PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O amanhecer estava agradável. O sol entrava pela janela da cozinha e, pela primeira vez em meses, senti-me leve, esperançosa.
Cada um dos meus músculos gritava em protesto enquanto eu media a farinha, mas a dor se tornara uma velha amiga, uma presença constante que significava progresso.
Eu tinha começado a treinar com a Maya e, se eu achava o Lucian cruel, então ela era o próprio demônio.
"Você consegue ir além, Sera!" ela rosnou ontem, sua bota cutucando minhas coxas trêmulas durante mais um exercício impossível. "Vai mais!"
E, de alguma forma, eu sempre consegui.
A lembrança do raro elogio vindo ela ainda me aquecia. Técnicas avançadas. Progresso real. Cada hematoma era um degrau até o meu maior objetivo: ser forte o bastante para proteger o Daniel das crueldades do mundo.
Hoje pedia uma celebração. Aumentei o volume do rádio, deixando a música pop animada guiar meus movimentos enquanto eu dançava entre o balcão e a tigela, com a farinha cobrindo meus braços como cicatrizes de batalha. O doce aroma de baunilha preenchia o ar...
BRRRRZZZZT!
A campainha gritou pela casa com seu interminável som eletrônico.
Meu bom humor vacilou com o ruído estridente, repetido, como se quem estivesse apertando tivesse levado um choque elétrico com o dedo travado na campainha.
Dado o meu histórico de visitas e a forma agressiva como a campainha estava sendo tocada, supus quem poderia estar do outro lado da porta.
Limpei as mãos no avental, já me preparando para o impacto.
A porta se abriu revelando a Celeste, com o óculos de sol de grife no topo das ondas douradas perfeitamente arrumadas. É claro.
Antes que eu pudesse falar, ela passou por mim, batendo de propósito o meu ombro contra o dela.
Eu não me virei imediatamente. Fiquei olhando através da entrada vazia, com os olhos fixos em um irrigador no jardim da casa do outro lado da rua. 'Dai-me força', orei silenciosamente a todas as divindades existentes.
Finalmente, me virei. Celeste estava deslumbrante como sempre, com seu cabelo dourado em cachos ao redor do rosto como um halo. Irônico, já que ela era tudo menos um anjo. Nesse momento, ela parecia uma serpente, preparada para atacar.
"Fique longe do Kieran," ela soltou, como uma rainha amargurada emitindo um decreto. Eu me virei de forma dramática, mexendo a cabeça como se estivesse procurando alguma coisa.
"Você tá vendo o Kieran aqui?", perguntei, desesperadamente tentando segurar a felicidade que eu já sentia escapando.
"Não banque a inocente comigo," ela sibilou, dando um passo ameaçador na minha direção. "Eu sei o que você tá fazendo. você não me engana com os seus truques. Qual vai ser o próximo? Vai planejar outro ataque pra chamar a atenção dele?"
Fechei os olhos e respirei fundo pelo nariz. Uma vez. Duas. Três.
Quando abri os olhos, ela ainda estava na minha frente , não tinha virado cinzas como eu desejava desesperadamente.
"Não vou discutir com você de novo, Celeste," disse, cruzando os braços. Ela bufou.
"Que pena, porque eu vou discutir com você. Como vai ser desta vez? Outro tiro seria muito óbvio. Talvez uma emboscada? Invasores em casa?" Ela se aproximou ainda mais, apontando um dedo esmaltado para o meu peito. "Compartilhe, Sera. Que meios ardilosos você vai usar pra garantir que ninguém suspeite de você desta vez?"
Uma risada aguda e irritada escapou de mim enquanto eu afastava a mão dela. "Você tá falando sério agora?" perguntei. "Se alguém deveria ser suspeito desse ataque, esse alguém é você." Franzi os olhos para ela. "Você tinha motivos e sei muito bem que seria capaz. Você faria qualquer coisa pra garantir que ficará com o seu precioso Kieran."
Celeste zombou. "Como se eu fosse perder meu tempo com você. Você não vale o esforço."
Abri os braços, indicando o hall ao nosso redor. "E, ainda assim, cá está você, mais uma vez fazendo cena."
Inclinei a cabeça para o lado. "Você deve estar muito entediada pra colocar 'Assediar a Sera incessantemente mesmo que ela esteja cuidando da própria vida' na sua agenda."
O corpo inteiro da Celeste tremia de raiva. "Sua arrogante," sussurrou ela. "Você acha que é esperta? Não basta ser uma pedra no meu caminho, precisava envolver o Daniel nisso?"
A menção ao nome do meu filho imediatamente me deixou alerta.
"Como é que é?"
Celeste notou minha mudança de postura e seus lábios cintilantes se curvaram como se ela tivesse acabado de dar um xeque-mate.
"Você me ouviu. Aquele seu pestinha só tá dando trabalho desde que voltei." Ela deu um passo à frente. "Mais um escândalo, mais uma recusa em me aceitar, e eu vou me certificar de que o Kieran mande ele pra algum internato nos cafundós da Suíça."
O pulsar ensurdecedor nos meus ouvidos deu a sensação de que o mundo tinha se estreitado.
"Vamos ver como você vai manipular as situações quando seu precioso Daniel estiver a seis fusos horários daqui," ela murmurou, agora tão próxima de mim que eu podia ver as manchas douradas nos seus frios olhos azuis. "Sem mais chamadas de vídeo, sem mais reuniões de pais. Apenas... silêncio."
Algo dentro de mim se despedaçou.
O tapa ecoou pela sala como um tiro, minha palma se conectando com a bochecha dela com força suficiente para virar sua cabeça para o lado. Celeste cambaleou para trás e suas mãos bem cuidadas voaram para o rosto, em choque.
Por um momento, houve um silêncio perfeito. Então...
"Se você," rosnei, avançando sobre ela, "ousar sussurrar o nome do meu filho de novo, eu vou acabar com você." Minha voz tremia com a fúria que já não conseguia mais conter. "Isso não é uma ameaça, Celeste. É uma promessa."
Os dedos da Celeste tremiam contra sua bochecha avermelhada. Pela primeira vez desde que invadiu minha casa, ela parecia genuinamente abalada.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei