PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A luz da lua iluminava intensamente o quarto através da janela, banhando o ambiente com um brilho prateado.
Tentei meditar, como a Ilsa havia me ensinado, focando na respiração e no silêncio, com a esperança de que isso me acalmasse após os altos e baixos dos últimos dias, mas a lua cheia estava estranhamente impiedosa esta noite.
Ela me puxava por dentro, deixando todos os meus nervos à flor da pele. O zumbido constante da ausência da minha loba tinha sido substituído por algo cru e visceral, como se a minha alma lembrasse do laço mesmo que o meu corpo não conseguisse. E, por baixo disso tudo, havia um... puxão. Para onde, eu não sabia dizer.
Quanto mais eu meditava, mais forte eu sentia o tal puxão, até que não consegui mais ficar parada. Eu me espreguicei ao me desvencilhar das almofadas no chão, tentando afastar a energia inquieta que se enrolava sob a minha pele.
Normalmente, a meditação me tranquilizava e me deixava em paz. Esta sessão, entretanto, me fez querer pular da varanda e uivar para a lua. É isso que os lobos normais sentem durante a lua cheia?
Balancei a cabeça, alcançando o copo de água na mesinha lateral da cama, e lamentei ao ver que estava vazio. "Samantha, você acha que poderia..."
Parei quando virei e vi que a cuidadora Ômega que o Kieran havia designado para mim estava caída na poltrona perto da porta, com a cabeça inclinada para o lado, respirando suavemente e de forma ritmada.
Fiz uma careta, sentindo uma pontada de culpa. Ela deve ter ficado em pé o dia todo, zelando por mim com mãos gentis sempre ao meu lado e me servido refeições e remédios.
A culpa me impediu de acordá-la. Ela merecia descansar e, afinal, eu poderia pegar a minha própria água.
Então, vesti um roupão e me movi sozinha, com os pés descalços roçando os ladrilhos frios enquanto eu deslizava pelo corredor em direção à cozinha, tomando cuidado para não colocar muito peso no tornozelo.
O ar da noite estava impregnado de sal e hibisco e o meu corpo parecia ao mesmo tempo leve demais e pesado demais.
Abri a porta da cozinha silenciosamente.
E o encontrei lá.
Kieran estava no balcão com um copo na mão e os ombros largos delineados nas sombras. Ele se virou ao me ouvir entrar, seus olhos negros como obsidianas capturando a luz da lua de forma incrivelmente brilhantes.
Por um momento, pensei que a própria lua havia escorregado para dentro da cozinha e tomado forma humana.
"O que você tá fazendo aqui?" Sua voz era baixa, quase áspera. Então, o olhar dele passou por mim em direção ao corredor. "Cadê a sua Ômega?"
Engoli em seco contra o nó que se formou na minha garganta. "Dormindo. Não quis acordá-la."
Ele colocou o copo na bancada com mais força do que era necessário. "Ela tem que cuidar de você. Você não deveria estar de pé."
Revirei os olhos. "Ah, qual é, o médico disse que eu tô bem e quase não tô sentindo dor agora."
A mandíbula dele se contraiu. "Quando dou ordens, espero que sejam seguidas."
Ele se afastou do balcão e eu levantei a mão antes que ele pudesse sair furioso e dar uma bronca na pobre Samantha.
"Não." A palavra saiu mais suave do que eu pretendia, mas o parou. "Ela trabalhou duro o dia todo. Eu tô bem. Posso ir até a cozinha pegar água sem problemas."
Os olhos dele se estreitaram e ele parecia querer argumentar mas, quando não desviei o olhar, ele exalou suavemente e o seu corpo relaxou.
O silêncio preencheu a cozinha, denso com o zumbido da geladeira e o eco constante do oceano lá fora.
Uma lembrança surgiu na minha mente, envolvendo outra cozinha, outra casa, outra noite iluminada pela lua, só o Kieran e eu.
'Quero o divórcio.'
Eu empurrei essa lembrança cada vez mais fundo na minha mente.
Kieran se encostou no balcão e eu tentei ignorar o seu olhar ardente enquanto enchia meu copo e me virava para sair.
Mas mal tinha dado dois passos quando o meu pé enroscou na borda do ladrilho.
O quarto girou e o meu fôlego ficou preso na garganta...
De repente, eu estava nos braços do Kieran.
Seu braço envolveu minha cintura, puxando-me firmemente contra a força inflexível de seu peito.
O mundo girou, depois se estabilizou, e tudo que eu podia ouvir era o rápido staccato do meu pulso e o ritmo lento, porém irregular, da respiração dele.
As palmas das minhas mãos estavam pressionadas contra ele e o calor do corpo do Kieran penetrava diretamente no meu.
"Cuidado," ele murmurou. Sua voz era um sussurro baixo e quente contra a minha têmpora.
Eu deveria ter me afastado, deveria ter empurrado ele, mas...
Aquela maldita atração entre nós, que eu tentei tão arduamente enterrar com determinação e força de vontade, ressurgiu como um fio elétrico, correndo do aperto dele na minha cintura para cada nervo do meu corpo.
Eu inclinei a cabeça para trás, para encontrar os olhos dele, e o olhar que vi me desmoronou.
Havia desejo, desesperado e instintivo, que refletia exatamente o que eu estava tentando reprimir.
"Kieran..." Minha voz falhou, não mais que um sussurro, meio alerta, meio súplica.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei