PERSPECTIVA DA CELESTE
Seraphina era o tormento da minha existência.
No momento em que ela pisou naquele tapete vermelho com aquele vestido mais brilhante do que as estrelas, com o cabelo todo arrumado como se pertencesse à realeza, eu soube que aquela noite não acabaria bem.
Era como viver uma versão distorcida da história da Cinderela, onde eu era a meia-irmã e minha irmã a gata borralheira que, de alguma forma, passara por uma transformação e passara a chamar a atenção de todos ao redor.
Inclusive do Kieran.
Desde o momento em que ele posou os olhos nela, não conseguiu desviar o olhar, por vezes nem mesmo percebendo que eu estava ali, ao seu lado, fervendo de raiva.
Era inacreditável. Eu sempre atraía atenção como traças para a luz. Eu sempre era quem se destacava na multidão.
Não bastava ela ter roubado o meu homem, agora tinha que roubar meu destaque também?
E ainda fez aquele discurso horrível.
Precisei de toda a minha força de vontade para não explodir de tanto rir enquanto ela contava sua história triste para a plateia. E depois tive que me segurar para não vomitar quando todos engoliram sua lamentação como órfãos famintos.
Ela os manipulou como um maestro conduz sua orquestra. Olhos arregalados e palavras suaves, como se não soubesse exatamente quantas pessoas estavam na palma da sua mão.
Pobre garota sem loba, deixada de lado, esquecida. Como se ela tivesse o direito de ser mais do que isso. Como se não merecesse cada gota de discriminação e rejeição que recebeu.
Me irritei ao ver todos aplaudindo-a como se ela fosse uma pobre vítima inocente saindo das sombras.
Ela era uma cobra, uma manipuladora, que se escondia nas sombras à espera do momento certo para atacar e tomar o que era meu.
E o Kieran...
Kieran foi o primeiro a bater palmas. Bem alto. O olhar de admiração e orgulho estampado no rosto dele me fez querer atravessar a sala e arranhar o rosto da Seraphina até não sobrar nada.
E então veio o ciúme.
Kieran costumava ser um mestre em esconder suas emoções, nunca deixando escapar nada que não quisesse revelar. Mas, essa noite, ele estava mostrando seus sentimentos como uma criança. Quando a Sera e o Lucian foram para a pista de dança, pude ver o quanto ele estava bravo, o quanto ele sentia ciúmes.
E, depois. ele se recusou a dançar comigo.
Para piorar ainda mais, ele simplesmente me deixou lá sozinha.
Banheiro, sei.
Enquanto ele se afastava, eu podia sentir ele escapando das minhas mãos e caindo facilmente sob algum feitiço que a Sera havia lançado.
Essa noite deveria ser a noite em que eu iria exibir o Kieran aos meus amigos, ao mundo. Eu queria que todos soubessem que a verdadeira Luna do Kieran tinha voltado.
Não. Eu não ia deixar a Sera estragar isso e não ia perder meu homem pela segunda vez.
Eu o segui, quase sem conseguir acompanhar seus passos longos.
Passei pela multidão, ignorando os olhares e perguntas silenciosas dos meus amigos e tentando não deixar o pânico revirar o meu estômago.
Quando saí do salão de baile, Kieran havia sumido no ar como mágica.
Eu mandei mensagem para ele. Liguei. Nada.
Cheguei a ligar para o Ethan, afinal, talvez o meu irmão pudesse fazer o amigo dele cair na real. Mas, claro, ele também não atendeu.
Ele nem tinha aparecido no baile ainda. Devia estar por aí, babando pela sua nova companheira inútil.
Afastei a raiva que senti com aquele pensamento, organizando meus sentimentos. O Kieran era minha principal prioridade.
Ouvi aplausos no salão quando a música terminou, sinalizando o fim da dança da Sera e do Lucian.
Cerrei os punhos enquanto percorria os corredores, passando pelo salão e indo até o maldito banheiro em busca do Kieran.
Nada.
A situação estava saindo do controle e eu estava quase voltando para dar um esculacho na Sera, afinal isso era tudo culpa dela, quando eu os vi.
Do lado de fora, no jardim.
Prendi a respiração.
Kieran estava ajoelhado. O formidável Alfa da NightFang estava ajoelhado.
Bem na frente da Sera.
Ela estava descalça, como se fosse uma coisinha delicada que não aguenta usar salto. E o Kieran estava colando curativos nos pés dela.
A cena era tão absurdamente íntima que fez o meu sangue ferver.
Ela olhou para ele como se estivesse surpresa.
Ele olhou para ela como se estivesse encantado.
Eu podia sentir a tensão entre eles como uma coisa viva. Que os deuses me ajudem, mas eu estava prestes a perder a cabeça.
Avancei furiosa.
"Kie?"
Minha voz cortou o momento como um chicote.
Sera se sobressaltou. Kieran levantou-se rapidamente com o corpo todo tenso, guardando alguma coisa no bolso.
Os olhos calmos, tranquilos e irritantemente convencidos dela encontraram os meus.
E o Kieran...
Aquele rosto que esteve tão aberto e expressivo a noite toda se fechou, me excluindo.
"Ah, você só pode estar de brincadeira," eu sibilei, lançando um olhar furioso para a minha irmã. "Um Alfa não é suficiente pra você, Cinderela? Quando você vai ficar satisfeita?
Ela abriu a boca, provavelmente pra fazer o papel de inocente, mas eu não ia deixar barato.
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei