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei