PERSPECTIVA DO KIERAN
Era para eu estar assistindo a Celeste treinar.
Eu tinha concordado em acompanhá-la ao seu treinamento na SDS naquela manhã. Quando me pediu para ir, seu olhar tinha aquela súplica familiar de 'Prove que você ainda se importa.' Isso, junto com as estatísticas alarmantes que o Lucian havia me mostrado, foi o motivo de eu estar novamente na sede da SDS.
O plano era manter uma distância respeitosa, demostrar apoio e talvez dar algumas dicas caso ela pedisse.
Mas, uma coisa era ver os números; outra era ter a experiência ao vivo de quão atrasada a Celeste estava em seu treinamento.
Não tínhamos nem chegado na metade do aquecimento quando percebi que ela não estava focada. Seus olhos não estavam no percurso, estavam em mim.
Os movimentos de pés dela estavam lentos, seu corpo deslizava e o treinador se contorceu mais de uma vez quando a Celeste quase errou o alvo.
Mantive a distância, já que não queria interferir nas instruções do treinador dela. Mas, quanto mais tempo eu permanecia lá, mais distraída ela ficava, tropeçando nos exercícios, irritando-se com o treinador e lançando olhares na minha direção como se eu fosse o culpado por desequilibrá-la.
Eventualmente, me afastei. Disse a ela que precisava de ar, quando a verdade é que eu não aguentava mais o peso do olhar dela. Eu era uma distração que ela não precisava no momento.
No segundo em que saí da sala, a pressão no meu peito mudou como se o ar tivesse trocado de densidade.
Parei no corredor, mexendo nos ombros.
Então, lembrei-me das palavras do Lucian, me incentivando a focar na Celeste e no treinamento dela. Porém, eu não sabia nem por onde começar com ela. Como eu poderia ajudá-la se ela não conseguia nem se concentrar se eu estivesse na mesma sala?
"Ai!" O grito indignado da Celeste ecoou no corredor. Lutei contra a vontade de revirar os olhos e me afastei da parede.
Percorri o corredor das salas de treinamento sem rumo certo. Eu sabia que a Sera estava em algum lugar deste prédio e essa informação era uma maldição.
Me perguntei o que ela estaria fazendo. Fosse o que fosse, provavelmente estava em um nível superior ao de Celeste. Suprimi o impulso de procurá-la, de vê-la. Nada de bom viria disso, não depois da forma como deixamos as coisas no nosso último encontro.
Eu estava prestes a virar e voltar para a sala de treinamento da Celeste quando congelei. Foi como se um raio tivesse me atingido, me travando por dentro.
Senti o Ashar, que estivera quieto a manhã toda, se agitar.
Algo queimava o meu sangue, como uma voz, um sussurro, uma ordem.
Senti um puxão súbito e feroz sob minhas costelas. Um despertar.
Não era apenas instinto. Não era a simples vigilância rotineira ou a percepção casual de outro lobo nas proximidades. Era primitivo. Visceral. Íntimo.
E... familiar?
Meu pulso falhou.
'O que é isso?' pensei, confuso.
A atração ficou mais forte. Ashar irrompeu, rosnando baixo no meu peito. "Vai."
Virei-me, seguindo a atração magnética como se estivesse preso a um fio invisível e sendo puxado para frente.
Não era uma direção, era um sentimento. Um perfume, quase imperceptível. Um calor florescendo sob minha pele, elétrico. Estranho e familiar ao mesmo tempo.
Ashar passou de curioso a selvagem em um piscar de olhos. Eu podia senti-lo forçando contra a minha mente, empurrando contra a prisão do meu corpo, exigindo mover-se mais depressa, chegar mais perto.
E, então, me atingiu. O que era essa sensação estranha e avassaladora.
Chamamos de acasalamento.
Ashar rosnou e avançou, o reconhecimento ardendo dentro dele como fogo em mato seco. Ele conhecia aquele chamado. Ele a conhecia.
Mas eu não.
Minha mente estava em desordem. Eu nunca tinha sentido algo assim, nunca ouvi aquela frequência, aquele tom. Nunca senti exatamente aquele cheiro de baunilha quente e sândalo, beirando algo selvagem, mas frágil.
Mas o Ashar... Ele sabia. Sua voz era pura certeza.
"Minha."
Parei em frente a uma porta fechada que eu não sabia que estava procurando. Minha mão foi para a maçaneta, já pressionada por uma tensão que eu não entendia.
Mal conseguia me impedir de entrar no cômodo com toda aquela força fervendo no meu corpo.
O tempo parou.
No centro da sala, um círculo de meditação. A suave névoa de incenso se enrolava nas colunas de luz dourada. E, no centro...
Meu coração parou.
Ela.
A Sera.
Ajoelhada de frente para Lucian Reed, o rosto corado, os lábios entreabertos como se estivesse no meio de uma respiração, os olhos fechados e as mãos entrelaçadas nas dele. A expressão dela era mais suave do que eu jamais tinha visto. Era desarmada e cintilava com algo profundo e primal. Um brilho de suor se agarrava à sua testa e escorria pela nuca.
Senti antes de entender: o zumbido baixo na sala, os fios desfiados de algo predestinado sendo costurados novamente.
Ashar uivou, não de raiva, mas de saudade e de reconhecimento.
Ele me fez avançar em direção a ela, certo do que eu não podia nomear, apenas sentir: era isso. Ela. A escolhida.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei