PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Acordei antes do amanhecer e não senti vontade de ficar deitada na cama, com os meus pensamentos rodando como vinham fazendo ultimamente.
A casa silenciosa fazia muito barulho na minha cabeça.
Eu tinha uma sessão de ioga marcada no Salão da Lua hoje. Já tinha feito algumas nas últimas semanas e descobri que ajudavam tanto na minha recuperação como também a acalmar a minha mente.
Vesti minha roupa de ioga, composta por uma calça legging cinza clara e um top esportivo gasto que cheirava levemente ao meu óleo de lavanda favorito, que eu não usava há um certo tempo porque o cheiro me trazia... lembranças.
Mãos quentes e firmes pressionando contra um corpo rígido. Lábios suaves. Calor intenso.
Balancei a cabeça. Era exatamente esse tipo de barulho que eu precisava que a ioga silenciasse.
Eu tinha acabado de sair do vestiário quando a Maya me interceptou, com o cabelo nas suas habituais tranças embutidas e duas xícaras de café nas mãos.
"Bom dia, luz do dia," disse ela, estendendo uma xícara para mim.
Eu ainda estava tentando me acostumar com a ideia de que a minha implacável treinadora, Maya, agora era minha amiga. Por mais estranho que fosse, eu ficava imensamente feliz que alguém como ela pensasse em mim a ponto de me trazer uma xícara de café.
Patético, eu sei. Mas recebi tão pouca gentileza na vida que gestos aparentemente insignificantes eram tudo para mim.
Olhei para a xícara de café com nostalgia. "Obrigada, mas não posso. Tô indo pro Salão da Lua."
"Ah," Maya assentiu em compreensão, retrocedendo a mão. "Cafeína e ioga não combinam. Bom..." ela começou, em um tom dançante e... provocador. "A SDS tá agitada com as fofocas que rolaram desde a sua festa de aniversário."
Levantei uma sobrancelha, entretida. "Não te imaginava como alguém que se importasse, ou ouvisse, ou espalhasse, fofocas."
Ela deu de ombros. "Normalmente não, mas essa é particularmente interessante e fiquei curiosa." Ela piscou.
Eu ri. "Ok, então me conta."
Ela levantou as sobrancelhas escuras. "É sobre você e o Lucian."
Parei de andar por um instante. "O quê?"
"Vocês dois estavam bem próximos na sua festa e não é segredo que ele te levou pra casa depois. Além disso, vocês passam muito tempo juntos."
Soltei uma risada divertida. "O Lucian e eu somos amigos, Maya."
"Claro que sim," ela cantarolou. "Ouvi dizer que ele afirmou pra sua família que ia te conquistar."
"Eu..." minha mandíbula caiu. "Como essa história se espalhou?"
"Ah, não dá pra esconder nada na SDS." Ela deu de ombros. "As paredes têm ouvidos e bocas grandes."
Eu ri, balançando a cabeça. "O Lucian só tava me ajudando, só isso."
Maya deu uma risadinha. "É assim que chamamos flerte hoje em dia?" Ela me cutucou. "Qual é, Sera. Não vai me dizer que você não percebeu como ele te olha. Ou como ele aparece sempre que você precisa de alguma coisa."
Ela encheu o peito e engrossou a voz. "Se precisar de qualquer coisa, Sera," disse ela, obviamente imitando Lucian, "e quero dizer qualquer coisa mesmo, eu tô aqui."
Senti a pele clara do meu rosto esquentar e praguejei silenciosamente. "Ele é só um amigo, Maya."
"E não é essa a melhor base pra um relacionamento forte?"
Eu gemi. "Maya."
Ela riu. "Tá bom. Mas eu acho que você e o Lucian formariam o casal mais fofo do mundo. Eu o conheço há anos e sei que ele seria incrível pra você."
Nesse momento, meu rosto estava tão vermelho quanto um tomate. Balancei a cabeça, desejando estar com o cabelo solto pra cobrir minhas bochechas. "Acabei de me divorciar, tenho um filho que já não tá muito feliz com o novo relacionamento do pai. Não quero mais complicações."
O relacionamento do Kieran e da Celeste já era um problema e eu não achava que o Daniel lidaria bem se eu começasse a sair com alguém novo também.
Maya deu de ombros, sem se abalar. "Às vezes, o amor não liga pro que você quer. Ele aparece de qualquer jeito."
Fiquei sem resposta. Seria muito irônico se o amor aparecesse para mim agora, depois de uma década esperando por ele.
Chegamos ao Salão da Lua e a Maya deu um passo para trás enquanto eu segurava a maçaneta. "Bom, aproveite sua aula," ela disse com um sorriso conspiratório, como se soubesse de algo que eu não sabia.
Entrei no Salão da Lua e meus passos hesitaram, entendendo a saída cheia de confiança da Maya.
O Salão da Lua estava calmo e fresco, iluminado pelos raios dourados que atravessavam a claraboia em forma de cúpula. Incensários fumegavam nos cantos, liberando um suave e reconfortante aroma de pinho e sálvia. Velhas marcas de garras arranhavam o chão de pedra gasto, deixadas por lobos que se Transformaram durante os treinamentos.
No centro, havia um círculo rebaixado cercado por almofadas e tapetes trançados e, em uma das almofadas, estava o Lucian.
Ele estava sentado em posição de lótus, com uma postura calma e a expressão indecifrável. Mas, quando os seus olhos se levantaram e encontraram os meus, algo dentro de mim tremeu. Compreensão.
Droga, deixei a Maya mexer com a minha cabeça.
"Entre, Seraphina," a instrutora, uma Gamma de aparência serena chamada Ilsa, me chamou.
As minhas duas primeiras aulas foram com ela, mas no dia éramos só nós duas.
Lucian sorriu suavemente enquanto eu me dirigia para dentro da sala.
"Que surpresa," observei.
Foi a Ilsa quem respondeu. "O Lucian e eu achamos que tá hora de você tentar se conectar com a sua loba ausente", ela disse, com uma voz suave que disfarçava a seriedade das suas palavras.
Meu coração deu um pulo. Íamos tentar acessar a minha loba.
"Nenhum lobisomem nasce sem lobo", ela continuou. "Mas, às vezes, o lobo se retrai ou a conexão se quebra antes mesmo de ter a chance de se formar. Hoje, vamos buscar essa conexão e tentar acessar essa parte silenciada de você."
Ela indicou a almofada ao lado do Lucian, que estava me observando com atenção. "E a presença de um Alfa ajuda imensamente."
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei