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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 89

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

A villa parecia anormalmente clara quando voltamos, com a luz do sol se espalhando pelo chão como ouro derretido.

Mal tive tempo de sentir o calor antes que a voz aguda do Daniel cortasse o silêncio: "Mãe!" Seus pezinhos trovejavam pelo corredor e ele parou abruptamente na minha frente, vibrando de entusiasmo. Ele ainda estava de pijama e com o cabelo adoravelmente bagunçado de quem acabou de acordar.

Mas o seu sorriso radiante escureceu quando ele olhou para mim e, então, as suas sobrancelhas se franziram quando ele abaixou o olhar. "O que aconteceu? Você se machucou?"

Olhei para o meu tornozelo cuidadosamente enfaixado e senti uma pontada de vergonha. Eu estava aqui há menos de dois dias e quase me afoguei e ainda fui picada por uma cobra.

Como eu poderia manter o meu filho seguro se não conseguia ficar longe do perigo?

"Não é nada, querido. Só um arranhãozinho," disse levemente, embora a picada da cobra ainda pulsasse suavemente sob a bandagem.

Os olhos escuros do Daniel se estreitaram em desconfiança. O instinto do meu filho era afiado, mesmo com apenas nove anos.

Ele lançou um olhar para o Kieran, cuja presença na porta era protetora e, ao mesmo tempo, predatória, quase como se ele estivesse de olho em mais cobras rondando a villa.

"Ela tá bem, campeão," Kieran interveio. "Sua mãe só precisa descansar um pouco e evitar de colocar peso nesse pé."

"Eu posso te ajudar, mãe!" Daniel insistiu, se aproximando.

Antes que eu pudesse responder, o Kieran se moveu. Ele foi mais rápido do que eu esperava e, em um movimento fluído, me ergueu nos seus braços, me segurando como se eu não pesasse nada.

Minhas reclamações saíram automaticamente.

"K-Kieran! Não preciso..." comecei a falar, mas as palavras falharam sob a tontura de ser levantada do chão.

A villa parecia se desfocar ao meu redor e as paredes, os móveis e até mesmo o olhar arregalado do Daniel estavam sumindo ao fundo enquanto a presença avassaladora do Kieran se tornava o foco principal.

"Eu consigo ir sozinha." Minhas palavras saíram trôpegas.

Uma coisa era eu me apoiar nele quando estávamos a sós, mas a presença de uma plateia, mesmo que fosse o Daniel (na verdade, especialmente sendo o Daniel), fazia um rubor subir pelo meu pescoço.

"Mãe", disse o Daniel. "Você sempre cuidou de mim, do Papai e de todo mundo. Deixe que alguém cuide de você agora." A voz dele era solene e percebi que não havia como contestar a sua lógica.

Olhei para os braços fortes do Kieran ao meu redor e observei a maneira precisa com que ele me segurava para não machucar o meu tornozelo, o que fez o rubor se espalhar pelo meu rosto.

Eu odiava me sentir tão impotente, mas não tinha como recusar ajuda na frente do Daniel.

"Tudo bem", murmurei, com a voz apertada de vergonha, e deixei o Kieran me carregar pelos degraus da villa. A leveza de estar nos seus braços era ao mesmo tempo reconfortante e irritante.

Assim que chegamos ao quarto, ele me colocou gentilmente na cama. Suas mãos permaneceram ao meu lado, como se conferissem que eu não tinha mais nenhum machucado.

Me mexi, um pouco inquieta. "Kieran... eu consigo me sentar. De verdade, não preciso de tantos cuidados," disse, tentando afirmar uma certa independência.

Ele ignorou as minhas palavras e ajustou os travesseiros atrás de mim, alisando-os até que as minhas costas estivessem perfeitamente apoiadas.

A mão dele encostou na minha ao prender uma mecha de cabelo atrás da minha orelha com um toque leve, mas elétrico. Senti o calor subir pelo pescoço. "Você tá exagerando," murmurei.

"Não tô," ele disse calmamente com a voz baixa, quase incompreensível. "Tô só me certificando de que você tá bem."

Tentei focar em outra coisa, qualquer coisa, mas os meus olhos continuavam se encontrando com os dele. A intensidade fazia o meu peito apertar.

Ele não parou por aí. Em poucos minutos, preparou uma bandeja com suco natural, frutas cortadas e uma pequena tigela de aveia com mel.

Pensei em como ele tinha falado com tanta facilidade sobre a minha rotina e dieta para o médico, como se...

'Só quero dizer que o Alfa Kieran claramente se importa profundamente com a senhora, Luna.'

Joguei a lembrança para o fundo da minha mente, junto com o calor que ela provocou. Saber que o Kieran lembrava o que eu comia e como vivia era inquietante e amargo. Definitivamente, era amargo.

"Como você sabia... tudo aquilo que falou pro médico?" Perguntei, tentando manter a voz neutra enquanto ele colocava a bandeja na mesa lateral.

Os lábios dele se curvaram levemente. "Você é uma pessoa de rotina," ele respondeu suavemente, sentando na beirada da cama sem me tocar, mas de alguma forma ocupando o espaço de uma maneira que deixava o ar entre nós tenso.

"Certo."

Estiquei o braço para pegar um copo d'água na mesa lateral e ele se moveu ao mesmo tempo, fazendo com que os nossos dedos se tocassem. Retirei a mão quase imediatamente, mas o contato fugaz fez um arrepio percorrer a minha espinha, algo que me esforcei para ignorar.

Apesar de todos os meus protestos, parte de mim ainda gostava da forma como ele zelava por mim. Porém, a outra parte de mim não conseguia deixar de lembrar o caos que vivi durante o nosso casamento.

Quando o Daniel foi jogar no PlayStation, tentei recuperar o fôlego, esperando por um momento de privacidade. Mas o Kieran não saiu. Em vez disso, ele ficou por perto, como um mordomo à disposição, pronto para responder a qualquer necessidade e aliviar qualquer desconforto.

À medida que o dia passava, ele se movia com uma calma precisa, ajudando-me a ajustar a posição do tornozelo, preparando as refeições e até sentando perto de mim enquanto eu descansava, lendo em silêncio, sem dizer uma palavra.

E, cada vez que as nossas mãos se tocavam, cada vez que nossos olhos se encontravam, uma onda de consciência passava por mim. Eu odiava como o meu corpo reagia a ele, como o meu coração disparava quando ele se ajoelhava ao meu lado para ajustar o curativo ou como o meu peito se apertava quando ele carregava a bandeja.

Eu odiava que, mesmo quando estava irritada ou agitada, desejava sentir a presença dele.

A tensão foi aumentando silenciosamente até se tornar insuportável.

E, quando ele se ofereceu para me ajudar com algo tão básico e invasivo como ir ao banheiro, finalmente explodi.

"Kieran!" Minha voz saiu ríspida, surpreendendo até a mim mesma. "Isso já foi longe demais!"

Kieran congelou com uma expressão indescritível.

"Tô só tentando..."

"Eu sei," eu disse. "Eu sei, e sou grata, mas…" Exalei, balançando a cabeça. "Já passei por coisas piores do que essa, nem tô tão machucada assim agora, e você tá..." engoli em seco, lutando para encontrar as palavras certas. "Não podemos continuar agindo assim na frente do Daniel. Você tá passando uma ideia errada para ele. Ele só vai ficar mais decepcionado quando a realidade voltar a valer."

A garganta do Kieran mexeu e pensei que ele ia argumentar mais, mas ele assentiu lentamente.

"Você tem razão," ele disse calmamente, com um tom suave, mas resoluto. "Vou pedir pra outra pessoa cuidar de você."

Olhei para ele, espantada com a concordância repentina. "Você... acha que eu tenho razão?"

"Acho," ele disse simplesmente. "Vou providenciar para que uma das Ômegas te ajude. Você não precisará depender de mim pra... nada."

Exalei, alívio e frustração se misturando em partes iguais.

A ideia de não ter o Kieran pairando tão perto de mim era reconfortante. No entanto, a ausência da proteção dele deixou um súbito... vazio que eu não conseguia ignorar.

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