PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Enquanto caminhávamos, meus ombros começaram a doer. Não por causa das sacolas que eu carregava, mas pelo peso que pensei já ter deixado para trás.
Tentei disfarçar. Sorri para a Maya, agradeci mil vezes, até fiz uma piada sobre tropeçar em um dos saltos ridículos que ela me fez comprar.
Mas a verdade? O entusiasmo gerado pelas compras morreu em algum lugar entre o desdém da Emma e a declaraçãozinha arrogante da Celeste.
Até agora, aquela interação ainda ecoava na minha cabeça: 'O Kieran já fez sua escolha.'
Eu sabia, e isso não deveria me incomodar nem um pouco.
Ainda assim, ouvir aquilo queimava mais do que qualquer insulto, ainda mais sendo falado com tanta confiança, como se eu não fosse mais do que um erro descartável.
"Bom, última parada," Maya anunciou, quando chegamos aos nossos carros. "Meu carro anda dando problema," ela bateu no capô para enfatizar, "e se isso não é um sinal de que preciso de um novo, não sei o que é."
Ela apontou para a concessionária em frente ao shopping. "Vamos largar as sacolas e..."
"Acho que vou pra casa," eu disse. "Preciso... descomprimir, talvez tirar um cochilo antes do jantar. Foi um dia e tanto."
Maya estreitou os olhos levemente. "Eu pensei que a gente pudesse jantar juntas."
Forcei um sorriso. "Pode ficar pra próxima?"
Ela mordeu o lábio inferior. "Você não vai deixar que aquelas garotas te atinjam, né? elas são infantis e não merecem sua atenção, Sera."
Eu assenti e a minha mandíbula doeu com o sorriso forçado. "Eu sei, Maya. E obrigada por me defender, você foi bem corajosa."
Ela assentiu lentamente. "Tá bom, aniversariante. Você promete que não vai pra casa só pra se afundar debaixo do cobertor?"
Balancei a cabeça. "Não vou." Pelo menos, eu esperava que não.
Ela me observou por mais um instante, depois assentiu. "Tudo bem então."
Ela me observou enquanto eu destrancava o carro e colocava as sacolas dentro. Antes de entrar no banco do motorista, acenei para ela com um sorriso, fingindo que não sentia como se tivesse dado dez passos para trás no meu processo de cura.
***
PERSPECTIVA DA MAYA
Já entrei em emboscadas sozinha e saí sem um arranhão. Uma vez, derrubei um Alfa duas vezes maior do que eu com pauzinhos de plástico.
Mas nada, nada mesmo, poderia ter me preparado para o choque que senti no momento em que entrei naquela maldita concessionária.
Eu estava distraída, preocupada com a minha nova amiga e com todas as forças do mundo que pareciam conspirar para magoá-la.
Eu me perguntava o que mais poderia fazer para ajudá-la e para aliviar o peso que ela carregava constantemente como um burro de carga, quando senti um raio quente percorrendo o meu corpo e me congelando no lugar.
Todos os meus sentidos se voltaram para a fonte desse sentimento e percebi que a minha loba, Nyra, se agitou.
Com uma arrogância discreta, ele estava encostado no capô de um Mercedes G-Wagon verde escuro, todo de aço polido, discutindo casualmente com o gerente como se fosse dono do lugar.
Eu não teria notado se o laço não tivesse me atingido no peito como um aríete.
'Companheiro!' Nyra uivou e o som preencheu minha mente ao passo que a consciência se espalhou pelo meu corpo. A força pura da minha percepção me deu vertigem.
Alto. Ombros largos. Um queixo bem barbeado que eu já me via socando recreativamente. E aqueles olhos, que eram como nuvens de tempestade se formando em um céu azul claro, se fixaram em mim no momento em que entrei.
Ele também sentiu.
Vi as suas pupilas dilatarem e o seu corpo se enrijecer enquanto ele se endireitava. Senti o peso da sua atenção sobre mim e o gerente de repente virou um pensamento distante.
Ele começou a vir na minha direção lentamente e com cautela, provavelmente tentando manter a calma apesar da atração magnética entre nós, que agia como um fio eletrificado.
Cada passo que ele dava refletia na batida forte do meu coração, mas me forcei a ficar calma e relaxar.
Eu era a Maya Cartridge, e não me deixava abalar, nem pelo meu companheiro e nem por mais ninguém.
"Oi..." ele começou. A voz dele era como seda: quente, suave e rica.
Levantei uma sobrancelha. "Se você ia dizer que acha que nos conhecemos, nem comece. É clichê."
Ele piscou. E então riu. Droga. Era uma risada gostosa, que se espalhou no ar entre nós, estranhamente íntima.
Nyra ronronou.
"Não era isso. Eu ia dizer..." ele estendeu a mão, "que gostaria de saber o seu nome."
Meus lábios se contraíram. "É mesmo?"
"Muito."
Quase contei. Quase.
Sempre achei a ideia de companheiros predestinados meio ridícula. Sem querer desrespeitar a Deusa da Lua, se eu ia ficar com alguém para o resto da minha vida, seria uma decisão minha, não do destino.
Eu não era o tipo de mulher que aceita esbarrar em um homem e simplesmente ser reivindicada por ele. Eu tinha que ser conquistada.
Dei um passo para mais perto, perto o suficiente para deixar a tensão ficar mais intensa.
Seu cheiro me envolveu com uma mistura de couro escuro e um toque de pinho.
Meus sentidos aguçaram em reconhecimento e desejo.
Droga.
"Então lá vai um desafio, homem misterioso." Forcei minha voz a ficar firme, tentando trair o anseio que se enrolava no meu estômago. "Você tem uma semana. Descubra quem eu sou sem usar o vínculo. Nada de farejar, nada de perguntar na Alcateia, nada de trapaças. E, se conseguir..."
As sobrancelhas dele levantaram, intrigadas.
"...então a gente conversa."
Os olhos dele escureceram e seus lábios se curvaram. "Um desafio... Interessante."
Inclinei a cabeça. "Vai encarar?"
Os olhos dele voaram para a minha boca e, quase instintivamente, mordi o lábio inferior, me perguntando como seria beijá-lo. Explosivo, sem dúvida.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei