PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Na manhã seguinte, a villa parecia iluminada demais, alegre demais para o quão pesada eu ainda me sentia. O sol entrava em raios dourados pelas janelas da sala de jantar, reluzindo nos talheres de prata, nos pratos de porcelana e em uma cadeira conspicuamente vazia. A do Kieran.
A ausência dele deveria ter sido um alívio para mim. Depois do encontro imprudente com a tentação na noite passada, a última coisa que eu precisava era encontrar o olhar dele enquanto comia torrada e tomava chá. Mas, teve o efeito contrário, deixando um vazio incômodo dentro de mim.
Quando o café da manhã terminou e ele ainda não tinha aparecido, não consegui resistir mais e perguntei a uma das Ômegas onde ele estava.
Ela abaixou a cabeça e disse que ele passou a noite inteira no campo de treinamento. Essa informação preencheu o vazio que eu sentia com algo que me deixou enjoada: a imagem do Kieran se esgotando no campo de treinamento, sem cama e sem sono, apenas lâminas, suor e músculos doloridos. Talvez fosse uma punição, ou talvez uma maneira de exorcizar o nosso descontrole na cozinha.
Não perguntei mais nada. Se ele queria se exaurir até quase a morte em vez de encarar o que aconteceu entre nós, era uma escolha dele.
Contudo, no meio da manhã, percebi que a ausência do Kieran era o menor dos meus problemas. Eu tinha ficado apavorada com a possibilidade da Samantha nos interromper na noite anterior e fiquei aliviada quando ela não o fez. Mas, ao que parecia, as paredes da villa tinham ouvidos... e bocas. Bocas que não paravam de sussurrar.
Capturei fragmentos de conversas entre empregadas que estavam demorando demais com os seus cestos de roupa enquanto eu passava pelos corredores e guardas se enrijecendo quando eu andava perto deles.
"Eu pensei que eles estavam divorciados."
"Eu também, mas você viu como o Alfa não desgrudou dela ontem? E reparou na forma como ele olha pra ela?"
"E você viu como ele a carregou? Ai, que fofo!"
"Será que eles vão reatar?"
"Podiam muito bem reatar, já parecem uma família de propaganda de margarina passando férias."
Era absurdo. E irritante.
O Kieran e eu não íamos reatar nem em um milhão de anos, tudo não passava de um grande mal-entendido.
E quer saber? Eu não me importava com o que eles pensavam.
Ou pelo menos era o que eu dizia pra mim mesma.
Mas, quando o Daniel veio até mim depois do almoço, com a testa franzida e os lábios apertados, o meu coração afundou.
"Mãe," ele disse, fechando a porta atrás de si com cuidado. Seus olhos escuros estavam afiados de uma forma que me lembrava demais o pai dele. "É verdade?"
Eu me endireitei na beira da cama, segurando o livro que estava lendo com um pouco de força demais. "O que é verdade?"
"O que todo mundo tá dizendo." Sua garganta mexeu levemente enquanto ele engolia a saliva. "Que você e o Papai vão... voltar." Ele disse isso como se as palavras fossem pesadas demais pra ele.
Por um momento, eu esqueci como respirar.
Era exatamente isso que eu não queria que acontecesse, que o Daniel tivesse falsas esperanças e que fosse colocado no meio do turbilhão que era o meu relacionamento com Kieran Blackthorne.
Com um suspiro pesado, coloquei o livro ao lado e abri os braços. "Vem cá, meu amor."
Naquele momento, meu lindo rapazinho, que já estava amadurecendo, se transformou no menino de dois anos carente que fazia um escândalo toda vez que eu saía do cômodo. Ele se aconchegou no meu colo e eu o envolvi nos meus braços, apoiando o meu queixo nos seus cabelos cacheados.
Respirei fundo para me acalmar. "Danny," disse suavemente, acariciando o seu braço. "Escuta aqui. O seu pai só andou… sendo atencioso porque eu estava machucada. Só isso. Ele fez o que qualquer pessoa decente faria."
"Mas as pessoas ficam dizendo..."
"Eu não ligo pro que as pessoas dizem." Minha voz se elevou antes que eu percebesse, então voltei ao tom suave. Afastei-me um pouco e ergui o queixo dele para poder olhar nos seus olhos. "O que importa é o que você pensa. Não eles."
Ele vasculho o meu rosto por um longo momento, então deixou o seu olhar cair sobre o meu colo.
"O que você tá pensando, meu bem?" perguntei, segurando a respiração à espera da resposta dele.
Ele deu de ombros, aconchegando-se um pouco mais em mim. "Eu acho…" Ele piscou para mim. "Eu acho que não quero que você e o Pai fiquem juntos de novo."
Meus olhos se arregalaram e deixei o ar escapar dos pulmões. Não era isso que eu esperava, especialmente depois da conversa que tivemos o dia que cheguei.
"É só que..." Ele deu de ombros novamente. "Eu sei que eu disse que queria que você e o Papai ficassem juntos de novo, mas aí eu pensei bastante e decidi."
Engoli em seco. "E o que você decidiu, meu bem?"
Ele brincava distraidamente com a barra da camiseta. "O que eu realmente quero é que você seja feliz." Sua voz estava um pouco trêmula, mas ele continuou. "Quando você e o Papai eram casados, você sempre parecia... menor. Como se estivesse tentando desaparecer. E, mesmo que você sempre sorrisse pra mim, eu sabia que você não tava feliz."
Apertei mais o abraço no Daniel. Eu sempre tentei esconder os meus sentimentos dele, mas intuitivo como era e sábio apesar da pouca idade, ele percebeu tudo de qualquer jeito.
"Mas, desde que vocês se divorciaram," ele continuou, "você tá diferente. Você ri mais, faz coisas pra si mesma e não deixa mais pessoas como a Vovó e o Vovô, ou mesmo o Papai, te manipularem."
Lágrimas ameaçaram escapar das minhas pálpebras, mas pisquei rapidamente, apertando as mãos dele.
"Eu acho que... seus novos amigos, e...", ele hesitou, mas continuou, "seu namorado... acho que você tá melhor com eles."
Eu nem queria começar a pensar em como ele sabia sobre o Lucian e o nosso novo relacionamento. Os adultos desta casa precisam, e muito, aprender a fechar o bico perto do meu precoce filho de nove anos.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei